INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

A fuga


    M. estava preso, e tinha por companhia um companheiro de cela de origem italiana. O outro falava pouco, ou quase nada. De resto, não viam mais ninguém. Duas vezes por dia, traziam-lhes comida, acto que era precedido pelo desferrolhar sucessivo de muitas portas, e pela chegada do carcereiro, de cabeça encapuçada para, supunham, ninguém se familiarizar com as suas feições.
    Por mais que pensasse nisso, M. não conseguia estimar qual a situação ou enquadramento da cela em que que estavam trancafiados. Não via nem ouvia mais ninguém, a não ser o carcereiro, e chegara ali, tal como o italiano, de olhos vendados, pelo que não podia descrever nem recordar como era o edíficio que o continha, os corredores, as saídas. Mas, de qualquer forma, entrara nele, pelo que teria de ser possível sair dali, escapar para a liberdade. A cela, de forma retangular, tinha apenas uma pequena janela a meia altura, por onde não entrava luz nenhuma e, olhando por ela, só se conseguia divisar outra parede como aquela, também guarnecido com uma janela com as mesmas dimensões e caraterísticas.
    Depois de muitas insistências e semi-monólogos, conseguiu convencer o italiano a ajudá-lo na fuga. Em dias diferentes, roubaram um dente ao garfo que acompanhava as refeições, e esses dentes, encastoaram em dois bocados de madeira que arrancaram das camas, e confecionaram assim duas rudimentares punções com cabo. No muito tempo que tinham livre começaram a desfazer com a pontas desses dentes o cimento em volta da extremidade das barras de ferro da janela. Ao fim duma semana conseguiram soltar duas dessas barras, conquistando o espaço suficiente para a passagem dum corpo. Os dois passaram por essa abertura e encontraram-se no recinto seguinte. Deram a volta a esse recinto, que envolvia a cela donde tinham saído e que possuía uma janela no enfiamento da primeira, e uma porta trancada à chave defronte da que cerrava a cela deles. Espreitaram por esta segunda janela, e viram uma parede e uma outra janela, em tudo semelhantes às duas primeiras.
    - Mais uma janela para vencermos - sentenciou M -  Apesar de não termos relógio, não há possibilidade de nos surpreenderem fora da cela, porque se começa a ouvir abrir portas uns quinze minutos antes do nosso carcereiro chegar à cela, o tempo que sobeja para colocarmos as coisas nos sítios respetivos e esperarmos pelo carcereiro dentro da cela.
    O italiano anuiu em silêncio e começaram a erodir as barras de ferro da segunda janela. Uns dias depois, haviam conseguido soltar as duas barras de ferro da janela, e cruzaram-na. Um novo recinto a envolver o segundo e, olhando pela diminuta janela, descobriram uma parede semelhante às outras e uma nova janela, gémea das outras. Desta vez, no entanto, e graças a uma luminosidade um pouco mais generosa do outro lado, conseguiam ver que, depois dela, havia pelo menos, mais uma outra janela igual às anteriores.
    O italiano respirou fundo e, como se expirasse num sopro as palavras que andava a guardar dentro dele, declarou.
    - É melhor desistirmos da fuga! Já deveríamos saber o que tinhamos pela frente quando nos meteram numa prisão russa...

