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o lobo

   Reabilitamos o lobo.
   Há duzentos ou trezentos anos, o lobo era aquilo que tinhamos de temer quando saíamos a caminhar pelos bosques e matas. Escondia-se atrás das sebes e árvores à espera do melhor momento para nos atacar ou roubar os nossos filhos, e tinha dentes com o comprimento e a ductibilidade exatos para nos rasgar a garganta de um só golpe. Nesses tempos, o lobo viajava connosco, nas histórias terríveis que lêramos nalgum livro ou pasquim ou que ouvíramos da boca dos nossos avós, junto à lareira ou sentados no murete da eira quando se interrompia a debulha em virtude da chegada da noite e das suas sombras inspiradoras. O lobo era o nome do nosso medo, e como tal perseguíamos a fera, dizimando-a ao mínimo ensejo, ao ponto de não restar quase nenhum. Hoje reconhecemos que não existem lobos nos nossos bosques e matas, apenas homens, que são mais terríveis, cruéis e sanguinários do que eles; e que, no fundo, sempre assim foi, ainda que o lobo carregasse e expiasse as culpas de todos.
   Por tudo isso, reabilitamos o lobo como forma de os compensar. Acolhemo-lo nas nossas aldeias e cidades, construímos para eles bairros sociais, escolas e ginásios; e, se estiverem atentos, podem ver lobos diligentes e inteligentes em todo o lado - a atender nas caixas dos supermercados, a ler o matutino nos bancos do parque, a grunhirem opiniões junto aos quiosques, ou sentados nos lugares invejados das academias literárias.
   Tentem não os segregar, suspeitar deles, recriminá-los pelo que outros fazem, porque esse foi o nosso procedimento injusto durante séculos. Não tenham receio ou nojo de interagir com os lobos, porque eles tem muito a ensinar-nos sobre as formas rápidas e eficazes de atacar e matar outra criatura e, por isso, podem ensinar-nos a ser pessoas melhores.



[Homo homini lupus est]

Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...