INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

da qualidade dalguns momentos


   Descobriu o momento perdido. Estava caído no chão no seu caminho de todos os dias. Olhou em volta - como se fosse um crime tentar recuperá-lo - e enfiou-o no bolso da camisa. Má escolha! Era um mau momento, e devorou-lhe o coração.

ABCDário: V de Verrinoso


V já estava velhusco, e em toda a sua vida fora vil, violento e vociferador, mau-feitio, cara-de-gárgula-vesgolha, venenoso e verrinoso, vexava e vituperava a quem passava ao largo, agredia e vergastava a quem o deixasse. V fedia, V enojava como uma cloaca aberta aos céus ou um vertedouro de sarro.
V, mesmo não conhecendo mãe, era um vero filho da puta, um vermículo vertebrado, um velhaco vivaz, um varrão, uma virose, uma verruga e uma pústula, uma vérmina, uma vide de mau vinho, uma vergôntea vergonhosa da espécie humana.
Mas não julguem vocês que tal criatura (termo excessivo, porque seria preciso que Deus, para o inventar, estivesse virado do avesso), não foi capaz, por uma vez, de um gesto gentil em toda a sua vida vomífica. Bem vistas as coisas, foi um gesto amável, ter apontado a cadeira ao padre acovardado que veio para lhe dar a extrema-unção.

Aluimento (parvoeira)


  (pequeno diálogo acompanhado pela lúdica música de alaúdes)

 - A mensagem pode partir de um para um, de um para muitos, de muitos para um. É como um problema matemático ou geométrico. Quando muitos entram na operação, é comum a mensagem partir-se, deformar-se, gangrenar. Mas alui sempre em alguém.
   - A que é que fazes alusão?
   - A mensagem é significativa, mas o silêncio, a ausência de uma mensagem intencional ou casual, também o é. Se o silêncio é significativo, quantas vidas ou quantas mortes encerram as palavras? De toda a forma, todas elas, as palavras e as suas vidas, aluem sempre sobre alguém.
   - Continuo sem perceber a que aludes tu!
   - Como somos seres racionais, com um rácio de bom-senso muito variável, as palavras e os silêncios são o nosso chão, o nosso tabuleiro de xadrez. Se nos falham, é como se o chão aluísse debaixo de nós, e o vazio alui em nós, um vazio vivo que destrói o que nos resta de pensamentos e perceções ordenadas.
   - De uma vez por todas, fazes alusão a quê?
   - Porquê esse ultimato? De que te queixas tu? Pedi-te para me fazeres um chá com água comum e usaste, em vez disso, água filosofal. E esse chá aluiu em mim!

