A partida

   Chamaram o paciente ao gabinete do diretor da instituição psiquiátrica.
   - Mandou-me chamar, senhor doutor? - perguntou com timidez, com a voz a tremer tanto como as mãos.
   - Entre, Gonzaga, entre!. Tenho boas notícias para si. O seu processo foi reavaliado, e decidimos que já não existem motivos válidos para permanecer aqui. Demos-lhe alta, homem, pode arrumar as suas coisas e voltar para casa!
   O Gonzaga ficou pasmo.
   - Tem a certeza, senhor doutor...quer dizer, vou voltar para casa? Depois destes anos todos? Eu até gostava de continuar aqui...
   - Compreendo-o, você esteve cá demasiado tempo e já se sentia como se estivesse em casa, mas isso passa.Vai voltar para a sua casa, mas nós continuaremos a dar-lhe todo o apoio psicológico que precisar, sobretudo nesta delicada fase de adaptação. Já avisamos a sua familia e está tudo tratado para que o venham buscar à porta e levá-lo para casa. Vai ser como um daqueles passeios que você dava connosco.
   Gonzaga assentiu e voltou para o seu quarto, triste como um viúvo enlutado. Arrumou as suas coisas com lentidão, secretamente esperançado que mudassem de ideias e o deixassem permanecer ali. As suas roupas e pertences eram mínimos e couberam todos dentro duma mesma maleta. Mas havia coisas que não tinha possibilidades de levar, e essas é que lhe apertava o coração ter de deixá-las para trás. Levantou os olhos para o castanheiro que se erguia orgulhoso no centro do quarto com as raízes a levantar o parquê do chão e os ramos cravados na placa do andar de cima. Veio-lhe uma lágrima aos olhos ao admirar as araras luminosas que disputavam um lugar nos ramos com carpas prateadas que picavam em voo sobre as elas para as desalojar dos ramos onde haviam pousado. Saindo de detrás da árvore, o seu grifo veio deitar-se aos seus pés, docilmente, como qualquer gato manso. Arranhou o parquê com as suas garras e levantando a cabeça de águia, soltou um pio lúgubre.
   - Não faças isso! - pediu-lhe - assim não consigo ir-me embora...vais-te portar bem, ouviste? E não voltas a dar nenhuma bicada na perna da enfermeira Cláudia, porque ela é boa pessoa e, se ralhava comigo ou me batia, era apenas para conseguir fazer o trabalho dela. Estamos entendidos?
   O grifo estendeu-se no chão como as patas felinas junto à sua perna, e a cabeça baixa. Gonzaga percebeu que ele concordava consigo.
   Ouviu bater à porta, e abriu-a com gestos lentos. A enfermeira Cláudia estava no umbral e entrou, com os olhos precavidos a procurar o grifo nas costas do Gonzaga.
   - Os seus familiares já estão lá embaixo no salão, Gonzaga! - anunciou.
   - Obrigado, dona Cláudia! Posso contar consigo para tomar conta dos meus tesouros?
   - Claro que sim, é uma honra! Mas ouvi dizer que o diretor quer fazer obras nesta ala, mas estou certo de que não vai incomodar estas belas criaturas.
   - Também acredito que sim. Eu cá suspeito que ele quer cruzar a esfinge dele com o grifo, mas não me parece que isso seja uma ideia de gente sã...
   - Claro que não, mas é notório que ele é um pouco tresloucado. Sabe-se lá o que pode sair daquela cabeça!


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