O luxo e o bucho

   Egorche vivia só e tinha uma idade avançada e, nessas condições, e como tivesse pouco com que se entreter, foi planeando ao pormenor a cerimónia do seu próprio funeral. Como era endinheirado e eandava convencido de que tinha o rei na barriga, planeou um funeral de luxo, com a marcha fúnebre de Chopin servida por um coro de sopranos que subsituiriam as carpideiras de antanho, um tapete de flores de papel em vermelho e negro elaborado para o caminho que o seu féretro percorreria da igreja para o cemitério e, para que não faltasse gente no funeral, duas horas antes dele se realizar, seria distribuído pão e dinheiro na vila a quem se comprometesse a comparecer ao enterro.
    Com tantos preparativos, o homem de idade avançada viveu mais tranquilo o resto da sua vida entediante até ao dia em que morreu. A sua morte foi o sinal para que o procurador que nomeara e o seu advogado testamentário unissem esforços para que o funeral fosse exatamente como ele planeara. No entanto,e durante as horas da noite em que o seu corpo era velado na igreja, o procurador e o advogado não conseguiram entrar em acordo sobre o dinheiro a empregar para aliciar as pessoas a ir ao funeral, pelo que se ficaram pela oferta de pão, que poucos na terra acharam tentador. Mas o resto estava melhor preparado, com Chopin, as sopranos e o tapete de flores de papel prontinhos para o grande momento. No entanto, quando o féretro abandona a igreja para a última viagem, cai uma tempestade de tal ordem que levou pelos ares as flores de papel, afugentou as sopranos e obrigou os empregados da funerária a pousarem no chão o caixão para se irem abrigar da chuva e do vento. Mesmo os poucos locais que tinham ido ao cemitério no engodo do pão, rumaram para as suas casas para o comerem antes que se desfizesse por completo com a chuva. Quem quer que conhecesse Egorche, poderia afiançar que o seu funeral tinha sido uma imagem fiel do que fora a sua vida, com a diferença de que a sua vida nunca conhecera aquela matilha de cães vadios a arranharem na madeira do caixão na expetativa dum festim.


Mensagens populares deste blogue

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue

A viagem