INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Conto matalício 1


Almoço de Natal da firma, presentes da corporação e comida a expensas dela. Sára está radiante, as faces afogueadas pelo vinho, estava capaz de beijar meio mundo, ou enrolar-se com a outra metade. Ao seu lado, o ex-marido, pálido e escalavrado, com cara de funeral. Pousa a sua mão sobre a dele, e arrisca.
- Diz-me, Álvaro, já tens alguém na tua vida?
Ele hesita, mede as palavras.
- Tenho a Myra, a caniche que tu já conheceste, e…
- E?
- Peggy, a porquinha, e Linda, a esquilo-fêmea que me ofereceste. Há umas semanas, juntei ao clâ uma cabrinha de pêlo acastanhado, a que dei o nome de Heidi.
- Sim, mas não tens nenhuma mulher na tua vida, pois não?
Álvaro negou num ronco, e só depois lhe bateu o sentido das perguntas, o olhar meloso de Sára, o ritmo cadenciado com que acariciava o seu punho.
- Mas não estou preparado para iniciar uma relação, ou reatá-la, como seria o caso – foi avisando.
- Mas porquê, Álvaro?
- Porque criar animais e ter sexo com eles exige tempo e dedicação!

Conto a duas mãos


                O dia de Natal amanheceu gelado mas o sol inundava o céu. Uma estrela brilhante teimava em permanecer no céu, ao lado do sol, apesar do dia. As pessoas olhavam para a estrela e sorriam. Era a estrela de Natal que naquele ano 2013 teimava em aparecer. Astrónomos amadores tentavam em vão explicar o fenómeno e não descortinavam planeta ou estrela que pudesse explicar o caso. Na TV os astrónomos profissionais desfiavam hipóteses mas ninguém sabia explicar a estrela.
                Maria caminhava lentamente pela planície alentejana, indiferente a tudo. Chorava o seu filho perdido. Engravidara de José e tinha perdido o filho. José seguia no seu encalço e temia a loucura da mulher. O seu silêncio assustava-o. Maria não estugava o passo, e ia colhendo algumas flores bravias com uma ligeira inclinação do seu torso e, em breve, estavam de novo junto á casa. Térrea, modesta, paredes caiadas, com um pequeno estábulo ao lado, onde ainda conservavam uma vaca leiteira, e um velho jerico no qual carregavam os cestos de verduras e legumes que levavam todas as Segundas-Feiras ao mercado da aldeia do Santo Lenho.
                José entrou na casa e pôs uma panela de água ao lume para fazer a sopa. Pela pequena janela, observou a esposa, sentada numa raiz saliente do sobreiro, com o olhar pousado na pequena sepultura ornada de flores e folhas. Porque a tarde reclinava, a estrela insólita no céu parecia brilhar ainda mais, e os seus raios inferiores, coisa estranha, pareciam apontar diretamente para a aldeia vizinha, cujo casario resplandecia na colina a leste da casa. José ficou intrigado. Jantaram á noitinha, com a braseira a crepitar dentro da boca enegrecida da lareira; e quando Maria falou em ir-se deitar, ele, apesar de andar preocupado com ela, anunciou-lhe que iria num instante á aldeia, ia e vinha num ápice, o tempo de beber um copo na taberna e desejar um Feliz Natal aos amigos. Maria concordou. Apesar da dor que a dilacerava por dentro, ela conseguia perceber que José deveria estar a passar pelo mesmo, e que aquele passeio poderia ser bom para ele, para os dois, ao cabo e ao resto.
                José não perdeu tempo. Calçou as botas altas, vestiu o capote sobre o pelico cor de terra, e caminhou em passadas largas até á aldeia vizinha com uma lanterna na mão. Quando atingiu a rua principal da aldeia, notou que a estrela irradiava mais luz do que a Lua, e que todas as casas tinham sombra à exceção duma, um casarão que parecia estar na perpendicular exata da estrela nos céus. Encheu-se de coragem e aproximou-se da porta da casa. Um escudo em estanho com três coroas de reis adornava a parede ao lado da porta.
                Com as mãos a tremer, fez soar a aldraba, e a porta abriu-se quase de imediato. Um homem negro de barbas apareceu na soleira, e fez-lhe um gesto amável, convidando-o a entrar.
                 - Entra, viajante – disse, frisando o gesto com palavras - o que te traz até esta casa?
                José encolheu os ombros, porque não o saberia dizer. Aceitou a oferta, e entrou, um pouco intranquilo. Havia outros dois homens lá dentro. O interior da casa era um vasto laboratório, com retortas e destiladores, provetas e longos tubos de vidro espiralados. Ao centro de toda essa parafernália, viu um forno, sabia que era um forno, embora não pudesse saber que lhe chamavam atanor.
                - Chamo-me Níger – apresentou-se o anfitrião, perante o seu mutismo – e os meus companheiros da magna ciência chamam-se Candido e Ruber. Curiosamente, apresentamos as três cores da Grande Obra, não é? E qual o teu nome, viajante?
                - José…
                O espanto tolhia-o. Volutas de vapor amarelado a sair de tubos, líquidos de cor púrpura a borbulhar em tigelas hemisféricas, o calor intenso.
                - O que é que vocês fabricam aqui? Licor? Aguardentes? – Aventurou, a mirar uma espécie de alambique.
                Não troçaram dele, apesar dum sorriso fugaz ter iluminado as suas faces. E Níger voltou a falar.
                - Procuramos sintetizar a matéria mais nobre que existe, uma substância que os tontos acreditavam poder produzir ouro, mas que terá aplicações mais úteis e mais duradoras. Com ela, poderemos, teoricamente, prolongar a juventude, debelar as doenças e, quem sabe, afastar indefinidamente a própria morte. E o modo como a processaremos, tornará possível que a consigamos produzir de forma incessante e inesgotável, de forma a podermos ajudar milhares ou milhões de pessoas. Ela trará um novo e radioso futuro a todas as pessoas, e uma vida onde a dor e o medo minguarão como criaturas subterrâneas a definhar nas suas tocas.
                - Isso a mim parece-me uma grila, daquelas que se inventa para pedir dinheiro á gente, ou para nos roubar a casa.
                -Mas não é, meu amigo, acredite-me. Temos quase tudo o que precisamos para levar a bom termo a Grande Obra…quase tudo…apenas nos falta uma ínfima partícula, um reagente raro, que os manuscritos árabes antigos diziam poder ser obtido no bico do pássaro lendário a que chamavam Roc, ou na espinha dorsal dum nascituro.
                - O que é um nascituro?
                - Um bebé que está por nascer, um feto. Mas nós os três supomos que se possa encontrar também num bebé recém-nascido ou de muita tenra idade.

                - Um bebé vivo?




Escrito por Maria e José

O homem dos sete instrumentos


   Adojan, é músico.
   Para começar, Adojan é húngaro, e a música corre docemente nas veias dos húngaros.Depois, Adojan é capaz de tocar sete instrumentos ao mesmo tempo, e todos de forma coordenada e melodiosa.
   Adojan prefere temas movimentados, com ritmo e batida, porque são úteis para os instrumentos de percussão que tanto ama. Mas também toca qualquer tema de ouvido, basta pedirem-lhe e pagarem por isso.
   Mas agora, Adojan já não tem tanta certeza de ser um músico que mereça esse nome (apesar de ser húngaro e conseguir tocar muitos instrumentos diferentes).
   É que a filha pequena, vendo-o na sala a afinar e a polir os instrumentos musicais, perguntou-lhe (Ai, as perguntas das crianças!) se ele era capaz de tocar uma música só com apenas um dos instrumentos, uma música inteira, do princípio ao fim.
   Adojan sorriu alegremente, antes desse sorriso esfumar-se da sua cara com a verdade.
   NÃO ERA CAPAZ!
   Não conseguia!
   Adojan abraçou a sua filha e pediu-lhe desculpas.
   Adojan sofre, e sente que deveria,
   também,
   pedir desculpas á música...

Crítica

Insónia


Sofria de insónias.

Ao fim de dois dias, a pele em volta dos olhos ficava de uma tonalidade estranha entre o roxo e o carmesim.

Ao fim de sete dias sem conseguir dormir, o círculo escuro em volta dos olhos parecia um aro de obsidiana.

Ao fim de duas semanas, o círculo afundava-se em volta dos olhos, cada vez mais para dentro, e os olhos pareciam suspensos na ponta de dois picos transversais.

Ao fim de um mês, esse fosso circular em volta dos olhos atingia a nuca, e podia sentir finalmente a brisa a refrescar-lhe as circunvoluções dos miolos.

Ao fim de um mês e um dia, a maior parte dos miolos já se havia evadido por aí, e já não pensava nem se preocupava tanto. E então o sonho vinha, como a água de um rio dócil que preenche a cratera funda e fumegante dum meteoro e espalha-se por ela, ocultando os gumes e as arestas da vigília obsessiva.

Adormece, profundamente, os olhos fecham-se, os círculos saram, os miolos reconstituem-se. E depois, começa tudo outra vez, porque acorda alarmada com a sensação de que lhe falta alguma coisa.



