INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

A invenção “circular”


Se a realidade não se ajusta a ti, 
como uma camisola demasiado larga
ou demasiado justa, 
então
inventa, 
efabula, 
delira, 
demencia, 
mente, 
cria, 
escreve; 
porque o mais certo é tu seres, 
como outros, 
um ser ficcionado

Cinco amigos


   Todos os anos, à mesma hora do mesmo dia do mês, quatro pessoas reúnem-se na casa dum amigo falecido para evocar a sua morte. Não trazem nenhum médium, cartas, espelhos, incenso. Cada um deles traz apenas um objeto singelo; montando os quatro objetos obtém-se uma arma, um revólver, a arma com que o mataram. É só isso que eles fazem. Montam a arma, olham-se numa comunicação sem palavras e voltam a desmontá-la, para cada um regressar a casa com a sua parte, e com a certeza de que o segredo se mantém completo e intacto.  


abecedárias


Quando perdeu a voz ficou inconsolável, e comprou abecedárias para o jardim da sua casa, para ter como ouvir sempre as letras e as palavras a estremecer com a brisa.


Vestia-se de carmesim e pintava os lábios da mesma cor para a chegada do jovem amante. Esborratava-se com o cinzento dos dias quando sabia que o touro se arrastava para casa.

A austera humildade dos que servem


   O beleguim descia todas as semanas à cidade na sua carruagem com estandartes e mantéis suspensos para entregar as ordens escritas do sultão - ordens de prisão ou de castigo, resoluções sobre queixas mas, a maioria das vezes, novos réditos e impostos decididos pelo sultão que acumulavam o ouro dos súbditos para ele transportar até ao seu amo na carruagem engalanada. Cada dia, o funcionário aparecia mais bem vestido, com um luxo que demonstrava perante todos a confiança que o sultão depositava nele. Mas um dia chegou em que o povo se revoltou com tantos impostos e perseguiu-o até ao palácio do sultão na colina. Para surpresa dos populares, o palácio estava deserto e não morava lá ninguém a não ser o diligente beleguim. Os seus ocupantes haviam sido mortos, talvez envenenados, pelo beleguim, e os membros e cabeças semidescarnadas dos seus corpos assomavam dos tanques dos jardins, das valas de defesa, dos poços; e a pestilência e a podridão conspurcavam o ar, tornando-o irrespirável. Percorrendo os salões do palácio, encontraram o beleguim nos aposentos do sultão, protegendo com os braços a pilha de ouro que reunira. E com ouro o justiçaram, fazendo-o engolir moedas e pó de ouro até ele sufocar. Foi esse o irónico fim do beleguim.

   Em outros tempos, brincava com as palavras. Depois, tornou-se muito grave para o fazer, e manuseava as palavras como frágeis antiguidades ou hóstias sagradas. 
   Já não sente alegria com as palavras mas, em compensação, já o deixam exibir o título de escritor.


Uma frase que apanhei do chão no meio dos fragmentos da tempestade:

Para um desterrado, a terra distante é tão real e tão densa, que ele consegue plantar nela uma árvore e vê-la crescer.

Crónica dos Oras

   Ora, no Domingo, depois de passado o pico do temporal que assolou o país, peguei no carrito e fui observar os estragos na cidade onde vivo e nos seus arredores mais próximos. Era uma coisa impressionante, tabuletas partidas, árvores arrancadas pela raíz, sonhos alagados, casas destelhados, fragmentos de sonhos dispersos pelo alcatrão e pelos passeios e que a chuva de enxurrada juntara em volta das grelhas de escoamento. Há muito tempo que não via uma coisa assim!  E as pessoas? Devastadas, arrastando as suas pesadas ruínas sobre as pernas frágeis, e a ameaçar soçobrar a qualquer instante. Quando regressei a casa, ainda levava comigo o baço desespero dos seus olhares combalidos. Este temporal irá sobreviver durante muito tempo!

Quiroga





“Decálogo do perfeito contista”
de Horacio Quiroga


I

Crê num mestre – Poe, Maupassant, Kipling, Tchecov – como no próprio Deus.

II

Crê que a sua arte é um cume inacessível. Não sonhes em domá-la. Quando o consigas fazer, consegui-lo-ás sem tu mesmo saberes.

