Mensagens

A mostrar mensagens de Fevereiro, 2013

da qualidade dalguns momentos

Descobriu o momento perdido. Estava caído no chão no seu caminho de todos os dias. Olhou em volta - como se fosse um crime tentar recuperá-lo - e enfiou-o no bolso da camisa. Má escolha! Era um mau momento, e devorou-lhe o coração.

ABCDário: V de Verrinoso

V já estava velhusco, e em toda a sua vida fora vil, violento e vociferador, mau-feitio, cara-de-gárgula-vesgolha, venenoso e verrinoso, vexava e vituperava a quem passava ao largo, agredia e vergastava a quem o deixasse. V fedia, V enojava como uma cloaca aberta aos céus ou um vertedouro de sarro. V, mesmo não conhecendo mãe, era um vero filho da puta, um vermículo vertebrado, um velhaco vivaz, um varrão, uma virose, uma verruga e uma pústula, uma vérmina, uma vide de mau vinho, uma vergôntea vergonhosa da espécie humana. Mas não julguem vocês que tal criatura (termo excessivo, porque seria preciso que Deus, para o inventar, estivesse virado do avesso), não foi capaz, por uma vez, de um gesto gentil em toda a sua vida vomífica. Bem vistas as coisas, foi um gesto amável, ter apontado a cadeira ao padre acovardado que veio para lhe dar a extrema-unção.

Aluimento (parvoeira)

(pequeno diálogo acompanhado pela lúdica música de alaúdes)
 - A mensagem pode partir de um para um, de um para muitos, de muitos para um. É como um problema matemático ou geométrico. Quando muitos entram na operação, é comum a mensagem partir-se, deformar-se, gangrenar. Mas alui sempre em alguém.    - A que é que fazes alusão?    - A mensagem é significativa, mas o silêncio, a ausência de uma mensagem intencional ou casual, também o é. Se o silêncio é significativo, quantas vidas ou quantas mortes encerram as palavras? De toda a forma, todas elas, as palavras e as suas vidas, aluem sempre sobre alguém.    - Continuo sem perceber a que aludes tu!    - Como somos seres racionais, com um rácio de bom-senso muito variável, as palavras e os silêncios são o nosso chão, o nosso tabuleiro de xadrez. Se nos falham, é como se o chão aluísse debaixo de nós, e o vazio alui em nós, um vazio vivo que destrói o que nos resta de pensamentos e perceções ordenadas.    - De uma vez por todas, fazes …

Conto a Duas Mãos: A Carta

O velho rendeiro está desanimado. A terra está a produzir pouco, o adubo quimico queima o solo, estrume não há desde que os inspetores fecharam a vacaria. Voltou-se para as estufas mas comprar as sementes todos os anos á cooperativa sai muito caro. Sementes de híbridos e adubos estão a sair ao preço da produção. Não consegue escoar os produtos a preço razoável. Que fazer? Voltar-se para onde? Talvez o negócio do aviário não seja má ideia agora que o povo só compra barato. Carne de frango é boa para o pobre. As galinhas poedeiras podem dar um rendimento extra. Sente-se estrangulado mas pelo menos o senhoria mantem a renda baixa.    Aproxima-se de casa, cabisbaixo e imerso nos seus pensamentos e a filha sai disparada pela porta.    - Pai, chegou carta da senhoria.    Segurou a carta que a filha lhe estendia. Não tinha coragem para a abrir e enfiou-a no bolso da camisa de escocês. Sentou-se nos degraus da escada, descalçou as botas enlameadas e bateu-as com força contra o chão de cim…