Um diálogo


               - Hoje, decidi contar-te uma história como se fosse assim como um diálogo, uma conversa entre duas pessoas. Parece-te bem?
               -  …
               - Pois aqui vai! A sete anos do momento em que inicio a narrativa, mais precisamente, ás catorze horas e cinco minutos (foi de cesariana, por isso a rapidez da sua expulsão para o mundo) dum dia vinte e dois de Abril, nasceu o nosso personagem ou, digamos, herói, ainda que não me pareça que ele vá ser herói de alguma coisa. Pois esse recém-nascido, que estava destinado a suceder ao seu pai e a reinar por direito na Baixa Panónia, decidiu que não queria reinar mal soube o que isso significava. Reinar, era a coisa pior e mais repugnante que conseguia imaginar. E então decidiu nascer outra vez, muniu-se de uma navalha afiada (acho que não deveriam deixar um arma como essa ao alcance de uma criança de cinco anos) e cortou de alto a baixo todos os cenários do seu mundo, o palácio com os seus jardins, o pavilhão de caça, o salão de vassalagem, as cavalariças – e, fazendo-o, foi dar á casa de um ferreiro que era, agora, o seu pai, e que só queria alimentá-lo á força para que ele se fizesse forte e robusto com os anos para poder acionar a fole da fornalha e, mais tarde, martelar na bigorna como ele e todos os seus ancestrais. Agradou-lhe o recato da oficina do ferreiro, e o odor adocicado da pele acobreada da sua mãe, mas o calor da fornalha e a perspetiva de uma vida de suor e luta demoveram-no de ali ficar e, com a mesma navalha, voltou a cortar o cenário e passou por essa abertura para uma nova vida…
               «Achas que estou a conseguir prender o leitor?
               - …
               - Seja, vou prosseguir o diálogo. Nessa nova vida, o nosso herói viu-se dentro de uma família de barqueiros que conduzia os passageiros de uma margem para outra do rio Volga. Adorou o aspeto romântico desse trabalho, o rio a correr junto á casa, as vozes das margens e o brilho das lanternas das casas nas águas agitadas mas, no instante em que subiu pela primeira vez para cima de um barco descobriu, chocado, que enjoava terrivelmente ao mínimo movimento do barco; e, sem demora, usou a navalha e voltou a rasgar o cenário para sair das margens do Volga. O nosso herói experimentou outras famílias e outras vidas, sem que nenhuma delas lhe agradasse, até que foi parar, acidentalmente, ao primeiro mundo que conhecera, quando saíra do ventre da sua mãe, no palácio real da capital da Baixa Panónia. Mas aí, também não conseguiu encontrar uma família ao seu gosto porque não havia ninguém por perto, o palácio havia sido selado pelas forças republicanas depois da família real ter sido tragicamente esfaqueada nos seus próprios aposentos. O nosso herói hesitou sobre o que fazer. Podia rasgar novamente os cenários com a sua faca e procurar um lugar e uma família onde gostasse de permanecer, mas também podia acontecer, uma vez mais, que fosse dar a um lugar onde já estivesse estado antes, e encontrasse alguém que se lembrasse dele e o quisesse punir pelo que antes fizera. Enquanto não se decidia, optou por permanecer uns tempos no palácio real, onde tinha os seus aposentos, os salões, as torres altas com uma vista invejável sobre a cidadela e a catedral. De qualquer das formas, ninguém o viria chatear com questões de etiqueta e protocolo, e estava sanada a ameaça maior, a obrigação insuportável de herdar a coroa do pai.
               E então, achas que a história tem penas para narrar?
               -  …
               - Omitirias ou acrescentarias alguma coisa?
               -  …
               - Não dizes nada?
               - …

               - Também não sei porque é que te pergunto…nunca conheci um pato de borracha que desse uma resposta de jeito! 

Verão Quente


   Em Moçambique, no ano de 1975, no tempo quente, deixara de se ouvir tiroteios de turras e tropas perto das casas do bairro; e para um adolescente como o Luís, havia a imensidão promissora das férias e dos amigos, as coboiadas, os bailes de garagem e as matinés no cinema Kudeca ao ar livre, junto ao rio Zambeze. Ah, e havia a Mimi! Todos a chamavam assim, porque fora batizada como Hermengarda, nome inspirado talvez e de forma infeliz pela heroína de Eurico, o Presbítero. Encontrava muitas vezes a Mimi nos bailes de garagem, mas nunca arranjara coragem para a convidar para dançar, ainda que o seu coração batesse como um metrónomo quando a admirava de longe, embalado por alguma música de Nelson Ned ou Nilton César. Mimi era sardenta e ruiva, tinha um sorriso lindo, e gostava de usar blusas brancas e saia curta de cor anil. Mimi flertava, ao que parecia, com o irmão do Luís, mas uma noite, no cinema, com ela sentada na cadeira do lado e empurrado pelas hormonas ou pela parvoeira natural dessa idade parva, Luís apalpou-lhe o rabo, com tanta força que ficou a pensar se não a teria aleijado. Ao intervalo, enquanto bebiam uma Canada Dry no bar apinhado de gente, ela fixou nele um olhar de nojo e desprezo, e Luís sentiu-se pior do que bosta de cão. E, nesses dias, sofreu e apodreceu por dentro, sentindo que dera cabo da vida, e desse sonho confuso de uma paixão com sardas.
   Hoje, quase quarenta anos depois, e olhando para o passado, Luís acha significativo que os livros de História falem do Verão Quente de 1975, como se todos os historiadores de todas as academias e universidades estivessem preocupados em ressarci-lo – a ele, Luís - das disparatadas tribulações da adolescência. 
   Sentada ao seu lado no alpendre, Mimi não consegue deixar de concordar consigo, ainda que ressalve, perante os filhos, que os dois não haviam começado da melhor maneira.


O sopro


- Não guardes tudo dentro de ti, atira cá para fora, desabafa, sopra!

(Aconselhava a visita ao seu lado, uma velha senhora, sentada na beira da cama do hospital. Mas ela resistiu. Já não sabia como fazê-lo).

- A dor e a angústia fazem ninho em nós, enrolam-se dentro do nosso peito e não nos deixam respirar! Sentes o aperto? São os nós não-desatados das palavras, tudo o que podias e devias ter deitado cá para fora e guardaste, só para te sufocar.

(Hesitou. Agora, aquilo fazia sentido e parecia-lhe acertado. Reuniu todas as réstias de força em si e soprou, com muita força).

(Foi o seu úl-ti-mo sopro).


(A visita retirou-se então, leve como um suspiro).

BD

Sem sentidos


    A primeira coisa insólita que os seus sentidos capturaram nesse fim de tarde abrasador, foi o cheiro intenso do almíscar a encher-lhe as narinas, libertado, ao que parecia, pelo petróleo que corria na calha para o tanque-reservatório da refinaria. Aproximou a ponta dos seus dedos e tocou ao de leve no líquido escuro, mas sentiu-se desiludido, era apenas petróleo, espesso e viscoso como qualquer petróleo. Em seguida, o que foi consentido aos seus sentidos, foi admirar as flores que corriam à superfície do líquido, solitárias ou atadas em colares, como aquelas que já admirara mais a norte, nas festividades do Ganges. Sacudiu a cabeça, a tentar dissipar os efeitos do calor e do Sol, e procurou sair rapidamente dali, mas as vozes que o chamavam do interior do tanque – Shiva? Kali? -  ataram-no àquele lugar como uma corda de muitas voltas.

Rito

(desenho de Eduardo Salavisa, retirado do seu blogue, o excelente Diário Gráfico)

   Apanhou a mulher na estação de comboios no caminho de regresso a casa. Ainda ela não tinha aberto a porta do carro e já estava a resmungar, ou a narrar com resmungos como fora o seu dia - o trabalho, as chatices, os miúdos que não se calam na sala de aula, a conversa fiada da diretora, os cheiros do comboio, as notícias, a antipatia de todos. Narrava tudo com os inúmeros recursos e subtilezas da sua vitimice extremada. Ele ouvia, parcialmente, e concordava, tentando prestar atenção á estrada. O trajeto até casa durava perto de três quartos de hora, quase tanto tempo como o monólogo da esposa.
   Chegou a casa e arrumou o carro, e com a mulher segura ao seu braço e ainda, e sempre, a falar, abriu a porta de casa e entraram. A mulher correu a refugiar-se no wc. do quarto para se mimar com um banho retemperador, e ele ficou plantado no vestíbulo. Com as chaves de casa presas na transpirada palma da mão, notou o brilho bruxuleante duma vela acesa na penumbra do corredor. Já sabia do que se tratava, porque todos os dias se repetia a mesma cena. Uma vela acesa dentro dum copo no chão do corredor, a primeira de dez que se sucediam até á espaçosa sala de estar. Seguiu o trilho luminoso até lá. Em cima da mesa da cozinha, e iluminada apenas por um dos focos do candeeiro de teto, estava um copo de uísque ao lado dum revólver, o seu revólver, aquele que guardava habitualmente na cómoda do quarto. Alargou o nó da gravata e bebeu um pouco de uísque. O revólver estava pronto a usar, carregado e destravado. Ainda não percebera em quem é que deveria disparar o revólver, se na esposa ou em si mesmo, mas não queria perguntar, aborrecer-se com isso.
   - Ainda não será hoje! – pronunciou de forma audível, guardando a arma no bolso do casaco depois de a travar.
   A filha adolescente, sentada no degrau cimeiro da escada que conduzia ao piso superior, levantou-se e esfumou-se na obscuridade como uma sombra. Imaginou que ela deveria ostentar uma expressão de amuo.