III

Resiste o quanto puderes à imitação, mas imita se a inspiração for demasiado forte. Mais do que nenhuma outra coisa, o desenvolvimento da personalidade requer uma longa paciência.

IV

Tem uma fé cega, não na tua capacidade para o triunfo, mas no ardor com que o desejas. Ama a tua arte como à tua noiva, dando-lhe todo o coração.

V

Não comeces a escrever sem saber para onde vais desde a primeira palavra. Num conto bem conseguido, as três primeiras linhas possuem quase a mesma importância do que as três últimas.

VI

Se quiseres exprimir com exatidão esta circunstância: “Vindo do rio, soprava o vento frio”, não há, em nenhuma língua humana, mais palavras do que as apontadas para exprimi-la. Uma vez dono das tuas palavras, não te preocupes em observar se são assoantes ou consoantes entre si.

VII

Não adjetives sem necessidade. Inúteis serão, quantas caudas coloridas tu juntares a um substantivo débil. Se achares o adjetivo que é preciso, ele, sozinho, terá uma cor incomparável. Mas há que encontrá-lo!

VIII

Segura os teus personagens pela mão e condu-los com firmeza até ao final, sem ver outra coisa além do caminho que traçaste para eles. Não te distraias vendo tu o que eles não podem ou não lhes interessa ver. Não abuses do leitor. Um conto é uma novela depurada de cascalho. Toma isto como uma verdade absoluta, ainda que não o seja.

IX

Não escrevas sob o domínio da emoção. Deixa-a morrer e evoca-a prontamente. Se, então, fores capaz de a reviver tal como ela foi, terás chegado na arte à metade do caminho.

X

Não penses nos teus amigos ao escrever, nem na impressão que causará a tua história. Conta, como se o teu relato não tivesse nenhum interesse mais, senão para o pequeno ambiente dos teus personagens, das quais tu pudeste ter sido um personagem mais. Não é de outro modo que se obtém a vida no conto.


FIM




Nota: este foi um texto que sempre achei curioso, daí alinhavar esta versão em português. Julio Cortázar, esse gigante, teceu uma nota interessante a este decálogo:

«Alguna vez Horacio Quiroga intentó un “Decálogo del perfecto cuentista”, cuyo mero título vale ya como una guiñada de ojo al lector. Si nueve de los preceptos son considerablemente prescindibles, el último me parece de una lucidez impecable: “Cuenta como si el relato no tuviera interés más que para el pequeño ambiente de tus personajes, de los que pudiste haber sido uno. No de otro modo se obtiene la vida en el cuento”»  (Cortázar, "Del cuento breve y sus alrededores").




O luxo e o bucho

   Egorche vivia só e tinha uma idade avançada e, nessas condições, e como tivesse pouco com que se entreter, foi planeando ao pormenor a cerimónia do seu próprio funeral. Como era endinheirado e eandava convencido de que tinha o rei na barriga, planeou um funeral de luxo, com a marcha fúnebre de Chopin servida por um coro de sopranos que subsituiriam as carpideiras de antanho, um tapete de flores de papel em vermelho e negro elaborado para o caminho que o seu féretro percorreria da igreja para o cemitério e, para que não faltasse gente no funeral, duas horas antes dele se realizar, seria distribuído pão e dinheiro na vila a quem se comprometesse a comparecer ao enterro.
    Com tantos preparativos, o homem de idade avançada viveu mais tranquilo o resto da sua vida entediante até ao dia em que morreu. A sua morte foi o sinal para que o procurador que nomeara e o seu advogado testamentário unissem esforços para que o funeral fosse exatamente como ele planeara. No entanto,e durante as horas da noite em que o seu corpo era velado na igreja, o procurador e o advogado não conseguiram entrar em acordo sobre o dinheiro a empregar para aliciar as pessoas a ir ao funeral, pelo que se ficaram pela oferta de pão, que poucos na terra acharam tentador. Mas o resto estava melhor preparado, com Chopin, as sopranos e o tapete de flores de papel prontinhos para o grande momento. No entanto, quando o féretro abandona a igreja para a última viagem, cai uma tempestade de tal ordem que levou pelos ares as flores de papel, afugentou as sopranos e obrigou os empregados da funerária a pousarem no chão o caixão para se irem abrigar da chuva e do vento. Mesmo os poucos locais que tinham ido ao cemitério no engodo do pão, rumaram para as suas casas para o comerem antes que se desfizesse por completo com a chuva. Quem quer que conhecesse Egorche, poderia afiançar que o seu funeral tinha sido uma imagem fiel do que fora a sua vida, com a diferença de que a sua vida nunca conhecera aquela matilha de cães vadios a arranharem na madeira do caixão na expetativa dum festim.


