Aluimento (parvoeira)


  (pequeno diálogo acompanhado pela lúdica música de alaúdes)

 - A mensagem pode partir de um para um, de um para muitos, de muitos para um. É como um problema matemático ou geométrico. Quando muitos entram na operação, é comum a mensagem partir-se, deformar-se, gangrenar. Mas alui sempre em alguém.
   - A que é que fazes alusão?
   - A mensagem é significativa, mas o silêncio, a ausência de uma mensagem intencional ou casual, também o é. Se o silêncio é significativo, quantas vidas ou quantas mortes encerram as palavras? De toda a forma, todas elas, as palavras e as suas vidas, aluem sempre sobre alguém.
   - Continuo sem perceber a que aludes tu!
   - Como somos seres racionais, com um rácio de bom-senso muito variável, as palavras e os silêncios são o nosso chão, o nosso tabuleiro de xadrez. Se nos falham, é como se o chão aluísse debaixo de nós, e o vazio alui em nós, um vazio vivo que destrói o que nos resta de pensamentos e perceções ordenadas.
   - De uma vez por todas, fazes alusão a quê?
   - Porquê esse ultimato? De que te queixas tu? Pedi-te para me fazeres um chá com água comum e usaste, em vez disso, água filosofal. E esse chá aluiu em mim!

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