Conto a Duas Mãos: A Carta


   O velho rendeiro está desanimado. A terra está a produzir pouco, o adubo quimico queima o solo, estrume não há desde que os inspetores fecharam a vacaria. Voltou-se para as estufas mas comprar as sementes todos os anos á cooperativa sai muito caro. Sementes de híbridos e adubos estão a sair ao preço da produção. Não consegue escoar os produtos a preço razoável. Que fazer? Voltar-se para onde? Talvez o negócio do aviário não seja má ideia agora que o povo só compra barato. Carne de frango é boa para o pobre. As galinhas poedeiras podem dar um rendimento extra. Sente-se estrangulado mas pelo menos o senhoria mantem a renda baixa.
   Aproxima-se de casa, cabisbaixo e imerso nos seus pensamentos e a filha sai disparada pela porta.
   - Pai, chegou carta da senhoria.
   Segurou a carta que a filha lhe estendia. Não tinha coragem para a abrir e enfiou-a no bolso da camisa de escocês. Sentou-se nos degraus da escada, descalçou as botas enlameadas e bateu-as com força contra o chão de cimento para despregar os torrões de terra. Pegou por fim na carta e abriu-a. Era o que temia, a senhoria comunicava que teria que subir a renda, porque as despesas eram cada dia maiores, e não tinha outro meio de lhes fazer face. Abanou a cabeça, desanimado. Se não fosse pela filha, mais valia enfiar um cartucho de chumbo nos miolos e resolviam-se os problemas todos.
Entrou na casa de cabeça baixa, lavou as mãos e comeu o caldo olorífero que a filha pusera na mesa, acompanhado por um naco de pão e uma taça de vinho. A filha sentou-se ao seu lado, encostou a cabeça ao seu ombro, dando a entender que percebera tudo. Mas havia algo mais naquele silêncio e naquele gesto da filha. Afagou-lhe os cabelos com suavidade, incitando-a a falar.
   - Sabes, pai, o Marco, o meu namorado, quer falar contigo, e eu pedi-lhe para vir aqui ter. Deve estar a chegar. Durante a tarde, fiz uma tarte de maçã, e vou pôr agora uma cafeteira de água ao lume para fazer um café para todos.
   O velho assentiu com uma mansidão fatalista. O Marco era um jovem da terra, acabara o serviço militar e arrendara a antiga fazenda que era propriedade dos Castros, reconstruíra a casa e montara nos terrenos um aviário que parecia ir de vento em popa. Era natural que, agora que as coisas lhe pareciam estar a correr bem, desejasse criar raízes, casar-se com a sua filha, criar uma família...era a ordem natural das coisas.  Custava-lhe a ideia de ficar sozinho naquela casa, mas não lhe cabia opor-se a isso, seria de uma insensatez parva e sem futuro.
   Acabou de comer e foi sentar-se no cadeirão. Ligou o velho rádio. Estava quase na hora das notícias e preocupava-o o tempo que faria no dia seguinte. Mas baixou o volume do rádio quando ouviu um rumor de vozes na entrada, e acabou por o desligar quando o rapagão entrou na sala. A filha puxou uma das cadeiras da mesa para ao pé do pai, e Marco sentou-se nela depois de lhe apertar timidamente a mão. Instalou-se um incómodo silêncio entre os dois, com Marco a raspar com a unha no zip do impermeável e o velho diante de si com as mãos enclavinhadas nos braços do cadeirão como se estivesse sentado num avião prestes a levantar voo. A filha interveio, colocou um banco de madeira no meio dos dois, com um pano de cozinha por cima, onde conseguiu acondicionar as duas chávenas de café quente e um prato de louça com algumas fatias da tarte de maçã; e enquanto o fazia ia chilreando para manter afastado o silêncio - que o café estava forte como ambos gostavam, que fizera a tarte com maçãs do pequeno pomar ao lado da estufa, e que parecia estar boa porque provara uma talisca dela, mas eles lá o diriam. Marco pôs-se muito direito na cadeira e aproveitando a ondulação das palavras da namorada, começou também a falar.
   - O senhor Sezinando sabe que eu namoro com a sua filha há quase três anos, e que sempre pensamos em fazer vida juntos. Chegamos a pensar em datas, mas agora todos os nossos planos deram em nada...
   - Então porquê?
   - Ardeu a casa onde eu morava. Foi há três noites, uma fuga de gás. Ainda era daquelas instalações com mangueira flexível de gás e abraçadeiras, e eu já pensara comigo que aquilo era um perigo e que devia chamar um técnico para fazer tudo de novo mas, infelizmente, deixei as coisas andar e foi a minha desgraça. Eu estava a trabalhar no aviário e, quando dei por ela, não pude fazer nada, parecia uma tocha a arder...
   - Não soube de nada, lamento.
   O jovem agradeceu, baixando os olhos para não se perceber a sua comoção.
   - Falei com os senhorios, e eles não me consideram responsável porque compreendem que foi uma tragédia que podia acontecer com a casa desabitada, e eles sabem bem o que eu trabalhei naquela casa para a por como deve ser. Mas por outro lado, é impensável eu reconstruí-la a partir dos escombros, e o senhor Castro também é da mesma opinião e diz que seria melhor pensado ele vender o terreno tal como está, porque a casa que lá estava também já estava a caminhar para ruína. Vistas as coisas, tinha algo para lhe propor, senhor Sezinando!
   - Diz, meu rapaz!
   Marco engoliu um bocado grande de bolo que quase lhe obstruía a curva da garganta, encheu o peito de ar e continuou.
   - O aviário que eu montei continua intato, e eu só não tenho é casa. Estou a dormir numa pensão na vila. A sua filha disse-me que vocês têm um quarto vago, que pertencia ao seu filho mais velho, o que se mudou para Coimbra. Se o senhor achasse bem, eu mudava-me para esse quarto. Instalava cá o aviário, e pelos dois fazíamos o trabalho, pagávamos a renda e suportávamos os outros custos da exploração, como uma família. Com dois pares de braços, seria tudo muito mais fácil e, depois, se tudo corresse bem, eu e a sua filha podíamos voltar a pensar em dar o nó. Se o senhor achar bem, uma coisa e outra...
   Desta vez foi a vez do velho se comover. Como era homem de poucas palavras, levantou-se, abraça com força o namorado da filha e diz-lhe:
   - Se queres mudar-te para cá, de que é que estás à espera?