Mau feitio


Norb Bron (os subalternos tinham sempre estes nomes parvos), funcionário de Manutenção, foi chamado ao terraço do prédio.
— Eis o que precisamos de ti — explicou-lhe um dos trinta e quatro supervisores que tinha acima de si — o vento despregou parcialmente os painéis de propaganda e tens de os pregar de novo antes que se soltem por completo. Dirige-te à Secção 21 no sexagésimo oitavo piso e requisita um martelo inteligente para teres êxito na incumbência.
Norb obedeceu. Desceu à Secção 21, piso 68º, e foi-lhe atribuído um martelo inteligente. Ligou-o, mas foi logo advertido:
— Não pode usar o martelo inteligente sem primeiro comparecer à Secção 34, a de Ética Asimoviana. Mas previno-o já que esse martelo que aí leva é muito temperamental. Tem de estar sempre de olho nele.
Norb olhou bem o martelo. Parecia-lhe vulgar. As duas pontas metálicas em bola, com o cabo axial de alta tecnologia provido duma abertura ocular onde uma pequenina luz vermelha seguia todos os seus movimentos. Encolheu os ombros e rumou à Secção 34. Aí, solicitaram-lhe que elaborasse um projeto de trabalho onde constasse minuciosamente o motivo pelo qual requisitara o martelo e o uso que dele faria. Concluído o projeto, foi enviado com ele ao jurista de trabalho, que o sancionou, e daí foi encaminhado para o supervisor curricular, que teria de avaliar se Norb possuía a experiência e o know-how necessários para o trabalho descrito no projeto. Uma vez mais, passou no exame, mas foi-lhe exigido que levasse toda a documentação reunida ao supervisor que o encarregara do trabalho, para o informar do andamento do processo e receber a aprovação final de que carecia. Norb assim fez, não notando que a luzinha da abertura ocular do martelo inteligente estava um pouco maior e se movia dum lado para outro com tiques de impaciência.
Depois de passar pelo gabinete do supervisor, e dispondo finalmente de todas as autorizações necessárias, Norb subiu até ao terraço para pregar os painéis de propaganda. Para sua surpresa, já não havia painéis. O vento levara-os. Confuso, Norb apanhou do chão alguns pregos soltos e pensou que, pelo menos, poderia pregá-los à estrutura que suportara os painéis e, assim, a sua missão não seria um completo fracasso. Colocou o primeiro deles a jeito com a mão esquerda e empunhou o martelo com a outra. Mas o martelo já esgotara a paciência e, intempestivamente, começou a martelar-lhe todos os dedinhos da mão.


(escrito para o Infinitamente Improvável)

Um homem inteiro

Eis Júlio Monge, a quem chamam Julião, um homem inteiro.
Mas nem sempre ele foi assim.
Há quatro meses atrás, Julião não sabia onde deixara as pernas, arrastava-se por todo o lado à procura, mas não sabia delas, e todos acabaram por se habituar a vê-lo assim, e a responder com negativas às suas insistentes e angustiadas perguntas a respeito do delicado assunto.
Há dois meses, foi a orelha direita do Julião, cuja falta ele só notou quando decidiu mudar o lado em que traçava o sulco da risca do penteado, destapando assim o lado, o direito, que era aquele onde, como é evidente, se deveria encontrar a dita orelha.
Há apenas duas semanas, Julião notou a falta do dedo indicador da mão esquerda enquanto tamborilava numa mesa de bar o Mack The Knife cantado pela Ella. Já um tanto habituado a esses desaparecimentos misteriosos, nem se atreveu a perguntar a alguém por ele, ainda que fosse um facto notório para todos os presentes, que ele seguiu o resto da música sem continuar a tamborilá-la com os dedos.
E então, há apenas dois dias atrás, essa sucessão de desaparecimentos inverteu-se. Começou por acordar de manhã com as duas pernas que tinham desaparecido. Levantou-se, a dar pulos de alegria e quando se viu diante do espelho do roupeiro do quarto, notou que também tinha a orelha direita no lugar, o que o levou à mais completa euforia. Mas agora, que já foram levados a pensar que tudo isto não fora mais do que um pesadelo do Julião, un cauchemar, que se esfumou por completo na hora de despertar, devo elucidar que assim não foi, e que essas partes do seu corpo que a ele costumam estar ligadas, desapareceram de facto, e que o dedo indicador da mão esquerda continuou desaparecido depois dessa manhã, e assim permaneceu até há uma hora atrás, quando o Julião regressou ao bar onde dera pela sua falta, e o dono do bar lho trouxe. Encontrara-o num cinzeiro cheio de beatas e guardara-o dentro duma caixa vazia de charutos à espera que ele voltasse ao seu estabelecimento.
Julião, felicíssimo, colocou o dedo no seu devido lugar, mesmo a tempo de eu aludir à sua pessoa com a frase de abertura deste texto.


