A truta

   Estamos no pequeno jardim da casa entretidos com a minúscula horta, quando somos saudados por um vizinho com as fuças encaixadas nas ripas da vedação de madeira. Como estão? Dia bonito de sol, não é? Temos de aproveitar o bom tempo! - e outras banalidades de semelhante calibre. Eu e a minha patroa suspeitamos o motivo dessa simpatia. O vizinho – como todos os vizinhos, aliás - já foi visitar a truta violácea que mora ao fim da rua, todos menos nós, e aquela paragem diante da nossa casa não tem outro propósito senão o de nos lembrar a nossa cruenta desumanidade. A truta violácea está doente, a truta violácea está com pena dela mesma, e sofre de melancolia, a truta violácea até sonha acordada com regatos de águas cristalinas e lagos de montanha. Fica o dia todo deitada numa cadeira de espaldar no terraço da casa para poder contemplar o rio escuro que corre junto à sua casa e que lambe com as suas águas os pilares dos cais envelhecido da arruinada fábrica de conservas. Está deitada sob o céu ao abrigo dum chapéu de sol, e lastima-se, e arfa com aflição como um peixe fora de água.
   O vizinho desiste de aguilhoar as nossas consciências e vai à sua vida. Eu e a minha patroa sentimo-nos desanimados, e largamos a horta. Os dois lavajamos as mãos na banheira de pássaros do jardim, e formulo a pergunta que se impõem aos nossos espíritos.
   -Temos de lá ir, não é?
   A minha patroa acena que sim, e damos um pulo à cozinha para ir buscar o sal e a faca, para eviscerar a truta violácea.

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