Um Decálogo (de nove) sobre o estudo de mistérios:
(Um apontamento)

               Introdução:
               Os mistérios (da história, da ciência, e outros) prosperam porque são uma forma diluída de religiosidade, com as mesmas virtudes e vícios de qualquer forma de religiosidade: a preferência por certezas espontâneas e iluminadas que nos inundam a mente de neurotransmissores com efeitos agradáveis e recompensadores; a verdade como caraterística restrita a um grupo ou comunidade, concordância cega, negação da crítica, clivagem e maniqueísmo (eu, nós, sabemos a verdade, os outros nadam em erro e possuem dois cornichos na testa e uma língua bifurcada), substituição do debate pela certeza alojada nos nós dos dedos, etc.
               Em virtude disto, e como um curioso que já viu e leu muita coisa nestes domínios, alinhei as notas que se seguem, tiradas de uma pauta muito caótica.

1 – Uma pessoa pode interrogar-se ou interessar-se por um mistério sem ser um historiador, um cientista ou um físico, mas será um interesse inconsequente e supérfluo se não possuir uma consciência crítica, e um espírito exigente e rigoroso – abreviando, se não possuir uma atitude científica.

2- É necessário separar as águas.
               É comum, o objeto de estudo não estar isolado, mas sim, unido, cooptado, a outras questões e mistérios; e não se consegue fazer uma abordagem clara se não for feita a demarcação do que se pretende estudar ou investigar. Se alguém fala, por exemplo, de ruínas submersas no Atlântico, falará também, eventualmente, do Triângulo das Bermudas, das crenças dos Teósofos, dos deuses astronautas, ou dos problemas de asma do Holandês Voador. Ou, se falar de Nostradamus, eventualmente, vai invocar uma dezena de profecias antigas e modernas, e meter ao barulho muitas histórias e personagens diferentes e incluir algumas fraudes que já foram descobertas e expostas.
               É mister pois, eleger o tema, e ter sempre um ponto de fuga, um horizonte definido para o qual os factos e indícios apurados possam convergir.

3 – Consequência da nota anterior: ter uma noção do que é mistério, objeto de estudo, e do que é ficção e fantasia, que amiúde envolve o mistério e o contamina. Esta promiscuidade resulta muitas vezes de uma leitura apressada do que já se escreveu sobre um determinado assunto. Se um autor (A) narrar algum tipo de fenómenos luminosos estranhos numa dada região que acompanharam a queda de um pequeno asteroide, e outro autor (B) colocar a hipótese de que isso se deveu ao choque na atmosfera entre o asteroide e uma aeronave de um tipo qualquer, é muito provável que um terceiro autor (C), venha fundir as duas narrações, dizendo que nessa dita região e na data definida (e aí expiram os factos) um asteroide caiu na terra depois de ter colidido com um avião, provocando fenómenos luminosos estranhos, que se explicam pela explosão deste e pelo combustível a arder. A partir daí, é esta terceira versão que oferece mais probabilidades de se tornar a versão “original” para os que chegarem depois ao tema, porque é a mais fantástica e excitante e, logo, aquela que terá uma vida mais longa.
               Estas confusões são particularmente frequentes quando se aborda algum mistério relacionado com a biografia dalgum personagem histórico, porque as biografias escritas são muitas vezes, um somatório de factos e ficção, e biógrafos há que colmatam as lacunas, inventando para recreio do leitor o que poderia ter sucedido em períodos de tempo para os quais não possui qualquer dado ou relato. O grande problema, é que esses biógrafos se esquecem frequentemente de avisar os leigos que os seus livros encerram ficção.

4 – Como em qualquer estudo, possuir a humildade e a honestidade para assumir os erros cometidos e refazer as opiniões já alicerçadas, por muito que isso traga frustração e desalento.

5 – Ir sempre ás fontes. Máxima da História que é válida para qualquer estudo sobre enigmas. Dá trabalho, mas é a única forma de nos aproximarmos da verdade; rebuscar uma atrás da outra, a fonte anterior, a versão mais pura e menos manipulada da verdade. Há que atravessar com paciência o caudal de erros, disparates, más traduções e opiniões ignorantes que nos separam do que queremos estudar, analisar, inquirir. Por vezes, a deformação é involuntária, inocente, uma opinião apressada, uma análise descuidada, mas em muitas outras, os investigadores contribuem para as fraudes de forma intencional, por teimosia ou mera ganância (os best-sellers podem render muito dinheiro).
               Dou um exemplo.
               Quando Henri Lhote estudou as pinturas rupestres nos rochedos do Saara, havia entre elas, muitas que representavam seres estranhos, mágicos, talvez entrevistos no transe de cerimónias religiosas com uso de alucinogénios. A uma delas, um ser gigantesco com duas antenas na cabeça e de cor avermelhada, Lhote batizou com o nome de “Grande deus Marte”, pela imponência da figura e pela cor, que é a mesma do planeta. Como seria de esperar, em todos os livros sobre Deuses Astronautas (ou visitantes do espaço nos tempos históricos e pré-históricos), a fotografia reaparece e lembra-se repetidamente que Lhote a batizou de o “Grande Deus Marciano”. Uma pequena e significativa diferença.

6 – Como em qualquer dissertação ou estudo, não se deve atravessar o riacho a nado, mas saltar de pedra em pedra, com segurança. Ou seja, o estudo tem de ser uma progressão verificada de passos e estádios, que podem ser repetidos por qualquer pessoa, e realizados em sentido inverso, se necessário for. Em nenhum dos passos, pode haver uma conclusão saída do nada, ex machina, uma peça exógena que se obriga a encaixar no puzzle ao qual não pertence.
               Novo exemplo: Na década de sessenta e setenta, o investigador francês Robert Charroux (m. em 1978) escreveu uma série de livros que ainda hoje são reeditados e fazem os editores auferirem importantes somas de dinheiro. Charroux atingiu uma notoriedade extraordinária como investigador, com pessoas que lhe escreviam de todo o mundo para lhe confiarem as suas teorias e suspeitas e sendo auxiliado por “mestres” anónimos cujos ensinamentos ainda hoje nos intrigam. Mas Charroux tinha alguns temas redundantes como o celticismo (via celtas e obras célticas em todo o lado), ou a teoria de Velikovsky sobre a colisão dos mundos, que defendia, entre outras coisas, que o planeta Vénus nem sempre estivera no nosso sistema solar e que cá chegou em tempos proto-históricos, há cerca de cinco mil anos. Charroux abraçou esta teoria com convicção, e foi um dos percursores da teoria dos Deuses Astronautas. Se Vénus nos chegou há cinco ou seis mil anos, e foram essas as datas em que nasceram as grandes civilizações, então, os dois factos estavam interligados, e tinham sido os venusinos a instruir-nos nas coisas importantes da cultura. A espiral de argumentos nascidos do nada atingiu uma tal proporção que, nos seus livros, a cor verde está associada aos venusinos e aos Antepassados Superiores, e constitui, per si, um indício importante. Uma estátua de jade, ou um artefacto em serpentina, porque tinham cor verde, tornavam-se passíveis de serem interpretados como um objeto de culto ou uma oferenda aos civilizadores vindos do planeta Vénus, e os Olmecas e Maias da América Central ficavam no mesmo barco que as civilizações antigas do Extremo Oriente, porque os seus artífices tiveram o infortúnio de possuírem uma predileção idêntica por pedras de cor verde.

7 - Desconfiar das soluções ou respostas fáceis. Por natureza, o ser humano cede facilmente á preguiça, e colhe os frutos que estão mais á mão em vez de ambicionar os outros que o obrigam a esforçar-se mais e ascender na árvore em busca deles. As soluções fáceis são, quase sempre simplistas, contornou-se a complexidade dos assuntos, queimou-se etapas do percurso para que elas estivessem mais perto de nós, ainda que estejam repletas de erros.

8 –Noção (apenas) aparentemente contraditória com a anterior.
               Não complicar desnecessariamente as questões, criando afluentes e ramificações que não pertencem ao que se está a estudar; para evitar criar vazios e rodeios que enevoam o tal ponto de fuga de que falávamos antes, e as formas de o alcançarmos.

