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A mostrar mensagens de 2013

Conto matalício 1

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Almoço de Natal da firma, presentes da corporação e comida a expensas dela. Sára está radiante, as faces afogueadas pelo vinho, estava capaz de beijar meio mundo, ou enrolar-se com a outra metade. Ao seu lado, o ex-marido, pálido e escalavrado, com cara de funeral. Pousa a sua mão sobre a dele, e arrisca. - Diz-me, Álvaro, já tens alguém na tua vida? Ele hesita, mede as palavras. - Tenho a Myra, a caniche que tu já conheceste, e… - E? - Peggy, a porquinha, e Linda, a esquilo-fêmea que me ofereceste. Há umas semanas, juntei ao clâ uma cabrinha de pêlo acastanhado, a que dei o nome de Heidi. - Sim, mas não tens nenhuma mulher na tua vida, pois não? Álvaro negou num ronco, e só depois lhe bateu o sentido das perguntas, o olhar meloso de Sára, o ritmo cadenciado com que acariciava o seu punho. - Mas não estou preparado para iniciar uma relação, ou reatá-la, como seria o caso – foi avisando. - Mas porquê, Álvaro? - Porque criar animais e ter sexo com eles exige tempo e dedicação!

Conto a duas mãos

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O dia de Natal amanheceu gelado mas o sol inundava o céu. Uma estrela brilhante teimava em permanecer no céu, ao lado do sol, apesar do dia. As pessoas olhavam para a estrela e sorriam. Era a estrela de Natal que naquele ano 2013 teimava em aparecer. Astrónomos amadores tentavam em vão explicar o fenómeno e não descortinavam planeta ou estrela que pudesse explicar o caso. Na TV os astrónomos profissionais desfiavam hipóteses mas ninguém sabia explicar a estrela.                 Maria caminhava lentamente pela planície alentejana, indiferente a tudo. Chorava o seu filho perdido. Engravidara de José e tinha perdido o filho. José seguia no seu encalço e temia a loucura da mulher. O seu silêncio assustava-o. Maria não estugava o passo, e ia colhendo algumas flores bravias com uma ligeira inclinação do seu torso e, em breve, estavam de novo junto á casa. Térrea, modesta, paredes caiadas, com um pequeno estábulo ao lado, onde ainda conservavam uma vaca leiteira, e um velho …

O homem dos sete instrumentos

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Adojan, é músico.
   Para começar, Adojan é húngaro, e a música corre docemente nas veias dos húngaros.Depois, Adojan é capaz de tocar sete instrumentos ao mesmo tempo, e todos de forma coordenada e melodiosa.
   Adojan prefere temas movimentados, com ritmo e batida, porque são úteis para os instrumentos de percussão que tanto ama. Mas também toca qualquer tema de ouvido, basta pedirem-lhe e pagarem por isso.
   Mas agora, Adojan já não tem tanta certeza de ser um músico que mereça esse nome (apesar de ser húngaro e conseguir tocar muitos instrumentos diferentes).
   É que a filha pequena, vendo-o na sala a afinar e a polir os instrumentos musicais, perguntou-lhe (Ai, as perguntas das crianças!) se ele era capaz de tocar uma música só com apenas um dos instrumentos, uma música inteira, do princípio ao fim.
   Adojan sorriu alegremente, antes desse sorriso esfumar-se da sua cara com a verdade.
   NÃO ERA CAPAZ!
   Não conseguia!
   Adojan abraçou a sua filha e pediu-lhe desculpas.

Crítica

O crítico literário, pago pelas grandes editoras, escrevia deliciosos encómios por encomenda. Era tudo menos um crítico.
— José Eduardo Lopes (@nanonarrativas) September 7, 2013

Insónia

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Sofria de insónias.
Ao fim de dois dias, a pele em volta dos olhos ficava de uma tonalidade estranha entre o roxo e o carmesim.
Ao fim de sete dias sem conseguir dormir, o círculo escuro em volta dos olhos parecia um aro de obsidiana.
Ao fim de duas semanas, o círculo afundava-se em volta dos olhos, cada vez mais para dentro, e os olhos pareciam suspensos na ponta de dois picos transversais.
Ao fim de um mês, esse fosso circular em volta dos olhos atingia a nuca, e podia sentir finalmente a brisa a refrescar-lhe as circunvoluções dos miolos.
Ao fim de um mês e um dia, a maior parte dos miolos já se havia evadido por aí, e já não pensava nem se preocupava tanto. E então o sonho vinha, como a água de um rio dócil que preenche a cratera funda e fumegante dum meteoro e espalha-se por ela, ocultando os gumes e as arestas da vigília obsessiva.
Adormece, profundamente, os olhos fecham-se, os círculos saram, os miolos reconstituem-se. E depois, começa tudo outra vez, porque acorda alarmada c…

Um diálogo

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- Hoje, decidi contar-te uma história como se fosse assim como um diálogo, uma conversa entre duas pessoas. Parece-te bem?                -  …                - Pois aqui vai! A sete anos do momento em que inicio a narrativa, mais precisamente, ás catorze horas e cinco minutos (foi de cesariana, por isso a rapidez da sua expulsão para o mundo) dum dia vinte e dois de Abril, nasceu o nosso personagem ou, digamos, herói, ainda que não me pareça que ele vá ser herói de alguma coisa. Pois esse recém-nascido, que estava destinado a suceder ao seu pai e a reinar por direito na Baixa Panónia, decidiu que não queria reinar mal soube o que isso significava. Reinar, era a coisa pior e mais repugnante que conseguia imaginar. E então decidiu nascer outra vez, muniu-se de uma navalha afiada (acho que não deveriam deixar um arma como essa ao alcance de uma criança de cinco anos) e cortou de alto a baixo todos os cenários do seu mundo, o palácio com os seus jardins, o pavilhão de caça…