Escrito por Maria e José

ABCDário: X de Xacoco

   No alpendre sombreado da casa, a mãe olhou, com uma ponta (inconfessável) de pena, o seu filho mancebo. O rapaz estava sentado precariamente no parapeito do alpendre, com as pernas e os braços esticados em sentidos opostos. Tinha a barba por fazer, a camisa por fora das calças, todo desbarrigado, e aquela boca! Como é que alguém conseguia não deixar de olhar com repulsa para aquela boca onde já faltavam tantos dentes? Num jovem!
   - Não podemos deixar-te subir ao altar com essa boca tão feia! - disse-lhe em tom de promessa.
   O filho não deu grande atenção às suas palavras, e ela rematou:
   - Também te vamos arranjar umas roupas e uns sapatos apresentáveis.
   A displicência do enxacoco do filho não a desencorajou. Nos tempos que se seguiram, levou-o ao dentista e a lojas de roupas.
   -Faça um milagre com o meu filho - solicitou à dentista logo na primeira consulta - quero que ele fique bonito porque vai subir ao altar, ter uma vida nova e dar-me muitos netos.
   A dentista sorriu diante das suas palavras, e a verdade é que a sua obra pareceu no final um autêntico milagre - o filho dela ficou com os dentes completos, e a brilhar como marfim polido. Quando se ria, dava gosto admirar os seus dentes, mesmo que ele continuasse, como antes, a cuspinhar saliva.
Uns meses depois da resolução que tomara para a vida do seu filho melhorar, a velha tirou mais algumas notas do seu esconderijo - uma lata vazia de feijão em meio ao recato da despensa da cozinha - e organizou um pequeno lanche para os amigos e vizinhos. Quando estavam todos a debicar na mesa com comes e bebes que ela montara no alpendre, chamou pelo filho, que saiu a medo do interior da casa com os olhos cravados no chão, envergonhado pela presença de tantas pessoas. E essas pessoas aplaudiram energicamente a metamorfose do jovem. Parecia outro com os dentes arranjados, e as roupas e os sapatos novos. "Parece um noivo!" gritou um amigo da família, improvisando um brinde com o vidro das taças do vinho a repicarem sobre a mesa.
   - Um minuto de atenção - pediu a mãe, levantando a voz - este meu filho, como está agora, está preparado e pronto para subir ao altar. E tal como eu disse que o poria como novo, como de facto cumpri, prometo-vos agora que vou arranjar-lhe uma noiva e levá-lo ao altar. E tenho de ser eu a conseguir uma noiva para ele, porque se Deus deu ao meu filho toda a beleza que alguma pessoa pode desejar ter, não lhe deu o tino e a inteligência para isso! Ele vai casar-se e, se necessário for, ficarei no quarto dos noivos para os ensinar a darem-me netos, que não hei-de morrer sem os ter!


ABCDário: Y de Adão Cromossomial-Y


   - Parem, meus filhos, e esperem por mim! - Rugiu, ofegante, o velho homem com as pernas enfiadas na neve até aos joelhos.
   Os outros obedeceram, olhando para trás, o frio atravessava as roupas de pele de bisonte, chegando aos ossos.
   - Estamos muito longe da caverna, não vamos conseguir chegar lá antes que o leão das cavernas nos apanhe.
   - Porque paramos, então?
   - Porque eu sonhei com coisas que vocês nunca conhecerão, e eu preciso que saibam. Sonhei que de mim descenderão todos os homens do futuro, os sonhadores e os assassinos, os caçadores e os xamãs, sonhei com um cogumelo de fogo a queimar como o Sol, e com caras em espelhos lisos de gelo, a falar e a cantar; sonhei…
   Ouve-se um rugido aterrador na orla da clareira, um rugido que a escuridão da noite e as árvores da floresta fazem ecoar.
   - Então deixa-te ficar, homem, que nós vamos correr para esse futuro.