9 – Ser ambicioso e ter uma visão mais dilatada.
               O que pretendo referir com isto, é que é muito comum procurar-se as respostas próximo ao enigma, repetindo interpretações imediatas que muitos já bosquejaram antes, e de forma consistente. Muitas vezes, as respostas só são alcançadas se a pessoa conseguir ter uma noção do contexto e das implicações do mistério, nem que, para tal, tenha de estudar matérias e temas que, numa primeira análise, nada teriam a ver com ele. Uma tese histórica ou arqueológica pode socorrer-se de campos de conhecimento tão variados como a astronomia, o estudo palinológico, a geologia e a genética; e não há motivos nenhuns para que, no estudo de qualquer mistério, não seja empregue a mesma diversidade de meios e processos para atingir a verdade que se procura e deseja.

O que poderíamos fazer com três milhões de nadas?


   Caminhar na Lua, atravessar portas no ar, abraçar alguma nuvem mais jovem e dócil, dizer o indizível, escrever o verso impossível, atar palavras ao cais da memória com correntes de ar, navegar entre o ontem e a eternidade numa casca de nós, profetizar o que já sucedeu com um riso sem siso, e convidar o amor para a nossa casa e fazer-lhe a Kama.
   Com três milhões de nadas,
   é seguro, 
   que continuaríamos a sonhar.

ABCDário - T de Tenebrário

                                 


    Do outro lado do mundo havia luz, muita luz, com o Sol a derramar-se pelo espaço como uma lagoa de lava a escorrer em espiral para uma cova próxima; mas ali, só a face da Lua brilhava a intervalos breves como se alumiada por explosões prateadas. No solo, tudo estava ás escuras, apagado, as luzes elétricas, os pirilampos e os peixes das profundezas, e o brilho dos olhos no rosto das pessoas mortas. Na igreja posta a céu aberto pela tremura da Terra, o Tenebrário ainda manteve as velas acesas por algum tempo naquela noite de Sexta-Feira Santa, antes de se apagar como o mundo enquanto o planeta, com as suas montanhas e os seus sonhos, deslizava com a Lua para o Buraco Negro que se abria junto a si como uma porta de trevas.

Mar-morto


   Dez horas da manhã (de uma manhã enevoada de Quarta-Feira). Hora de abrir o expediente, de bulir, de picar o cartão. As lojas, escritórios e repartições abrem as portas, algum empregado mais tarimbado aspira com força o resto do fumo do seu cigarro antes de entrar. Uma jovem muito maquilhada varre a entrada de uma butique; mais abaixo, a dona de um quiosque pagina os jornais do dia alinhados no expositor.
   Décio Júnio aguarda ainda uns momentos. Não gosta de entrar numa loja enquanto a caixeira ainda arruma os dinheiros na caixa ou os marçanos dão um toque nos artigos expostos e abrem os estores de fitas. Por fim, tira o boné cinza e entra na loja de alfaias agrícolas com humildade e receio. Abana a cabeça perante o olhar inquiridor dum marçano, e num relance, encontra quem procura, uma caixeira que folheia umas guias de remessa no cubículo de pagamento. Reconheceria aquele rosto em qualquer lugar, apesar dos anos que haviam escorrido como areia desde a última vez que o vira. Aproxima-se e ela mostra-se surpreendida por ver um cliente aos primeiros momentos de abertura da loja.
   - Graça? – Pergunta, sabendo de antemão a resposta.
   - Sim, em que posso ser-lhe útil?
   - Talvez não te recordes de mim, sou o Décio. Namoriscamos no liceu, numa altura muito complicada para ti, quando tinhas muitos problemas na família por causa do teu pai e do teu irmão.
   - Sim, tenho uma vaga ideia…
   - Houve uma noite em que saímos, no dia em que prenderam o teu irmão…
   - Sim, sim, mas peço-lhe que seja breve. Estou a trabalhar, e podem não aceitar muito bem que eu fique por aqui a cavaquear.
   - Termino em minutos! Nessa noite, tu…você chorou, e jurou que seria a última vez que chorava. Também foi a última vez que estivemos juntos.
   - E?
   - Eu guardei-lhe e trouxe para lhe entregar, a última lágrima que choraste nessa noite.
   Diante da sua incredulidade, ele abriu a palma da sua mão e expôs um pequeno pingente brilhante, que ela recebeu nas suas mãos entreabertas. E logo estremeceu, porque imaginara que fosse mole e fluido como uma gota de resina e era, no entanto, semelhante a um pequeno cristal liso e arredondado.
   - Sabia que te faria falta, faz falta a qualquer pessoa. Agora, já podes chorar…
   Mal disse isso, rodou sobre os calcanhares e dirigiu-se á porta de saída da loja. Não olhou para trás, tentou não olhar, como Lot. Atrás de si, permanecia o passado, Graça, e o sal das lágrimas.


O curso



   Encontrava-se de férias. Pôs de parte a preguiça, as cervejas entesouradas no frio, as sornas na praia ou na cama de rede de jardim, e decidiu fazer algo de útil e proveitoso com as férias, servir-se delas para se tornar uma pessoa melhor e mais rica. Como era um pouco avesso a leituras, optou por tirar um curso de línguas. Contatou uma empresa de ensino de línguas cujo anúncio comercial online estava sempre a pop-upar no seu site favorito de pornografia, e subscreveu um Curso Completo de Silêncio, que compreendia sete DVDs com aulas, e um CD-ROM interativo para conversar com o professor. Quando finalizasse o curso, e com vista a obter o diploma, teria de prestar uma prova escrita, acrescida de um exame oral através do sistema de videoconferência.
   Entusiasmado, embrenhou-se com uma vontade enérgica no bosque intricado de vocábulos e verbos do Curso de Silêncio. Quanto mais estudava e repetia as palavras, mais à-vontade se sentia com a língua, e as dificuldades só aumentaram quando iniciou o estádio de conversação básica. Eram coisas muito diferentes conhecer as palavras isoladamente e empregá-las para estruturar, e de forma correta, uma frase, por mais simples que fosse. A redação em Silêncio também foi um pouco difícil, mas aí, ao contrário da conversação imediata, tinha mais algum tempo para refletir sobre o que iria escrever e como, de forma que podia elaborar os textos com menos pressão sobre si.
   O tempo que levou para concluir o Curso Completo de Silêncio foi quase á justa para o tempo de férias que ainda lhe restava. Quando chegou o ansiado e temido final de curso, prestou a prova escrita e, no dia acordado, sentou-se diante da webcam para a prova oral. Estava muito nervoso, e sentiu que esse nervosismo lhe estava a afetar a prova enquanto era entrevistado pelos examinadores.
   Dois dias depois, recebeu um email com as (más) notícias que já esperava. Teria que repetir a parte final do Curso Completo de Silêncio e fazer novos exames. A apreciação que lhe era feita, é que tivera valores medianos e suficientes na prova escrita, mas o que levara á sua reprovação fora a pronúncia sofrível que demonstrara na prova oral.

Paciência

(Imagem: Shannon Marie)

   É preciso paciência. Para carregar com tudo o que os outros veem em nós, o que está fortuitamente próximo da verdade e o que é uma fraude ignóbil que os outros segregaram rebuçada em pus, tolerada por nós como se fosse algum bálsamo. 
   É preciso paciência, para defender a paz que nos roubam, os sonhos saqueados, a nossa vontade espezinhada. 
   É preciso paciência para viver, dia após dia, a merda de vida que nos consentiram – minguada, violada, estropiada e escarnecida. 
   E esperam de nós que sejamos pacientes, que saibamos esperar pelo que nunca virá, e que valorizemos e veneremos a sacrossanta paciência. 
   Porque esperam das ruínas, que saibam envelhecer com graça.

   Cuspo nisso!

ABCDário - U de Unívoco


   Rosmaninhal, foi sempre uma aldeia pequena, um núcleo de casas de granito e tijolo, emberçado no fundo dum vale entre encostas com choupos, hortas e cercados. Um quinto das casas ainda é ocupada, e as restantes estão abandonadas, porque os donos partiram em busca do sonho distante e traiçoeiro. Em Rosmaninhal, o futuro não é animador e vive-se devagar. Pelo correr das coisas, pareceria que a aldeia continuaria a despovoar-se até não restar ninguém nas casas de granito. Mas tudo começou a mudar quando chegou á aldeia um homem que era órfão, não tinha pai nem mãe, e pediu ás pessoas se podia ocupar uma das casas devolutas da aldeia. As pessoas concordaram, satisfeitas por haver uma cara nova na terra. Depois desse, vieram outros, homens e mulheres, todos órfãos de pai e mãe. Via-se que vinham a convite ou incitamento do primeiro órfão que lá chegara. Os habitantes de Rosmaninhal receberam-nos bem, cederam-lhes as casas desabitadas, trabalharam para tornar essas casas habitáveis, e ofereciam-lhes as primícias das hortas e pomares para lhes mostrar como a sua chegada era agradável para eles. Como resultado de tudo isto, a população de Rosmaninhal aumentou, e os órfãos recém-chegados instalaram-se nas casas antigas, quatro e seis em cada uma, e depressa estavam integrados na comunidade. Eram amistosos e muito conversadores, e todos gostavam deles. É certo, que não fizeram grande coisa para retribuir a generosa hospitalidade dos habitantes de Rosmaninhal, mas ninguém os levava a mal por isso, porque os órfãos não tinham muita saúde, e a idade muito avançada de todos eles não permitia que auxiliassem no pastoreio ou no duro trabalho dos campos.


