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O reencontro


Primeiro momento:

   - Vou-me embora! – disse Eurico, quando a mulher o surpreendeu nas traseiras da casa a enfiar sandes embrulhadas em celofane dentro duma mochila de ganga.
   - Para onde? Por quê?
   Eurico encolheu os ombros e respondeu às arrecuas, deixando espaço para as explicações que devia.
   - Tu ficas bem…não temos filhos e não temos dívidas. A casa é robusta e bem equipada, e estas terras e o teu trabalho são uma oferta do teu pai, que nunca deixará de te ajudar. Mas isto não serve para mim, não nasci para viver no meio destas serranias, com granito e nuvens por tudo quanto é horizonte e nenhum som pela tardinha que não seja o dos sinos doutra aldeola perdida no meio dos montes. Eu preciso de estar ao pé do mar, nasci e vivi durante quase toda a minha vida debaixo saias do Oceano, e a primeira memória que tenho de mim mesmo é o da minha mãe me levar a molhar os pés na água salgada. Eu até sonho com o mar, mas tu não queres ir comigo e eu não posso ficar, é só isso…
   A mulher sentou-se pesadamente numa pedra junto à cerca da burra, e ficou a olhar o marido em silêncio enquanto ele se afastava pela estrada de terra batida na direção do vale e das estradas de alcatrão. Quando a sua figura se eclipsou na curva do caminho por detrás das copa baixa das figueiras, afastou com a mão uma mosca que zunia junto à sua cara e, contendo as lágrimas, que sabia não servirem para nada, acariciou o ventre saliente e pensou consigo que teria de arranjar outro homem para a ajudar a seguir com a vida.

Segundo momento:

   Depois de semanas de viagem, pedindo boleia a camionistas ou gastando algum dinheiro em camionetas quando a boleia não surgia, Eurico estava finalmente muito próximo de atingir o mar, à boleia numa carrinha de caixa aberta carregada de fruta. Conseguia sentir o cheiro do mar, das algas apodrecidas, da maresia salgada que corrói os metais e alimenta o espírito. Depois duma última curva da estrada no meio das dunas altas, a enseada surgiu-lhe diante dos olhos e, mal a carrinha parou, gritou um agradecimento ao condutor e correu para a praia. Tão eufórico estava que, só quando os seus pés nus pisaram a areia da praia, é que notou que havia algo de errado. O mar parecia ter desaparecido, toda a enseada estava esvaziada, com os barcos pousados no fundo num desconforto oblíquo e os peixes a estremecer em agonia nas poças e lagunas de água salgada. Entrou pela enseada adentro, sentindo os pés a enterrarem-se na areia do fundo, ainda empapada em água e ficou abismado quando ergueu os olhos: uma muralha de água de cor turquesa e de crina dourada pelo sol, estendia-se na linha do horizonte dum lado ao outro. Não sentiu medo nem receio pela sua própria vida, e enquanto a vaga do tsunami avançava ao seu encontro, não conseguia deixar de rir às gargalhadas, sentindo que aquele era o espetáculo mais belo que presenciara em toda a sua vida.


Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...