Uma mesa


Na minha sala tenho uma mesa antiga. Uma mesa rústica, de carvalho. Tem quatro pernas, como quase todas as mesas, interligadas entre si a dois palmos do chão por travessas que formam um I - uma travessa comprida ao meio colada e aparafusada a duas travessas perpendiculares mais pequenas. A mesa tem uma personalidade própria, como todos os objetos que as pessoas tocam muitas vezes, deixando-lhes resíduos dos seus odores e medos, do magnetismo, da aura. É apaixonada e melancólica, serena e vibrante, está impregnada com a alegria de quem se senta à sua beira e conta uma história divertida, e da angústia de quem espera um sinal ou uma notícia que pode ser má, com a cabeça apoiada nas mãos e o íntimo tão denso e comprimido como um nó da madeira. A mesa de carvalho tem o tampo muito maltratado, e mesmo com o verniz com que velaram as suas cicatrizes, elas ainda são nítidas; fissuras, cortes, raspões. O gume duma faca que cortou o pão de centeio de côdea rija; marcas de talheres, bicadas de garfos, amolgadelas do cabo da colher do menino que não queria comer as papas de sarrabulho. No centro geométrico do tampo da mesa, e sob um dado ângulo, também se nota uma marca oval precisa, o lugar onde posicionavam a fruteira pesada, guarnecida com a fruta que recolheriam de árvores do quintal ou que comprariam no mercado da aldeia. Olhando para essa marca, consegue-se imaginar ou ver a fruteira, em louça antiga, com relevos frutiformes e foliculares pintado em tons de ocre e creme, com uma pequena racha circular num rebordo, assinalando o sítio onde se quebrou um bocado que foi colado de imediato, com cuidados maternais.
Há muitas mais coisas que eu poderia escrever sobre esta mesa, mas essas coisas, vocês conhecem tão bem ou melhor do que eu, agora que esta mesa se ergue na vossa sala e na vossa fantasia.



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Inspirado num outro texto de Borges:

«A descrição dos objetos é muito enfadonha. Os objetos não podem interessar senão em função dos homens. Com rigor, poder-se-ia fazer um romance onde não houvesse a descrição desta cadeira e desta mesa. Mas eu creio que ninguém leria um romance dessa natureza e ninguém o quereria escrever, a não ser para figurar na história da literatura como a primeira pessoa que escreveu um romance para falar somente de uma mesa»

Citado de “Entrevistas com Jorge Luís Borges” de Georges Charbonnier, Editora Início, Lisboa, s/data (edição original da Gallimard, ano de 1967).

Micrómegas 2

A Capuchinho Vermelho gosta muito de beber café da avó.
O lobo malvado prefere as suas vísceras.

M.E.P. - Uma síntese biográfica


     A meio do século vinte nasce Euderpe Antunes, filho dum guarda-livros e duma bibliotecária e vem ao mundo com a pele muito engelhada como se fosse um alfarrábio antigo. Contudo, nas primeiras semanas (e ao longo do resto da vida), mamou quanto quis, e a pele esticou.
     A família Antunes não conhecia agravos de dinheiro, muito por “culpa” duma situação M.E.P.: doações e bens que ela recebia de familiares abastados, que se juntavam aos proventos duma gorda e falsa pensão por invalidez que o pai de Euderpe auferia desde que empregara um dos recursos M.E.P. Agradados com esta situação, tudo fizeram para transmitir ao filho todos os valores da tradição M.E.P. Ofereciam galinhas e chouriças à educadora de infância, depois aos professores da Primária. Quando Euderpe foi crescendo, as contrapartidas oferecidas iam sendo diversificadas. Dinheiro vivo para alguns mestres, negociatas com o gerente bancário que o empregou depois de terminar os estudos, tráfico de influências com o aparelho do estado que abriram as portas a Euderpe para uma próspera carreira política. M.E.P., M.E.P., M.E.P.
     No auge da sua carreira como político e como cidadão, Euderpe Antunes partilhava com os seus pais a satisfação pelos sucessos e comodidades obtidas através de todos os recursos e truques M.E.P. Quando pensava nisso, Euderpe dava consigo a refletir que era um perfeito cidadão M.E.P. a viver de pança para o ar no mais perfeito e refinado exemplo dum país M.E.P.