as manchas

   Habituou-se a dormir à noite com os cortinados da janela arredados para os lados para deixar a luz do luar e das estrelas entrar no quarto pelas vidraças. E isso agrada-lhe tanto que já puxou a cama grande para junto da janela.
   Por estes dias, apareceram-lhe na pele umas manchas esbranquiçadas nas têmporas e por cima do seio esquerdo.
   O marido diz-lhe que deve ser alguma doença de pele que ela apanhou, mas ela está segura de que se devem ao luar que vem sonhar com ela.

o lobo

   Reabilitamos o lobo.
   Há duzentos ou trezentos anos, o lobo era aquilo que tinhamos de temer quando saíamos a caminhar pelos bosques e matas. Escondia-se atrás das sebes e árvores à espera do melhor momento para nos atacar ou roubar os nossos filhos, e tinha dentes com o comprimento e a ductibilidade exatos para nos rasgar a garganta de um só golpe. Nesses tempos, o lobo viajava connosco, nas histórias terríveis que lêramos nalgum livro ou pasquim ou que ouvíramos da boca dos nossos avós, junto à lareira ou sentados no murete da eira quando se interrompia a debulha em virtude da chegada da noite e das suas sombras inspiradoras. O lobo era o nome do nosso medo, e como tal perseguíamos a fera, dizimando-a ao mínimo ensejo, ao ponto de não restar quase nenhum. Hoje reconhecemos que não existem lobos nos nossos bosques e matas, apenas homens, que são mais terríveis, cruéis e sanguinários do que eles; e que, no fundo, sempre assim foi, ainda que o lobo carregasse e expiasse as culpas de todos.
   Por tudo isso, reabilitamos o lobo como forma de os compensar. Acolhemo-lo nas nossas aldeias e cidades, construímos para eles bairros sociais, escolas e ginásios; e, se estiverem atentos, podem ver lobos diligentes e inteligentes em todo o lado - a atender nas caixas dos supermercados, a ler o matutino nos bancos do parque, a grunhirem opiniões junto aos quiosques, ou sentados nos lugares invejados das academias literárias.
   Tentem não os segregar, suspeitar deles, recriminá-los pelo que outros fazem, porque esse foi o nosso procedimento injusto durante séculos. Não tenham receio ou nojo de interagir com os lobos, porque eles tem muito a ensinar-nos sobre as formas rápidas e eficazes de atacar e matar outra criatura e, por isso, podem ensinar-nos a ser pessoas melhores.



[Homo homini lupus est]

Compra

   Comprei uma Pen. Precisava de guardar coisas para as levar comigo e a Pen fazia-me falta. Ao contrário de outras, esta tem uma memória inesgotável, além de outras caraterísticas próprias: não possui ligação USB e não se pode ligar a nenhum aparato eletrónico, em vez disso, possui um traço azul médio que me agrada muito, e a única coisa que preciso para carregar ou descarregar ficheiros e memórias é de uma folha de papel em branco onde ela possa correr.

Insegurança


- Jura que eu sou a mulher da tua vida.
- Sim
- Mas jura! Jura que não há outra mulher, uma mulher-serpente que te recebe no seu covil de prazer, ou uma cobra lasciva que se enrola no teu sexo para te dar prazer. Quero que jures, jura, jura por todas as nuvens de chuva e por todos os frutos das árvores! Jura pelos cereais bravios que recolhemos para o pão e pelo ferro caído dos céus que forma os nossos utensílios! Jura pelas noites e dias de prazer que eu te dou! Jura pelas estrelas no céu e pela terra sagrada que os nossos pés pisam com fervor!
- Está bem, Eva, eu juro!
- E juras que o teu juramento é sincero e que não me estás a enganar?