ABCDário: Z de Zangarilho


   Augusto Campos é um homem elegante, já idoso mas que nada tem em comum com esses despojados de vontade que decoram os bancos do parque e se quedam nas mesas dos cafés sem fazer despesa enquanto se nutrem das notícias e anúncios dos jornais. Campos era distinto dos outros, sempre muito bem ataviado e perfumado, cumprimentando todos e mantendo conversas animadas com um qualquer conhecido, vinha muitas vezes ao nosso café para comprar rebuçados e gomas que pedia para embalarmos num saquinho de plástico que ele colocava no bolso do casaco com presteza. Era a sua fraqueza, as guloseimas, comprava-as amiúde, escolhendo a dedo as mais coloridas e vistosas, porque os olhos também comem, como justificava em tom de gracejo. Era um gosto vê-lo flanar pelo café e pelas ruas com o seu ar de cavalheiro ilustre e bem colocado na vida, e a minha patroa dizia-me: “Quando fores velho, gostava que fosses como o Campos, encantador e cheio de espírito. Dava-me cá uma coisa se te tornasses num daqueles velhos macambúzios que até no olhar cheiram a velho!”. Eu fazia-lhe a vontade e prometia que tentaria ser como ele, mas que, para o conseguir, tinha de decorar primeiro alguns dicionários porque o Campos tinha conversas muito inteligentes recheadas de palavras bonitas que eu não percebia. O Campos era o ai-Jesus de todos na rua, da minha mulher às vendedeiras na praça, das jovens que trabalhavam na tabacaria aos taxistas que conversinhavam no passeio da praça de táxis enquanto os clientes não apareciam ou telefonavam. Ele entrava no nosso café e a minha mulher mimava-o com modos familiares, e o mesmo para a minha sobrinha, uma moça com a silhueta duma poltrona que escondia o pano de limpar as mesas para ajeitar sobre a testa a franja de cabelos gordurosos, e afagar o ombro do casaco do Campos para lhe repetir que estava muito elegante naquele dia.
   Os tempos foram passando e passou no nosso café a filha do Campos, uma mulher de meia-idade de rosto severo e antipático (deve ter puxado á mãe, apostava a minha mulher em surdina). Procurava o Campos por causa duns papéis do advogado que ele tinha de assinar, e tentara ali porque lhe disseram que o café era um dos seus poisos habituais. A minha mulher, apesar da manifesta antipatia da criatura, chamou-a à parte para ter com ela uma pequena conversa, para bem do Campos. O Campos já tem muita idade, prologou a minha mulher, e naquela idade tem de se ter muitos cuidados com a saúde, e não era nada saudável para o Campos comer tantos doces como comia, podia mesmo ficar diabético. A senhora suspirou e teve para com ela um frémito de simpatia, deu-lhe uma palmadinha amistosa nas costas da mão, esboçou uma espécie de sorriso e declarou: “Não se aflija por ele. O meu pai não come doces, ele é pedófilo e usa os doces para meter conversa com as crianças no centro comercial e na estação dos comboios. É por isso que anda sempre com queixas na polícia e me incumbe a mim de arrigementar advogados e tratar dos papéis”.
   A minha mulher abriu muito a boca, como se lhe tivessem dado um murro no estômago e exclamou:
   - Ai, Jesus!

Inverno

   A manhã nasceu pálida, o sangue mal lhe corria nas veias e o frio azulava-lhe as faces. A mãe tomou-a nos braços, encostou-a ao calor do seu corpo, e uniu as faces de ambas num enlevo absoluto. Aos poucos, afugentando a névoa e as sombras, o seu olhar trouxe de volta a luz e a cor.