ABCDário: X de Xacoco

No alpendre sombreado da casa, a mãe olhou, com uma ponta (inconfessável) de pena, o seu filho mancebo. O rapaz estava sentado precariamente no parapeito do alpendre, com as pernas e os braços esticados em sentidos opostos. Tinha a barba por fazer, a camisa por fora das calças, todo desbarrigado, e aquela boca! Como é que alguém conseguia não deixar de olhar com repulsa para aquela boca onde já faltavam tantos dentes? Num jovem!
   - Não podemos deixar-te subir ao altar com essa boca tão feia! - disse-lhe em tom de promessa.
   O filho não deu grande atenção às suas palavras, e ela rematou:
   - Também te vamos arranjar umas roupas e uns sapatos apresentáveis.
   A displicência do enxacoco do filho não a desencorajou. Nos tempos que se seguiram, levou-o ao dentista e a lojas de roupas.
   -Faça um milagre com o meu filho - solicitou à dentista logo na primeira consulta - quero que ele fique bonito porque vai subir ao altar, ter uma vida nova e dar-me muitos netos.
   A dentista sor…

ABCDário: Y de Adão Cromossomial-Y

- Parem, meus filhos, e esperem por mim! - Rugiu, ofegante, o velho homem com as pernas enfiadas na neve até aos joelhos.    Os outros obedeceram, olhando para trás, o frio atravessava as roupas de pele de bisonte, chegando aos ossos.    - Estamos muito longe da caverna, não vamos conseguir chegar lá antes que o leão das cavernas nos apanhe.    - Porque paramos, então?    - Porque eu sonhei com coisas que vocês nunca conhecerão, e eu preciso que saibam. Sonhei que de mim descenderão todos os homens do futuro, os sonhadores e os assassinos, os caçadores e os xamãs, sonhei com um cogumelo de fogo a queimar como o Sol, e com caras em espelhos lisos de gelo, a falar e a cantar; sonhei…    Ouve-se um rugido aterrador na orla da clareira, um rugido que a escuridão da noite e as árvores da floresta fazem ecoar.    - Então deixa-te ficar, homem, que nós vamos correr para esse futuro.

ABCDário: Z de Zangarilho

Augusto Campos é um homem elegante, já idoso mas que nada tem em comum com esses despojados de vontade que decoram os bancos do parque e se quedam nas mesas dos cafés sem fazer despesa enquanto se nutrem das notícias e anúncios dos jornais. Campos era distinto dos outros, sempre muito bem ataviado e perfumado, cumprimentando todos e mantendo conversas animadas com um qualquer conhecido, vinha muitas vezes ao nosso café para comprar rebuçados e gomas que pedia para embalarmos num saquinho de plástico que ele colocava no bolso do casaco com presteza. Era a sua fraqueza, as guloseimas, comprava-as amiúde, escolhendo a dedo as mais coloridas e vistosas, porque os olhos também comem, como justificava em tom de gracejo. Era um gosto vê-lo flanar pelo café e pelas ruas com o seu ar de cavalheiro ilustre e bem colocado na vida, e a minha patroa dizia-me: “Quando fores velho, gostava que fosses como o Campos, encantador e cheio de espírito. Dava-me cá uma coisa se te tornasses num daqueles…

Inverno

A manhã nasceu pálida, o sangue mal lhe corria nas veias e o frio azulava-lhe as faces. A mãe tomou-a nos braços, encostou-a ao calor do seu corpo, e uniu as faces de ambas num enlevo absoluto. Aos poucos, afugentando a névoa e as sombras, o seu olhar trouxe de volta a luz e a cor.


Os imigrantes

Os adultos esperavam, homens e mulheres quietos numa mansa expetativa. As carroças estavam paradas no mesmo sítio e os animais pastavam em volta, um pouco desaquietados pelo riso e pelas brincadeiras das crianças. Se alguém, estranho àquele grupo, passasse por ali naquele momento, estranharia sobremaneira o silêncio e a imobilidade dos crescidos, e as palavras e cantilenas dos mais pequenos, tecidas numa língua desconhecida.
   Ao entardecer, regressaram os emissários, e todos se juntaram em redor do ancião que aquecia os seus velhos ossos cansados no calor da fogueira. Um dos emissários entregou-lhe um pote com terra enlameada recolhida na margem dum arroio num lugar profundo dos bosques; outro, depositou aos seus pés uma âmbula selada de vidro com ar recolhido no vértice da montanha; o terceiro, apresentou-lhe uma raiz de mandrágora envolvida em folhas, mandrágora que recolhera sem usar as mãos ou qualquer utensílio de metal impuro. O ancião estudou estes espécimes, sentiu a terr…

