ABCDário: Z de Zangarilho


   Augusto Campos é um homem elegante, já idoso mas que nada tem em comum com esses despojados de vontade que decoram os bancos do parque e se quedam nas mesas dos cafés sem fazer despesa enquanto se nutrem das notícias e anúncios dos jornais. Campos era distinto dos outros, sempre muito bem ataviado e perfumado, cumprimentando todos e mantendo conversas animadas com um qualquer conhecido, vinha muitas vezes ao nosso café para comprar rebuçados e gomas que pedia para embalarmos num saquinho de plástico que ele colocava no bolso do casaco com presteza. Era a sua fraqueza, as guloseimas, comprava-as amiúde, escolhendo a dedo as mais coloridas e vistosas, porque os olhos também comem, como justificava em tom de gracejo. Era um gosto vê-lo flanar pelo café e pelas ruas com o seu ar de cavalheiro ilustre e bem colocado na vida, e a minha patroa dizia-me: “Quando fores velho, gostava que fosses como o Campos, encantador e cheio de espírito. Dava-me cá uma coisa se te tornasses num daqueles velhos macambúzios que até no olhar cheiram a velho!”. Eu fazia-lhe a vontade e prometia que tentaria ser como ele, mas que, para o conseguir, tinha de decorar primeiro alguns dicionários porque o Campos tinha conversas muito inteligentes recheadas de palavras bonitas que eu não percebia. O Campos era o ai-Jesus de todos na rua, da minha mulher às vendedeiras na praça, das jovens que trabalhavam na tabacaria aos taxistas que conversinhavam no passeio da praça de táxis enquanto os clientes não apareciam ou telefonavam. Ele entrava no nosso café e a minha mulher mimava-o com modos familiares, e o mesmo para a minha sobrinha, uma moça com a silhueta duma poltrona que escondia o pano de limpar as mesas para ajeitar sobre a testa a franja de cabelos gordurosos, e afagar o ombro do casaco do Campos para lhe repetir que estava muito elegante naquele dia.
   Os tempos foram passando e passou no nosso café a filha do Campos, uma mulher de meia-idade de rosto severo e antipático (deve ter puxado á mãe, apostava a minha mulher em surdina). Procurava o Campos por causa duns papéis do advogado que ele tinha de assinar, e tentara ali porque lhe disseram que o café era um dos seus poisos habituais. A minha mulher, apesar da manifesta antipatia da criatura, chamou-a à parte para ter com ela uma pequena conversa, para bem do Campos. O Campos já tem muita idade, prologou a minha mulher, e naquela idade tem de se ter muitos cuidados com a saúde, e não era nada saudável para o Campos comer tantos doces como comia, podia mesmo ficar diabético. A senhora suspirou e teve para com ela um frémito de simpatia, deu-lhe uma palmadinha amistosa nas costas da mão, esboçou uma espécie de sorriso e declarou: “Não se aflija por ele. O meu pai não come doces, ele é pedófilo e usa os doces para meter conversa com as crianças no centro comercial e na estação dos comboios. É por isso que anda sempre com queixas na polícia e me incumbe a mim de arrigementar advogados e tratar dos papéis”.
   A minha mulher abriu muito a boca, como se lhe tivessem dado um murro no estômago e exclamou:
   - Ai, Jesus!

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