Aviso á navegação


   - O que somos nós? – perguntava o Jovem com Aspirações Políticas ao Político Experiente Inspirado.
   - Nós – e respirou fundo para intercalar a pausa significativa que os mestres usam antes de cada ensinamento basilar – nós somos Republicanos Darwinistas.
   - E o que é isso? – voltou á carga o jovem, receando perder alguma migalha, algum fio solto de sabedoria.
   - Acreditamos no valor da República tanto quanto acreditamos na verdade darwinista do domínio do mais forte e da sua preponderância na seleção natural, das espécies e dos indivíduos dentro de cada espécie. Isso conduziu-nos a enriquecer os três direitos fundamentais da Revolução Francesa, que são…?
   - A Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade.
   - Muito bem! Mas esse lema, visto duma perspetiva mais atual e ponderada, leva-nos ao seguinte: Liberdade, para espoliar os mais fracos, aqueles que perderam na batalha da sobrevivência e que são, garantidamente, os menos aptos para conduzir, governar ou decidir. Igualdade, entre os mais fortes, o que significa poder, poder económico ou político mas, sobretudo, o poder puro, o único capaz de criar leis que nos salvaguardem ou mecanismos criados no mesmo sentido para iludir e ludibriar as leis e organismos reguladores que já existiam de antemão. E, por fim, a Fraternidade. Podia dizer-lhe muito sobre a Fraternidade, mas definirei, em suma, e sem pudor, que esta Fraternidade alude á Fraternidade entre ladrões, á aliança tática e permanente entre homens de poder que são tidos e desprezados como ladrões quando, tudo o que fazem, é garantir a continuidade da República e das organizações políticas essenciais para a sobrevivência dos países e dos Estados.
   - Entendi, e partilho plenamente desse ideal político, mas tenho apenas uma dúvida.
   - Qual?
   - Se nós, como Republicanos Darwinistas, fortalecemos os Estados e trabalhamos para a sua manutenção, isso não será viciar um pouco os mecanismos espontâneos da seleção natural?
   Nova pausa. O Político Experiente Inspirado parece desinspirado por instantes, mas logo retoma a compostura.
  - A sua dúvida é pertinente, e só demonstra a sua inteligência; mas todos temos de fazer pequenas concessões á lógica e á ética, porque ninguém consegue ser, a um tempo, timoneiro e escravo das galés.


A razão dos sem-razão

(Arte de Gustavo Costa)


- Hoje é Dia da Liberdade! - afirmou o pobre, de cócoras no jardim do sanatório.
- Dia da Liberdade? - estranhou o enfermeiro - costuma ser em Abril, mas tu lá sabes, Toninho. E agora, o que é que fazemos no Dia da Liberdade?
- Temos de a encontrar! - retrucou ele, a  esgravatar na terra com as mãos nuas.


Juras de amor


- Vou amar-te até ao fim dos meus dias, até ao último sopro de vida dentro de mim! - jurou
- Ãhn!...Eu também, decerto...
- Mas não te ouvi dizê-lo, aliás, não tenho muita certeza disso, eu bem vi como olhavas para o rabo da hospedeira. Se calhar, nunca me amaste e não é agora que vais começar, logo agora, que o nosso avião mergulha a pique e temos poucos segundos de vida.
- Amor! - defendeu-se ela - como é que preferes acabar a tua vida, acreditando que te amo, ou consumido por dúvidas inúteis?

férias


   - Quero férias! – reclamava o velho Tibório, de braços cruzados a esfregar os cotovelos, como se o clamor dos seus ossos reforçasse a sua causa – ando muito cansado e cheio de dores nos ossos, tenho direito ás férias e preciso de as ter… - adiantou, pausando as palavras para ser bem entendido.
   O autarca encolheu os ombros.
   - Ó Tibório… não poderia pensar melhor no assunto? Estamos em Agosto, e eu não tenho mais ninguém. Você sabe como as coisas são, com o calor e tudo o mais…
   Mas Tibório mostrou-se inflexível e lá teve as férias. Ansiadas e merecidas. Gozou-as em pleno, os filhos que tinham vindo de férias de França enchiam a sua casa e fez tudo com eles, foi aos arraiais e ás touradas, percorreu todas as capelinhas das adegas dos amigos, torrou deitado na areia da praia enquanto adultos e pirralhos riam ou se agitavam á sua volta, enfumarou-se com os churrascos e as fornadas de pão e pão com chouriço ou torresmos.

   Quando as férias terminaram, voltou ao trabalho, ciente de que iria pagar bastante pelo descanso. E lá estavam eles á sua espera, os caixões, dez no total, pousados sobre barrotes de madeira de carvalho, com a cabeceira encostada á face interna do muro do cemitério. Estavam á torreira do Sol e pejados de moscas, mas Tibório era uma raposa velha e vinha preparado. Trouxera flores de alfazema que fixou entre o bigode grisalho e o nariz com um pedaço de cordel que atou na nuca. Subtraindo-se assim ao cheiro que empestava o local, muniu-se das suas ferramentas e começou a cavar a primeira das dez covas.

[Funes, El Memorioso]


   Para Funes a memória não era apenas uma faculdade ou um órgão - era um portal de passagem, uma rutura de nível.
   É assim que, a agonizar na sua velha casa, revive com infinitos detalhes a realidade outra dos seus tempos de bebé, deitado no colo da mãe no alpendre, enquanto o pai adestra um cavalo no pátio, garboso, com o seu bigode prussiano, o casaco de pele de alpaca e as botas altas de couro. Enquanto se demora nessa memória, Funes procura não isolar esses pormenores, não lhes conceder um nome ou uma descrição, que só multiplicaria o que a sua memória retém e carrega.

Sépia

A cadeira


     Afonso despediu-se da mulher e foi trabalhar, trabalhava nas obras e afortunadamente, numa obra a pouco mais de duzentos metros de casa, pelo que foi a pé. Saiu pelo portão pequeno da casa, espreitou a sua própria caixa de correio a ver se tinha alguma coisa – estava vazia - e começou a descer a rua, aspirando, feliz, o fumo do cigarro. Quase no fim da rua, atravessou-a para não passar junto aos contentores de lixo e evitar assim o seu fedor nesse dia quente de Julho. Mas foram esses mesmos contentores de lixo que o fizeram deter-se. Eram dois, verdes e manchados, e entre eles, estava colocada uma cadeira, da qual alguém se quisera desfazer. Era uma cadeira das antigas, com costas altas e revestimento em couro. Por baixo, entre as duas pernas dianteiras, e um pouco saído, viu que havia também ali um par de ténis, com as biqueiras viradas para ele. Afonso aproximou-se. A cadeira não parecia estar comida pelo caruncho e era muito, muito bonita. Intrigava-o como é que alguém quereria livrar-se dum objeto desses. Olhou em volta, um pouco comprometido, apetecia-lhe mesmo sentar-se nela, o que poderia parecer estranho ao comum dos olhares. Mas, finalmente, resolveu-se. Afastou os contentores da cadeira, e cedeu ao capricho de se sentar nela.
    Depois de Afonso sair de casa, uns bons cinco minutos depois, foi a vez de a mulher cruzar o mesmo portão. Ia á mercearia, e depois, tencionava parar no café ao lado onde o proprietário, um ucraniano de cabelo grisalho, era uma pessoa muito especial com a qual gostava de conversar e flertar sempre que podia. Tal como o marido, desceu a rua, cruzando-a na diagonal para evitar os contentores do lixo e, também como ele, viu a cadeira e aproximou-se. Gostou de imediato da cadeira e ficou uns instantes a observá-la. Era uma cadeira bonita, das antigas, parecia ser em madeira de lei e o couro do assento e das costas parecia estar em bom estado. O fumo duma beata ainda acesa no chão fez com que ela reparasse no par de ténis e no par de sapatos sujos que estavam por baixo, com as biqueiras viradas para fora. Não reconheceu os sapatos de trabalho do marido - que já tinham sido uns bons sapatos antes de estarem estragados pelo cimento e pelo saibro – e, na verdade, não pretendia perder mais tempo ali. A mercearia e o seu amigo ucraniano aguardavam por ela.