Nota:
M.E.P. = Mínimo Esforço Possível

O estranho homem de chapéu e coco

(foto de Rodney Smith)


   O autor primoroso vagueou pelos bosques em busca de palavras e imagens primorosas. Perseguiu um vocábulo desusado que passou por ele aos saltos para se esconder nalguma toca no meio dos tojos, antojou um par de substantivos heteronímicos que se riram dele enquanto se desvaneciam no éter, chamou a si, sem êxito, um latinismo acessório que o ignorou e se manteve no ar a bater as asas reticuladas sobre uma flor vitruvianamente proporcional.
   Cansado, e casado ao seu cansaço, parou diante dum velho carvalho a admirar umas letras gravadas no tronco. Tirou o chapéu de coco para limpar o suor da testa, e sentiu o baque duma framboesa que o atingiu no meio da calva.
   Olhou para cima e viu um homem semelhante a ele em tudo, e sentado num tronco da árvore como uma gárgula esfíngica de carne e osso. Também possuía um chapéu e um coco.
   - Sei o que procuras, e tenho algo para ti – disse-lhe o estranho numa voz que era idêntica à sua.
   - Procuro palavras e imagens primorosas.
   - Tenho algumas para ti. Ei-las: cânhamo, cordame, cordoalha, sisal.
   - Fácil, corda é a palavra do outro lado do prisma.
   - Tenho outras ainda: finado, cláusula, trânsito, libitina, irmã de Morfeu, númen insensível.
   - Essa é ainda mais fácil, referes-te à morte, irmã do sono, deusa indócil, como grafou Bluteau. Não tens mais nada para mim?
   - Palavras, não. Mas dei-te duas palavras à qual chegaste a partir de outras, e estou numa árvore. Isso não te sugere nenhuma imagem primorosa?



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Outros olhares sobre a mesma foto:

Soraia Costa
Vera de Vilhena: I e II
Luís Nogueira

A truta

   Estamos no pequeno jardim da casa entretidos com a minúscula horta, quando somos saudados por um vizinho com as fuças encaixadas nas ripas da vedação de madeira. Como estão? Dia bonito de sol, não é? Temos de aproveitar o bom tempo! - e outras banalidades de semelhante calibre. Eu e a minha patroa suspeitamos o motivo dessa simpatia. O vizinho – como todos os vizinhos, aliás - já foi visitar a truta violácea que mora ao fim da rua, todos menos nós, e aquela paragem diante da nossa casa não tem outro propósito senão o de nos lembrar a nossa cruenta desumanidade. A truta violácea está doente, a truta violácea está com pena dela mesma, e sofre de melancolia, a truta violácea até sonha acordada com regatos de águas cristalinas e lagos de montanha. Fica o dia todo deitada numa cadeira de espaldar no terraço da casa para poder contemplar o rio escuro que corre junto à sua casa e que lambe com as suas águas os pilares dos cais envelhecido da arruinada fábrica de conservas. Está deitada sob o céu ao abrigo dum chapéu de sol, e lastima-se, e arfa com aflição como um peixe fora de água.
   O vizinho desiste de aguilhoar as nossas consciências e vai à sua vida. Eu e a minha patroa sentimo-nos desanimados, e largamos a horta. Os dois lavajamos as mãos na banheira de pássaros do jardim, e formulo a pergunta que se impõem aos nossos espíritos.
   -Temos de lá ir, não é?
   A minha patroa acena que sim, e damos um pulo à cozinha para ir buscar o sal e a faca, para eviscerar a truta violácea.

