A austera humildade dos que servem


   O beleguim descia todas as semanas à cidade na sua carruagem com estandartes e mantéis suspensos para entregar as ordens escritas do sultão - ordens de prisão ou de castigo, resoluções sobre queixas mas, a maioria das vezes, novos réditos e impostos decididos pelo sultão que acumulavam o ouro dos súbditos para ele transportar até ao seu amo na carruagem engalanada. Cada dia, o funcionário aparecia mais bem vestido, com um luxo que demonstrava perante todos a confiança que o sultão depositava nele. Mas um dia chegou em que o povo se revoltou com tantos impostos e perseguiu-o até ao palácio do sultão na colina. Para surpresa dos populares, o palácio estava deserto e não morava lá ninguém a não ser o diligente beleguim. Os seus ocupantes haviam sido mortos, talvez envenenados, pelo beleguim, e os membros e cabeças semidescarnadas dos seus corpos assomavam dos tanques dos jardins, das valas de defesa, dos poços; e a pestilência e a podridão conspurcavam o ar, tornando-o irrespirável. Percorrendo os salões do palácio, encontraram o beleguim nos aposentos do sultão, protegendo com os braços a pilha de ouro que reunira. E com ouro o justiçaram, fazendo-o engolir moedas e pó de ouro até ele sufocar. Foi esse o irónico fim do beleguim.

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