Um rito profano

   Segunda Terça-Feira de casa mês, é dia de cortar as unhas na casa. Tiram-se sortes para definir a escala de serviço e inicia-se o ofício. Todos, mas todos, descalços e com as calças arregaçadas (caso vistam calças ou calções. Caso contrário, tira-se o vinco ao cós da saia), enfiam os pés em alguidares com água quente para amolecer; e ás mãos, mergulham-nas  em tigelas de barro que desempenham a mesma função. Em geral, os adultos colaboram com mais boa vontade e as crianças resistem instintivamente ao rito, pelo que, além de se lhes amolecer as unhas com água a escaldar, amolece-se as suas vontades com calduços e tabefes distribuídos com parcimónia. Depois de quinze minutos com os pés em banho-maria, inicia-se o corte. Os dois familiares eleitos pelas sortes cortam as unhas aos restantes, começando pelas mãos, que é um corte mais delicado que requer utensílios mais simples e efeminados, e finalizando pelos pés que exigem um hardware de dimensões invulgares. Quando os dois cortadores sorteados cortam as unhas a todos os outros, cortam-nas por sua vez a si mesmos, enquanto os outros aplaudem em uníssono a cada estalar de unha, a cada tesourada sonora e a cada grito libertado por eles. Quando todos têm as unhas cortadas, é costume limá-las, raspando as unhas dos pés e das mãos contra as paredes de madeira da barraca da família; e, no fim, cumprida a função e concluído o trabalho, todos celebram juntos com uma dança familiar tradicional em que, dispostos em fila ao lado uns dos outros, dão saltos e afastam e juntam os braços e as pernas, simbolizando com essa coreografia o abrir e fechar da tesoura de poda que costumam usar para cortar as unhas dos pés.


O reduto da sabedoria (uma estória em jeito de parábola social)

(imagem daqui)

               Mog, um jovem celtibero, foi instruído pelos anciãos sobre a origem do cosmos e do homem, e um deles, Ogden, conduziu-o ao coração dos bosques, onde o deixou sem qualquer arma e com a incumbência de capturar um veado de cauda listada, o animal mágico que lhe surgira em sonhos depois de ter mastigado as folhas do teixo. Mog, supera a prova, persegue e abate o veado, retira dele as orgulhosas armações e regressa a Segobriga, o povoado fortificado onde nascera e fora criado. Sente-se feliz, por já poder ser considerado um adulto, e porque Ogden lhe prometera que o continuaria a instruir no conhecimento e nos ritos sagrados até os anciãos o considerarem apto a suceder ao seu pai na liderança da tribo.
               A caminho de Segobriga, Mog entra num desfiladeiro tortuoso e enevoado que se assemelhava a um longo túnel helicoidal onde, por vezes, Mog tem a sensação de estar a pisar o chão e de estar simultaneamente suspenso sobre este. Quando sai do desfiladeiro, a sua surpresa não podia ser maior. O mundo que tem diante de si, não é o seu mundo. Desemboca no século XXI, e admira assustado as estradas com carros, os aviões no céu, e estranhas casas gigantescas. As pessoas são estranhas, vestem-se e comportam-se de forma estranha, e a língua que falam é completamente desconhecida. Quanto mais anda, maior se torna o seu espanto e o seu terror, que se agrava mais por ter perdido a noção de onde ficava, nessa paisagem insólita, o desfiladeiro de onde saíra. Mas Mog é um jovem guerreiro, ensinado pelos melhores sábios da sua tribo, e apercebe-se de que tem de encontrar a passagem de regresso para o seu mundo e para a sua amada Segogriba, e que só o pode conseguir se usar a astúcia e a inteligência.
               Mog finge-se mudo e continua a sua deambulação como um mendigo ou um vadio, e consoante os dias passam, começa a aprender a língua que esses estranhos falam e, não tarda, consegue que o ensinem a ler e a escrever. Empregando-se numa quinta, onde trabalha de Sol a Sol, reúne o dinheiro suficiente para comprar roupas novas e parecer cada vez menos um guerreiro celtibero; e, quando se sente confiante o suficiente, prossegue o plano que tinha em mente. Vai até á aldeia mais próxima para entrevistar os anciãos do lugar com o intuito de lhes perguntar sobre a melhor maneira de voltar ao seu mundo. Se havia respostas para essa questão, ela só poderia estar nas mãos dos anciãos.
               Estranhamente, na aldeia vizinha da quinta, não encontra nenhum ancião, apenas jovens e homens de meia-idade. Inquire sobre isso a um dos homens que encontra na rua direita da aldeia, e este indica-lhe uma casa enorme no exterior do povoado, próxima ao cemitério. Era uma Casa de Repouso, diz-lhe o interpelado e aí, ele poderia encontrar todos os velhos que precisasse.
               Com um frémito de esperança, Mog bate á porta e aparece-lhe uma mulher forte de bata comprida de cor azul-clara. Apesar da desconfiança alardeada pela mulher, Mog pede-lhe polidamente para falar com os anciãos que moram no lugar. Um pouco relutante, a mulher fá-lo entrar para uma sala minúscula onde os velhos estão acomodados em cadeiras de braços encostadas às paredes, uns a dormitar, outros a afugentar das feridas as moscas que zumbem em volta. Mog fica horrorizado, com o cheiro, o desleixo, o calor infernal da sala, mas, mesmo assim, pede aos presentes um minuto de atenção, e narra-lhes que veio de uma terra muito distante e veio cair naquele mundo por artes mágicas cuja natureza ou autoria era um autêntico mistério para ele; e termina o seu pequeno discurso, perguntando aos anciãos se algum deles o poderia ajudar a voltar ao mundo em que nascera.
               Um longo silêncio coroa as suas palavras, apenas interrompido pelo zumbir das moscas e pelos gritos que uma idosa liberta numa divisão contígua.
               A funcionária de bata azul-clara, põe a mão no seu ombro, e diz-lhe, condescendente:
               - Não espere por grandes respostas desta gente. A família deles, nós e eles próprios – todos estão só á espera que chegue a hora deles morrerem. É para isso que os deixam aqui...isto é apenas uma antecâmara da morte.


Causa mortis


   A cantora soprano possuía uma voz belíssima, e essa voz guindou-a á fama, fazendo-a elevar-se neste mundo num percurso inverso ao da lira e voz de Orfeu. Também o inferno assomava ao seu mundo, mas os que a rodeavam faziam tudo para que ela o esquecesse. Chamavam-na divina e eterna. Viverás para sempre como os deuses - repetiam-lhe os admiradores e os amigos, os críticos e os leais servidores, e insistiam – as estrelas irão apagar-se primeiro do que a tua glória, e estás apenas a um passo de ser admitida no Olimpo.

  A deusa, viveu e resplandeceu como pôde, até se finar no seu apartamento em Paris. A eterna morreu de incoerência.

RT

Cem touros


   Na psique feminina é comum imaginar-se que o primeiro centauro nasceu da união dum cavalo e de uma deusa ou ninfa soberana. Na psique masculina, o cenário é quase o mesmo, mas a iniciativa e a autoria pertencem ao cavalo, másculo e dominador. Mas uns e outros não se furtam á evidência de que as éguas mitológicas são fecundadas pelo vento, e de que os centauros, filhos do vento ou do espírito, continuam a pascer tranquilamente nas planuras do nosso coração.

O carro de fuga


   O assalto foi preparado na hora pelos dois malfeitores. Mal preparado, quase espontâneo como um silvo de surpresa ou admiração. Havia duas fases no plano. Começando pelo fim, a segunda fase era chegar ao pé da Heloísa, a vendedora quarentona de frutos secos da praça; Abelardo estava apaixonado por ela, pelas suas faces coradas, pelo peito generoso e pernas gordas, e pelo baloiçar rodopiante e obsceno das suas bochechas quando mascava pastilha elástica. A primeira parte do plano, e foi aí que Abelardo pediu ajuda ao amigo Segismundo, a primeira parte, dizia, era roubar um punhado de margaridas da coroa de flores que a edilidade havia depositado aos pés da estátua da rainha D. Leonor. Abelardo roubava as flores, e entrava no carro de fuga conduzido por Segismundo, que os levaria até á praça da fruta, onde   Abelardo as entregaria a Heloísa, junto com uma improvisada declaração de amor.

   Ultimaram então os preparativos do assalto; com Abelardo a espiar a proximidade das pessoas á almejada coroa de flores, e Segismundo sentado dentro dum carro sinistrado sem rodas que fora deixado junto ao passeio, á entrada do parque D. Carlos I. Enquanto observava atentatamente as movimentações de Abelardo, Segismundo fingiu que rodava a chave na ignição e verificava o estado dos piscas, satisfeito por ter o caminho desimpedido para sair rapidamente dali.

Sem regras

   Jorge, é um rei que vive preocupado. O seu reino está em guerra e qualquer desfecho é possível; por isso preocupa-se, pelo reino e pela sua própria cabeça. Nessa manhã, o rei Jorge acorda particularmente anticlerical, e ordena que decapitem o debochado do bispo mesmo antes de tomar a primeira refeição da manhã. Quando, horas depois, dormita reclinado sobre a mesinha com o tabuleiro de xadrez, um guerreiro-pajem de rosto pintado (um espião) insinua-se nos seus aposentos e crava-lhe no coração uma adaga comprida e aguçada. A morte é imediata, e o guerreiro regozija-se com o que considera uma proeza, que o é certamente, se nos lembrarmos de que ele é apenas um peão do jogo de xadrez que se joga nos aposentos reais.


Ela

Despida de sombras, vestida de sol, a mulher nua dança e rodopia no círculo de magia da clareira do bosque, 
os animais contemplam, as serpentes rendem-se, a minha alma enche-se de luz.