Os imigrantes

   Os adultos esperavam, homens e mulheres quietos numa mansa expetativa. As carroças estavam paradas no mesmo sítio e os animais pastavam em volta, um pouco desaquietados pelo riso e pelas brincadeiras das crianças. Se alguém, estranho àquele grupo, passasse por ali naquele momento, estranharia sobremaneira o silêncio e a imobilidade dos crescidos, e as palavras e cantilenas dos mais pequenos, tecidas numa língua desconhecida.
   Ao entardecer, regressaram os emissários, e todos se juntaram em redor do ancião que aquecia os seus velhos ossos cansados no calor da fogueira. Um dos emissários entregou-lhe um pote com terra enlameada recolhida na margem dum arroio num lugar profundo dos bosques; outro, depositou aos seus pés uma âmbula selada de vidro com ar recolhido no vértice da montanha; o terceiro, apresentou-lhe uma raiz de mandrágora envolvida em folhas, mandrágora que recolhera sem usar as mãos ou qualquer utensílio de metal impuro. O ancião estudou estes espécimes, sentiu a terra humuosa com os dedos de pele ressequida, remexendo-a como se fosse uma criança a brincar com a lama, aspirou o ar da âmbula de vidro, e partiu a mandrágora com um pau para observar o seu interior. Esteve muito tempo nisto, refletindo, manuseando os elementos, olhando em volta as pessoas ali reunidas, e o céu e as copas dos ciprestes por detrás delas. Esse recolhimento foi interrompido por uma das crianças que perguntou num leve trinado:
   - Quando é que construímos a casa?
   O ancião sorriu, e respondeu-lhe:
   - Agora mesmo. Vamos ficar aqui!
   E, mal a criança se afastou com pulos de alegria, prosseguiu.
   - Esta não é a nossa terra, nunca vai ser, o nosso sangue e a nossa língua não reconhecem este solo e este céu, e nenhum amor toma o lugar de outro. Mas pode ser, com muita fortuna, a terra dos vossos filhos ou dos filhos dos vossos filhos. Por tudo isto, arvorem as casas!

O reencontro


Primeiro momento:

   - Vou-me embora! – disse Eurico, quando a mulher o surpreendeu nas traseiras da casa a enfiar sandes embrulhadas em celofane dentro duma mochila de ganga.
   - Para onde? Por quê?
   Eurico encolheu os ombros e respondeu às arrecuas, deixando espaço para as explicações que devia.
   - Tu ficas bem…não temos filhos e não temos dívidas. A casa é robusta e bem equipada, e estas terras e o teu trabalho são uma oferta do teu pai, que nunca deixará de te ajudar. Mas isto não serve para mim, não nasci para viver no meio destas serranias, com granito e nuvens por tudo quanto é horizonte e nenhum som pela tardinha que não seja o dos sinos doutra aldeola perdida no meio dos montes. Eu preciso de estar ao pé do mar, nasci e vivi durante quase toda a minha vida debaixo saias do Oceano, e a primeira memória que tenho de mim mesmo é o da minha mãe me levar a molhar os pés na água salgada. Eu até sonho com o mar, mas tu não queres ir comigo e eu não posso ficar, é só isso…
   A mulher sentou-se pesadamente numa pedra junto à cerca da burra, e ficou a olhar o marido em silêncio enquanto ele se afastava pela estrada de terra batida na direção do vale e das estradas de alcatrão. Quando a sua figura se eclipsou na curva do caminho por detrás das copa baixa das figueiras, afastou com a mão uma mosca que zunia junto à sua cara e, contendo as lágrimas, que sabia não servirem para nada, acariciou o ventre saliente e pensou consigo que teria de arranjar outro homem para a ajudar a seguir com a vida.

