Os imigrantes

   Os adultos esperavam, homens e mulheres quietos numa mansa expetativa. As carroças estavam paradas no mesmo sítio e os animais pastavam em volta, um pouco desaquietados pelo riso e pelas brincadeiras das crianças. Se alguém, estranho àquele grupo, passasse por ali naquele momento, estranharia sobremaneira o silêncio e a imobilidade dos crescidos, e as palavras e cantilenas dos mais pequenos, tecidas numa língua desconhecida.
   Ao entardecer, regressaram os emissários, e todos se juntaram em redor do ancião que aquecia os seus velhos ossos cansados no calor da fogueira. Um dos emissários entregou-lhe um pote com terra enlameada recolhida na margem dum arroio num lugar profundo dos bosques; outro, depositou aos seus pés uma âmbula selada de vidro com ar recolhido no vértice da montanha; o terceiro, apresentou-lhe uma raiz de mandrágora envolvida em folhas, mandrágora que recolhera sem usar as mãos ou qualquer utensílio de metal impuro. O ancião estudou estes espécimes, sentiu a terra humuosa com os dedos de pele ressequida, remexendo-a como se fosse uma criança a brincar com a lama, aspirou o ar da âmbula de vidro, e partiu a mandrágora com um pau para observar o seu interior. Esteve muito tempo nisto, refletindo, manuseando os elementos, olhando em volta as pessoas ali reunidas, e o céu e as copas dos ciprestes por detrás delas. Esse recolhimento foi interrompido por uma das crianças que perguntou num leve trinado:
   - Quando é que construímos a casa?
   O ancião sorriu, e respondeu-lhe:
   - Agora mesmo. Vamos ficar aqui!
   E, mal a criança se afastou com pulos de alegria, prosseguiu.
   - Esta não é a nossa terra, nunca vai ser, o nosso sangue e a nossa língua não reconhecem este solo e este céu, e nenhum amor toma o lugar de outro. Mas pode ser, com muita fortuna, a terra dos vossos filhos ou dos filhos dos vossos filhos. Por tudo isto, arvorem as casas!

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