Onde estavas tu, sacerdotisa, na hora da minha negra morte?!


Brblt


   A doutora Anna inventou a borboleta uterina. Um engenhoso acessório de prazer que se introduz na vagina preso por um fio e que estimula o seu interior com ínfimas descargas eletromagnéticas que marcam o compasso do abrir e fechar das asas boleadas da borboleta.
   A doutora Anna é uma solitária. A doutora Anna ainda não divulgou o seu invento, pelo qual sente uma crescente afeição. A borboleta uterina é a coisa mais parecida com mariposas no estômago que já pôde experimentar.

A resposta

   A família, o casal e duas filhas adolescentes, chegou á cidade pequena da costa na hora fresca do entardecer. Fizeram o Check-in no hotel onde tinham reserva, e interrogaram-se sobre o que iriam fazer em seguida. A patroa queria espreitar a praia, ver se ficava muito longe do hotel, se era ventosa ou não, e se tinhas lojas ou restaurantes nas imediações. As filhas adolescentes iam com ela, mas primeiro queriam descobrir se havia algum centro comercial de jeito na cidadezinha, se tinha cinema, lojas de marca, Mac, restaurante chinês. O pai delas,e marido da respetiva, divergiu da família sem grandes protestos dos companheiros de viagem. Já o conheciam. Era mais introspetivo e reservado, e preferia perambular pela cidade com a sua Canon, descobrir ângulos, pessoas, bairros antigos e velhos monumentos.
   Assim fez, começou a partir do mar, dos bairros de pescadores de ruas estreitas e empedradas e casas pobres e simples, e foi subindo a encosta. O centro histórico era mais acima, nascido quando o mar estava mais subido. Havia argolas pesadas para as amarras dos navios na parede de uma capela a trezentos metros da água. Fotografou. Encontrou igrejas antigas, um paço renascentista, algumas janelas e varandas em arte-nova, e alpendres e arcadas que lhe lembrava alguns edifícios de Coimbra. Mais fotos. Via poucos jovens, mas também já quase não parecia haver pescadores. Mesmo a zona mais moderna da cidade, onde o vidro das fachadas dos prédios espelhava o sol em declínio, dava a ideia de desolação. Muitos turistas, muitos idosos e ruas quase vazias. Os mais novos deviam ter migrado, procurado trabalho ou fortuna nas cidades grandes, despovoando a cidade do entusiasmo dos jovens e do riso das crianças.
   Na zona mais alta da cidade, onde os prédios começavam a ceder o lugar a mansões grandes com jardins e piscinas, encontrou um prédio estranho que lhe despertou de imediato a atenção. Possuía uns quatro andares, mas nenhuma janela ou porta em qualquer dos pisos. As varandas avançavam para a rua a partir de paredes sem aberturas ou vãos. Tirou fotografias. Contornou o quarteirão até ás traseiras do prédio, e confirmou que também ali não havia portas ou janelas. Ainda pensou se não seria uma obra interrompida em que os contrutores tivessem emparedado as entradas para dissuadir alguma ocupação ilegal, mas o cuidado com que as paredes estavam pintadas e ausência de ombreiras contrariava a ideia. Outro detalhe, singelo mas estranho, era a presença no piso térreo, tanto á frente como atrás, do escudo da cidade, um brasão com dois leões rampantes ladeando uma chave, com um barco na parte superior e uma coroa mural de quatro torres. Fotografava-o, quando sentiu uma presença ao seu lado. Era um velho, mais um, de pernas arqueadas e apoiado a uma bengala, envergando calças e camisa de cor negra.
   - Boa tarde, o senhor é daqui? - interrogou.
   O outro confirmou com um aceno de cabeça.
   - Para que serve este prédio? Já morou aqui alguém?
   - Mora - retificou o ancião; encheu o peito de ar e prosseguiu - os ausentes...




jardim

   - Já há bastante tempo que não te via por aqui! Já devias andar com saudades…
   Ela sorriu, um sorriso que mal merecia essa descrição, sumido, triste, de lonjuras. Passou a mão trémula pelos cabelos escuros e segurou no copo de cerveja que estava pousado no tampo do balcão.
   - Eu não tenho saudades de nada nem de ninguém. O meu coração é uma pedra de gelo!
   - Não acredito. És tão bela, e irradias sedução. Acredito, isso sim, que tu, como todos, precisas de te protegeres, de resguardar o coração por trás de muros e fossos. Só assim conseguimos sobreviver.
   Ela anuiu, erguendo para ele os olhos verdes.
   - Estou de acordo contigo. Pessoa tinha um verso em que dizia que o coração era um jardim no meio dum círculo de ervas daninhas. É realmente assim que temos de viver.
   - E onde estou eu? No jardim, ou nas ervas daninhas?
   A mão dele aflorara a coxa sob a mini-saia. Sentiu-se excitado com o calor da sua pele.
   - Um pouco menos longe do que quando começaste a falar – reconhece ela.
   - Então vamos lá para cima, para um dos quartos. Estou com dinheiro e prometo que, desta vez, não te magoo…muito…

A guardiã

   A casa da anciã era enorme, um casarão austero da década de trinta, mas o seu aspeto não repugnava a quem passava na rua, porque parecia irradiar uma luz própria, fosse da refração da luz solar nos tanques de mármore azulado com plantas aquáticas, ou da paleta generosa das flores que medravam nos seus jardins – hibiscos, rosas, gazânias, pelargónios, agapantos, e tantas outras.
   Ainda assim, apesar de não sentirem receio ou repulsa pela anciã ou pela casa, era com muita timidez e dúvidas que as pessoas chegavam á sua porta, depois de tocarem o pequeno sino no portão de ferro junto á estrada. A anciã atendia-as e fazia-as entrar para o vestíbulo. Não lhes perguntava nada porque sabia ao que vinham. Todas vinham ter com ela para lhe pedir que lhes guardasse um segredo. Era esse, desde sempre, o seu ofício e a sua paixão. Entregavam á velha mulher um segredo, e ela encafuava-o numa das muitas divisões do casarão. Por vezes, era um segredo pequeno, toscamente embrulhado numa folha de papel pardo ou num lenço de cabelo, outras vezes, era maior e, envolto numa manta ou toalha, selado com cordas ou correntes de elos e, frequentemente, tão pesado que ela pedia a quem lho trazia para a ajudar a carregá-lo pelo meandro de corredores e escadas.
   Havia segredos sem importância que algumas pessoas tolas lhes traziam com frequência e em grande número, para os resgatarem de seguida enquanto lhe traziam mais segredos novos e fresquinhos; mas também segredos recônditos, como um esqueleto no fundo duma gruta, cujos proprietários os confiavam a desviar o olhar e procurando que ela não lhes fixasse as feições. Havia pequenos segredos que pesavam imenso, obrigando os seus donos a caminhar acorcovados como velhinhos; outros, ao contrário, e independentemente do seu tamanho ou forma, eram tão leves que quase se sustentavam sozinhos no ar. A dona da casa sabia sempre que segredo pertencia a quem, e em que lugar o deixava. Por vezes, o segredo guardado ficava pouco tempo consigo, e a pessoa que o confiava vinha buscá-lo em poucas semanas ou meses. Outros, levavam alguns anos, até que esse segredo fosse descoberto de outras formas, tornando inútil mantê-lo guardado ali. Mas também havia segredos que haviam sido depositados naquela casa nos seus tempos de juventude e ali permaneciam; devido á morte dos seus donos, ou porque o mundo em que eles viviam implodiria se esses segredos conhecessem a luz do dia. Mas a anciã sabia que todo o segredo era como uma semente escondida na terra e que, a qualquer momento, podia encontrar as condições para germinar e ascender á superfície, dando origem a uma planta que poderia dar frutos doces, acres ou tóxicos.
   Tal como os mortos.


Às portas de Tebas

Sentia-se saturado da vida de todos e da sua própria vida de todos os dias e todos os lugares, não suportava a rotina, os mecanismos e repetições que desempenhava no trabalho, em casa, ou quando estava um pouco com os amigos.
Fugiu, então.
Conduziu o seu carro para longe, desfiando estradas até se acabar a gasolina.
Prosseguiu a pé, enquanto não lhe doeram os pés.
Quando já não conseguia andar, teimou em continuar, a gatinhar como um bebé. E foi assim que chegou á porta da casa da mãe.
Mas não pôde entrar. Na porta, o anúncio da agência funerária com a fotografia dela revelava-lhe que tal já não era possível.




ilusão

As pessoas olham e vêem-me, acenam, cumprimentam, permutam comigo saudações e banalidades ocas.
Mas eu não acredito nelas.
Não acredito na menina da bilheteira, no revisor do comboio, no porteiro do prédio, na telefonista do escritório, no velho de patilhas do quiosque de jornais que gosta de evocar o tempo em que matava turras em África. Nesses e em tantos outros. Gente da rua, da  Lua, do trabalho, da casa em que moro com a família, das divisões de casas e prédios em que pareço estar unido a estranhos por rotinas oblíquas e liames inconsistentes.
Não acredito nelas quando fingem que me vêem.
Eu sei que mentem, por condescendência. E conivência.
Fingem que eu estou ali, como fingem que viram uma coisa qualquer na televisão de que toda a gente fala, ou que ouviram aquele estampido do disparo quando o vizinho do quinto andar estoirou com os miolos.
Tenho a certeza absoluta de que mentem. Dispo a minha gabardina de Homem Invisível, e permaneço ao seu lado, no meio deles, a rir como um louco da sua cegueira e da sua hipocrisia.