Segundo momento:

   Depois de semanas de viagem, pedindo boleia a camionistas ou gastando algum dinheiro em camionetas quando a boleia não surgia, Eurico estava finalmente muito próximo de atingir o mar, à boleia numa carrinha de caixa aberta carregada de fruta. Conseguia sentir o cheiro do mar, das algas apodrecidas, da maresia salgada que corrói os metais e alimenta o espírito. Depois duma última curva da estrada no meio das dunas altas, a enseada surgiu-lhe diante dos olhos e, mal a carrinha parou, gritou um agradecimento ao condutor e correu para a praia. Tão eufórico estava que, só quando os seus pés nus pisaram a areia da praia, é que notou que havia algo de errado. O mar parecia ter desaparecido, toda a enseada estava esvaziada, com os barcos pousados no fundo num desconforto oblíquo e os peixes a estremecer em agonia nas poças e lagunas de água salgada. Entrou pela enseada adentro, sentindo os pés a enterrarem-se na areia do fundo, ainda empapada em água e ficou abismado quando ergueu os olhos: uma muralha de água de cor turquesa e de crina dourada pelo sol, estendia-se na linha do horizonte dum lado ao outro. Não sentiu medo nem receio pela sua própria vida, e enquanto a vaga do tsunami avançava ao seu encontro, não conseguia deixar de rir às gargalhadas, sentindo que aquele era o espetáculo mais belo que presenciara em toda a sua vida.


Cinco aplicações para um olhar casual

   O senhor K. sobe a rua da sua casa pelo passeio apinhado de gente naquele fim de tarde. Todos têm pressa de regressar a casa, buzinam ao volante dos carros, saltam dos autocarros com a energia de pássaros libertos que se esgueiram por entre a multidão em busca do ninho.
   K. não corre, K. não acelera sequer o passo. Estar dentro de casa é tão estranho como estar fora dela. Quando está a poucos metros da entrada do seu prédio nota que, numa loja de malhas, uma jovem está junto à vidraça a compor a montra, ataviando manequins com roupas quentes. É jovem e é bonita, de longos cabelos castanhos com uma franja a ondear sobre a testa, e a pele do rosto muito branca onde uns óculos de aros finos não ocultam a beleza duns olhos esverdeados. Quando está mesmo junto à loja, a empregada levanta a cara, e sorri enquanto acena com alegria. K. sente-se invadido por uma alegria vibrante que lhe descompassa as batidas do coração e lhe aquece o sangue nas veias. Logo se apercebe que o cumprimento não é dirigido a ele, mas a uma senhora ao seu lado no passeio e, no entanto, aquela sensação não desaparece. Aquele olhar e aquele sorriso permanecem com K para o resto do dia.
   Estão com ele enquanto come um caldo esfriado na mesa da cozinha e despeja um quartilho de vinho.
   Permanece ao seu lado enquanto tenta ver o noticiário na televisão, e dormita no sofá.
   Acordam-no como um afago ao de leve nos pêlos do braço que pende nas costas do sofá.
   Aconchegam K. na cama quando se deita, e andam por perto até ele fechar as pálpebras.
   Quando K. adormece, aquele olhar e aquele sorriso recolhem a uma gaveta entreaberta da mesa-de-cabeceira, velando com a sua beleza um pacote de lâminas de barbear que K. mantinha ali há algumas semanas. Para o que fosse preciso.

As Palavras do Guia:



1. 
A cidade cresceu e cresceu até cobrir todo o planeta


2.
Antes, imaginem, viam-se as estrelas quando se olhava o céu!


3.
Podem ver o crânio do Allien achado sob a pegada de Armstrong


4.
Quando endireitaram a Torre de Pisa, aprumou-se o eixo da Terra


5.
Após o 405º Fim do Mundo, os Maias voltaram a erguer pirâmides


6.
Hoje vivemos mais tempo, e as nossas baterias são melhores


7.
O teletransporte deu cabo do emprego aos taxistas


8.
Neste depósito de cinzas preserva-se a última das Bibliotecas


9.
A rebelião começou por não acatarem a proibição de sonhar


10.
Os poetas e os assassinos nunca foram considerados cidadãos


11.
Podemos fazer pressão lá fora. Temos liberdade de expressão


12.
Na América do Sul, há um lago com cisnes chamado Amazónia


13.
Cthulhu, no Mar da Tranquilidade, é quem inicia as guerras.


Micro-série endossada ao Grupo de Escrita de Microficção do Facebook, sob o tema "Visita Guiada" (50 caracteres)

Fotograma (retocado) do filme Metropolis de Fritz Lang (1927)

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...