O reencontro

Imagem
Primeiro momento:
   - Vou-me embora! – disse Eurico, quando a mulher o surpreendeu nas traseiras da casa a enfiar sandes embrulhadas em celofane dentro duma mochila de ganga.    - Para onde? Por quê?    Eurico encolheu os ombros e respondeu às arrecuas, deixando espaço para as explicações que devia.    - Tu ficas bem…não temos filhos e não temos dívidas. A casa é robusta e bem equipada, e estas terras e o teu trabalho são uma oferta do teu pai, que nunca deixará de te ajudar. Mas isto não serve para mim, não nasci para viver no meio destas serranias, com granito e nuvens por tudo quanto é horizonte e nenhum som pela tardinha que não seja o dos sinos doutra aldeola perdida no meio dos montes. Eu preciso de estar ao pé do mar, nasci e vivi durante quase toda a minha vida debaixo saias do Oceano, e a primeira memória que tenho de mim mesmo é o da minha mãe me levar a molhar os pés na água salgada. Eu até sonho com o mar, mas tu não queres ir comigo e eu não posso ficar, é só isso…    A…

Cinco aplicações para um olhar casual

O senhor K. sobe a rua da sua casa pelo passeio apinhado de gente naquele fim de tarde. Todos têm pressa de regressar a casa, buzinam ao volante dos carros, saltam dos autocarros com a energia de pássaros libertos que se esgueiram por entre a multidão em busca do ninho.
   K. não corre, K. não acelera sequer o passo. Estar dentro de casa é tão estranho como estar fora dela. Quando está a poucos metros da entrada do seu prédio nota que, numa loja de malhas, uma jovem está junto à vidraça a compor a montra, ataviando manequins com roupas quentes. É jovem e é bonita, de longos cabelos castanhos com uma franja a ondear sobre a testa, e a pele do rosto muito branca onde uns óculos de aros finos não ocultam a beleza duns olhos esverdeados. Quando está mesmo junto à loja, a empregada levanta a cara, e sorri enquanto acena com alegria. K. sente-se invadido por uma alegria vibrante que lhe descompassa as batidas do coração e lhe aquece o sangue nas veias. Logo se apercebe que o cumprimento …

As Palavras do Guia:

Imagem
1.  A cidade cresceu e cresceu até cobrir todo o planeta

2. Antes, imaginem, viam-se as estrelas quando se olhava o céu!

3. Podem ver o crânio do Allien achado sob a pegada de Armstrong

4. Quando endireitaram a Torre de Pisa, aprumou-se o eixo da Terra

5. Após o 405º Fim do Mundo, os Maias voltaram a erguer pirâmides

6. Hoje vivemos mais tempo, e as nossas baterias são melhores

7. O teletransporte deu cabo do emprego aos taxistas

8. Neste depósito de cinzas preserva-se a última das Bibliotecas

9. A rebelião começou por não acatarem a proibição de sonhar

10. Os poetas e os assassinos nunca foram considerados cidadãos

11. Podemos fazer pressão lá fora. Temos liberdade de expressão

12. Na América do Sul, há um lago com cisnes chamado Amazónia

13. Cthulhu, no Mar da Tranquilidade, é quem inicia as guerras.

Micro-série endossada ao Grupo de Escrita de Microficção do Facebook, sob o tema "Visita Guiada" (50 caracteres)
Fotograma (retocado) do filme Metropolis de Fritz Lang (1927)