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Cinco aplicações para um olhar casual

   O senhor K. sobe a rua da sua casa pelo passeio apinhado de gente naquele fim de tarde. Todos têm pressa de regressar a casa, buzinam ao volante dos carros, saltam dos autocarros com a energia de pássaros libertos que se esgueiram por entre a multidão em busca do ninho.
   K. não corre, K. não acelera sequer o passo. Estar dentro de casa é tão estranho como estar fora dela. Quando está a poucos metros da entrada do seu prédio nota que, numa loja de malhas, uma jovem está junto à vidraça a compor a montra, ataviando manequins com roupas quentes. É jovem e é bonita, de longos cabelos castanhos com uma franja a ondear sobre a testa, e a pele do rosto muito branca onde uns óculos de aros finos não ocultam a beleza duns olhos esverdeados. Quando está mesmo junto à loja, a empregada levanta a cara, e sorri enquanto acena com alegria. K. sente-se invadido por uma alegria vibrante que lhe descompassa as batidas do coração e lhe aquece o sangue nas veias. Logo se apercebe que o cumprimento não é dirigido a ele, mas a uma senhora ao seu lado no passeio e, no entanto, aquela sensação não desaparece. Aquele olhar e aquele sorriso permanecem com K para o resto do dia.
   Estão com ele enquanto come um caldo esfriado na mesa da cozinha e despeja um quartilho de vinho.
   Permanece ao seu lado enquanto tenta ver o noticiário na televisão, e dormita no sofá.
   Acordam-no como um afago ao de leve nos pêlos do braço que pende nas costas do sofá.
   Aconchegam K. na cama quando se deita, e andam por perto até ele fechar as pálpebras.
   Quando K. adormece, aquele olhar e aquele sorriso recolhem a uma gaveta entreaberta da mesa-de-cabeceira, velando com a sua beleza um pacote de lâminas de barbear que K. mantinha ali há algumas semanas. Para o que fosse preciso.

Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...