Xerazade


   Quando Xerazade contava as suas histórias, vinham pessoas e animais de todos os cantos do reino e enchiam as salas do palácio do rei persa Xeriar, presas do encanto das suas palavras. Artesãos e mercadores, corças, tigres e crocodilos, aves de plumagem colorida e serpentes mansas como cães de porcelana – preenchiam o chão e as cornijas, pousados nos móveis e nos candeeiros, ou nadando nos tanques odoríferos dos salões. À medida que as noites se sucediam, e os anos com elas, Xerazade foi enfraquecendo até as suas palavras serem libertadas num fio de voz que todos escutavam num profundo silêncio. Quando sobreveio a sua morte, todas as pessoas e criaturas ficaram para morrer.



A partida

   Chamaram o paciente ao gabinete do diretor da instituição psiquiátrica.
   - Mandou-me chamar, senhor doutor? - perguntou com timidez, com a voz a tremer tanto como as mãos.
   - Entre, Gonzaga, entre!. Tenho boas notícias para si. O seu processo foi reavaliado, e decidimos que já não existem motivos válidos para permanecer aqui. Demos-lhe alta, homem, pode arrumar as suas coisas e voltar para casa!
   O Gonzaga ficou pasmo.
   - Tem a certeza, senhor doutor...quer dizer, vou voltar para casa? Depois destes anos todos? Eu até gostava de continuar aqui...
   - Compreendo-o, você esteve cá demasiado tempo e já se sentia como se estivesse em casa, mas isso passa.Vai voltar para a sua casa, mas nós continuaremos a dar-lhe todo o apoio psicológico que precisar, sobretudo nesta delicada fase de adaptação. Já avisamos a sua familia e está tudo tratado para que o venham buscar à porta e levá-lo para casa. Vai ser como um daqueles passeios que você dava connosco.
   Gonzaga assentiu e voltou para o seu quarto, triste como um viúvo enlutado. Arrumou as suas coisas com lentidão, secretamente esperançado que mudassem de ideias e o deixassem permanecer ali. As suas roupas e pertences eram mínimos e couberam todos dentro duma mesma maleta. Mas havia coisas que não tinha possibilidades de levar, e essas é que lhe apertava o coração ter de deixá-las para trás. Levantou os olhos para o castanheiro que se erguia orgulhoso no centro do quarto com as raízes a levantar o parquê do chão e os ramos cravados na placa do andar de cima. Veio-lhe uma lágrima aos olhos ao admirar as araras luminosas que disputavam um lugar nos ramos com carpas prateadas que picavam em voo sobre as elas para as desalojar dos ramos onde haviam pousado. Saindo de detrás da árvore, o seu grifo veio deitar-se aos seus pés, docilmente, como qualquer gato manso. Arranhou o parquê com as suas garras e levantando a cabeça de águia, soltou um pio lúgubre.
   - Não faças isso! - pediu-lhe - assim não consigo ir-me embora...vais-te portar bem, ouviste? E não voltas a dar nenhuma bicada na perna da enfermeira Cláudia, porque ela é boa pessoa e, se ralhava comigo ou me batia, era apenas para conseguir fazer o trabalho dela. Estamos entendidos?
   O grifo estendeu-se no chão como as patas felinas junto à sua perna, e a cabeça baixa. Gonzaga percebeu que ele concordava consigo.
   Ouviu bater à porta, e abriu-a com gestos lentos. A enfermeira Cláudia estava no umbral e entrou, com os olhos precavidos a procurar o grifo nas costas do Gonzaga.
   - Os seus familiares já estão lá embaixo no salão, Gonzaga! - anunciou.
   - Obrigado, dona Cláudia! Posso contar consigo para tomar conta dos meus tesouros?
   - Claro que sim, é uma honra! Mas ouvi dizer que o diretor quer fazer obras nesta ala, mas estou certo de que não vai incomodar estas belas criaturas.
   - Também acredito que sim. Eu cá suspeito que ele quer cruzar a esfinge dele com o grifo, mas não me parece que isso seja uma ideia de gente sã...
   - Claro que não, mas é notório que ele é um pouco tresloucado. Sabe-se lá o que pode sair daquela cabeça!


A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...