   "Creio que um escritor não começa por uma ideia abstrata. Começa antes por uma imagem que, ocasionalmente, chegou até ele. Kipling disse que era permitido a um escritor criar fábulas e não saber qual era a moralidade dessas fábulas. Isso pertence aos outros. O escritor propõe símbolos. Quanto à significação desses símbolos, ou à moralidade de que deles se pode tirar, é função da crítica, dos leitores. Não é a sua função. O escritor escreve a sua história; escreve-a com fidelidade. Quero dizer que ele é fiel ao seu sonho, não à maneira de um historiador ou de um jornalista. Ele é fiel de outro modo. Depois da história escrita, ela deve trilhar o seu caminho!"

- Jorge Luís Borges, citado de "Georges Charbonnier, "Entrevistas com Jorge Luís Borges", Editora Início, Lisboa, s/d
- (o itálico é meu).

Um breve silêncio


   O casal chateou-se por uma ninharia de nada, e o marido passou a viver num anexo da casa. Não se falavam. Trinta anos depois, os netos juntaram-nos numa sala para chegarem às falas e fazerem as pazes.
   - Tens alguma coisa para me dizer? – perguntou a mulher.
  - Não! – respondeu ele, e saiu.

O esteta

   Contemplou com muita atenção o quadro que tinha diante de si. No meio duma cela, um homem de carne e osso, muito magro, tinha uma das mãos atadas a uma coxa e o outro braço e mão, também seguros por atilhos e nós ao pescoço, malseguravam um candelabro em equilíbrio no cimo da cabeça. Aos seus pés, um galgo morto, estava disposto no chão em volta dum planisfério pintalgado de sangue, ao lado duma cobra estendida em espiral sobre um vestido roxo de mulher.
   O quadro era pobre. O gigante olhou para uns e outros motivos, a pensar se haveria algum modo de os tornar mais significativos, de sugerirem algo, de serem a porcaria duma coisa qualquer, por mais rebuscada que fosse.
   - Vocês são uma metáfora sem sentido e uma alegoria de coisa alguma – considerou por fim, decidido a devorá-los de empreitada, a começar pelo galgo, que lhe parecia deveras suculento.

já agora

Gato não é da mesma família semântica de verme, tal como condomínio e palácio, freira e porteiro, formiga e caderno, fita métrica e mancha no pulmão. Mas o que é o significado senão o valor que se atribui às palavras. Um gato morto pode estar cheio de vermes, um condomínio fechado pode ser um autêntico palácio, a freira pode estar enrolada com o porteiro de discoteca ou sonhar em encontrar-se em verdadeira glória com S. Pedro, a formiga pode ter ficado esmagada no caderno de esquissos, inspirando o artista a desenhar-lhe um ataúde em volta do corpo, e a fita métrica pode ser a primeira coisa que vem à cabeça dum desgraçado quando um médico lhe diz que tem uma grande mancha no pulmão. As famílias semânticas não são estanques e recebem constantemente novos membros por afinidade ou acasalamento ou ainda por revindicação dos familiares bastardos, e crescem para muitos lados, conhecendo uma verdadeira explosão no que toca à imaginação literária.
Sentindo a agonia do seu pai no leito, o filho cumpre o pedido que este lhe fizera. Toma duma estante os parcos livros que ele escrevera e, subindo à janela das águas-furtadas, despagina aquelas obras, soltando os seus personagens e versos no torvelinho manso da brisa, que as semeia pela cidade, do azeviche do alcatrão ao verde dos baldios crivados de lixo e drogados, e na cúmplice dissolução das águas cor de safira do lago.

Micrómegas 1

Um homem velho e entediado descasca amendoins dum saco enquanto caminha, rilhando-os com os dentes cariados. Uma formiga - daquelas que nasceram durante um luar de sonhos - segue no encalço do homem, imaginando que chovem navios despedaçados

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...