Sereia

Jangada

Chuva

...

(des) arrazoado

Os universos paralelos tocam-se amiúde, acariciam-se, trocam coisas, beijos, objetos, emoções, lugares e visões.

Deve existir um universo paralelo com um planeta como o nosso onde os habitantes sejam apenas mulheres, leves como o ar, que se passeiam sobre as nuvens com mantos brilhantes, as mesmas que inspiraram as visões de Atena, Pachamamma, e da Nossa Senhora.

Noutro, só há animais híbridos e bizarros, que aparecem ao artista que compõe a sua iluminura, ou ao escultor de gárgulas. Diz-se que Bosch, o holandês, conseguira estar junto de alguns desses animais, e que possuía na cara um lanho provocado pela unha dum grifo.

Muitas vezes, alcança-se um outro universo ao cruzar um pórtico transdimensional ou ao subir uma escada sem fim que surge suspensa dum buraco nos céus ou, por fim, por formas mais comuns, como a vulva. É tido como certo que a vulva pode transportar um homem a um universo distinto.

A teoria dos universos paralelos pode também explicar a existência dos alegados sósias, duplicados ou almas-gémeas; uma pessoa como nós que vive num universo semelhante ao nosso, mas diferente e semelhante por serem um negativo nosso – de nós e do nosso universo - um gémeo especular simétrico. Isso dá-me que pensar. Não sei se o meu sósia vive e trabalha enquanto eu durmo, mas estou certo de que ele tem tudo o que me falta deste lado: as riquezas, a felicidade e a paz. Cabrão do sósia!

I.I.

Hambrelín ou a Tabuada das Ratazanas, no Infinitamente Improvável


Primeira história com moral

   Um homem, que aqui nomearemos por João, está no elétrico, em pé, apoiado às costas dum banco. Junto a si, um casal discute, furiosamente, ou com mais rigor se dirá que ele grita com ela, e ela respondia com palavras sem nexo como se elas pudessem amainar a fúria do seu companheiro proceloso.
    João sabe que não tem que ver com o assunto, ninguém tem, mas, por capricho ou destino, ele e o casal saem na mesma paragem - e quando saem os três, o jovem vira-se para ela e aperta-lhe o braço com uma mão enquanto que com a outra lhe bate na nuca com vontade e força.
   João sai da sua zona de conforto, do seu perímetro de segurança, para uma coisa estúpida: dizer ao tipo que não havia necessidade de bater daquela forma. O que se seguiu foi tão rápido como um piscar de olhos, o homem estica o braço para ele, e João nota que ele tem uma navalha na mão, apenas algumas frações de segundos antes dessa navalha o esventrar dos rins ao plexo solar. Cai por terra, e assiste, estupidificado, ao modo como as suas vísceras saem de sí como imundícies dum saco de lixo rasgado.

   Moral da história: para morrer, que se morra desta forma, por alguma coisa que valha realmente a pena!

A espera

    Ana esperava. Esperava apenas. Sentada num banco de ripas junto á paragem do autocarro, com a pasta de executivo aos pés e o iPod esquecido no regaço. Tinha os lábios num fio, e grossas olheiras em redor dos olhos, marcas do cansaço daquele dia e de todos os dias. Mas permaneceu quieta e indiferente ao ruído e ao fumo dos carros, às vozes e grunhidos dos transeuntes, ao olhar perscrutador dos motoristas dos autocarros que paravam junto a ela. Esperou horas. Ao anoitecer, quando os pombos se aconchegavam nos beirais e se ouvia fechar os estores das janelas dos prédios, chegou finalmente o unicórnio. Desceu a rua, com os cascos a golpear o alcatrão, e parou perto de si a dessedentar-se num pequeno charco que se formara junto ao lancil do passeio. Ela levantou-se, com movimentos lentos, para não o assustar, e aproximou-se até conseguir afagar a sua crina prateada e húmida. O unicórnio levantou a cabeça e fitou nela os olhos muito negros, durante longos momentos. Em seguida, sacudiu levemente a cabeça, e continuou a descer a rua. Depois de o ver desaparecer, ela foi consultar o horário dos autocarros. Agora, já se podia ir embora.


Um caso

O patinho feio

Um rapaz

     O rapaz era forte e tímido como um pugilista acanhado. Fixava-a pelo canto do olho quando entrava na loja, falava para ela de olhos baixos, uma voz abafada e longínqua solta num tremor da garganta e uns olhos que deveriam brilhar, tanta era a emoção que ela detetava nos seus gestos descoordenados. A ela, enternecia-lhe a paixão ou o carinho que aquele rapaz deveria nutrir por ela; e pensava nele como um “rapaz” porque uns bons dez anos separavam a idade de ambos, ainda que ele já fosse adulto, e tivesse o seu carrito, e fumasse tanto que os dedos da mão já haviam adquirido aquela tonalidade amarelada tão caraterística. Foi pois, sem surpresas, que ela descobriu no saco de mercearias da loja uma delicada margarida, um sinal simbólico inequívoco deixado por ele. Na vez seguinte que teve de ir á loja, ela bem notou o seu nervosismo, e os gestos tensos de quem espera que um raio caia em cima da sua cabeça. Mas ela não se desmanchou e, quando recebeu o troco das mãos dele, afagou-lhe discretamente as costas da mão, fazendo-o corar. No outro dia, ela trazia no bolso do casaco uma margarida como aquela que ele lhe tinha oferecido, e ele mostrou-se radiante e airoso, borboleteando pela loja como o mais feliz dos mortais. Tal como ela esperava, nesse dia, no meio das compras, tinha um bilhete dele, em letra irregular, embora legível, a marcar um encontro no miradouro da vila, para a tarde seguinte. O miradouro era um terraço calcário a meia encosta, onde existia um estacionamento junto a uma capela em ruínas, e era tão isolado e tão longe de qualquer casa, que se tornava no lugar ideal para quem desejava planear um encontro amoroso, ou estar no mel com a namorada.
     Na tarde seguinte, ela preparou-se para ir ao encontro do rapaz no miradouro. Tomou banho, perfumou-se, e vestiu uma t’shirt e umas calças negras muito justas. Enquanto se maquilhava ao espelho, notou como tinha fome, uma sensação álgida nas paredes do estômago. Mas perseverou, dizendo para consigo: “Mais um pouco, e estou no miradouro!”.

Portugal 2

Portugal 1

amigos

- Tenho medo de morrer sozinho - disse num fio de voz, deitado na cama de Hospital - nunca soube fazer amigos, estimá-los, transmitir-lhes o quanto gosto das outras pessoas e de como a sua presença me traz alegria e prazer. Vivi toda a vida dentro duma redoma, entretido com a minha imaginação, e isolando-me das pessoas de carne e osso; a tal ponto que, se tenho família, não sei onde ela pára, ou se saberão de mim e dos meus dissabores.
- Nada temas, porque não estarás sozinho quando o teu corpo descer á terra.
- Quem mo garante? Olha para ti, estás á cabeceira da minha cama, mas há quanto tempo não te via nem falava contigo? Percebes o que eu quero dizer?
- Sei dos teus receios, mas eles são infundados. Eu estive sempre por perto, ainda que não me conseguisses ver. Eu e os teus outros amigos imaginários. Criaste-nos desde a infãncia e povoaste connosco a tua solidão e a tua erma rotina, e nós estaremos contigo até ao fim, e depois disso. Estaremos por perto enquanto respirares, e far-te-emos companhia no velório e no funeral, estaremos lá, uma multidão de gente, em pé por entre as campas ou sentados no muro caiado do cemitério.
- Juras que estarás lá?
- Alguma vez precisei de juar alguma coisa quando me convocavas para brincar aos caubóis ou para correr na lezíria?

crueza

A vida é crua. Não quero isso dizer que ela careça de cozedura, tempero, preparação. É apenas crua, desnuda, punge ao olhar e à sensibilidade. A parteira que te dá um açoite para não atrasares o pranto, a fome que se insinua no teu ventre para que saibas que não és um deus, a mão pesada dum pai ou dum professor, os dramas ocultados por quem se aproveita de ti, e destrói a tua paz como se pisasse uma beata no chão. A vida é crua, mais vale perceberes isso. Não há super-heróis, santos, deuses ou anjos que suspendam a pancada, o golpe, a dor profunda. Não te queixes então, do destino ou da injustiça da vida. Já sabias que a vida era assim antes de destapares o esgoto do teu azedume, e tirares a vida a outra pessoa, que diante do teu ato se sentiu tão desguarnecida e oprimida como tu próprio sempre te sentiste.

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...