Verão Quente

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Em Moçambique, no ano de 1975, no tempo quente, deixara de se ouvir tiroteios de turras e tropas perto das casas do bairro; e para um adolescente como o Luís, havia a imensidão promissora das férias e dos amigos, as coboiadas, os bailes de garagem e as matinés no cinema Kudeca ao ar livre, junto ao rio Zambeze. Ah, e havia a Mimi! Todos a chamavam assim, porque fora batizada como Hermengarda, nome inspirado talvez e de forma infeliz pela heroína de Eurico, o Presbítero. Encontrava muitas vezes a Mimi nos bailes de garagem, mas nunca arranjara coragem para a convidar para dançar, ainda que o seu coração batesse como um metrónomo quando a admirava de longe, embalado por alguma música de Nelson Ned ou Nilton César. Mimi era sardenta e ruiva, tinha um sorriso lindo, e gostava de usar blusas brancas e saia curta de cor anil. Mimi flertava, ao que parecia, com o irmão do Luís, mas uma noite, no cinema, com ela sentada na cadeira do lado e empurrado pelas hormonas ou pela parvoeira natur…

O sopro

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- Não guardes tudo dentro de ti, atira cá para fora, desabafa, sopra!
(Aconselhava a visita ao seu lado, uma velha senhora, sentada na beira da cama do hospital. Mas ela resistiu. Já não sabia como fazê-lo).
- A dor e a angústia fazem ninho em nós, enrolam-se dentro do nosso peito e não nos deixam respirar! Sentes o aperto? São os nós não-desatados das palavras, tudo o que podias e devias ter deitado cá para fora e guardaste, só para te sufocar.
(Hesitou. Agora, aquilo fazia sentido e parecia-lhe acertado. Reuniu todas as réstias de força em si e soprou, com muita força).
(Foi o seu úl-ti-mo sopro).

(A visita retirou-se então, leve como um suspiro).

BD

O desenhador improvável vivia desenhando balões de conversa no ar, entre as pessoas. Mas eles continuavam cheios de silêncios.
— José Eduardo Lopes (@nanonarrativas) August 30, 2013

Sem sentidos

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A primeira coisa insólita que os seus sentidos capturaram nesse fim de tarde abrasador, foi o cheiro intenso do almíscar a encher-lhe as narinas, libertado, ao que parecia, pelo petróleo que corria na calha para o tanque-reservatório da refinaria. Aproximou a ponta dos seus dedos e tocou ao de leve no líquido escuro, mas sentiu-se desiludido, era apenas petróleo, espesso e viscoso como qualquer petróleo. Em seguida, o que foi consentido aos seus sentidos, foi admirar as flores que corriam à superfície do líquido, solitárias ou atadas em colares, como aquelas que já admirara mais a norte, nas festividades do Ganges. Sacudiu a cabeça, a tentar dissipar os efeitos do calor e do Sol, e procurou sair rapidamente dali, mas as vozes que o chamavam do interior do tanque – Shiva? Kali? -  ataram-no àquele lugar como uma corda de muitas voltas.

Rito

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(desenho de Eduardo Salavisa, retirado do seu blogue, o excelente Diário Gráfico)
   Apanhou a mulher na estação de comboios no caminho de regresso a casa. Ainda ela não tinha aberto a porta do carro e já estava a resmungar, ou a narrar com resmungos como fora o seu dia - o trabalho, as chatices, os miúdos que não se calam na sala de aula, a conversa fiada da diretora, os cheiros do comboio, as notícias, a antipatia de todos. Narrava tudo com os inúmeros recursos e subtilezas da sua vitimice extremada. Ele ouvia, parcialmente, e concordava, tentando prestar atenção á estrada. O trajeto até casa durava perto de três quartos de hora, quase tanto tempo como o monólogo da esposa.    Chegou a casa e arrumou o carro, e com a mulher segura ao seu braço e ainda, e sempre, a falar, abriu a porta de casa e entraram. A mulher correu a refugiar-se no wc. do quarto para se mimar com um banho retemperador, e ele ficou plantado no vestíbulo. Com as chaves de casa presas na transpirada palma da mão,…
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Um Decálogo (de nove) sobre o estudo de mistérios: (Um apontamento)
               Introdução:                Os mistérios (da história, da ciência, e outros) prosperam porque são uma forma diluída de religiosidade, com as mesmas virtudes e vícios de qualquer forma de religiosidade: a preferência por certezas espontâneas e iluminadas que nos inundam a mente de neurotransmissores com efeitos agradáveis e recompensadores; a verdade como caraterística restrita a um grupo ou comunidade, concordância cega, negação da crítica, clivagem e maniqueísmo (eu, nós, sabemos a verdade, os outros nadam em erro e possuem dois cornichos na testa e uma língua bifurcada), substituição do debate pela certeza alojada nos nós dos dedos, etc.                Em virtude disto, e como um curioso que já viu e leu muita coisa nestes domínios, alinhei as notas que se seguem, tiradas de uma pauta muito caótica.
1 – Uma pessoa pode interrogar-se ou interessar-se por um mistério sem ser um historiador, um cientista…
Porque é que juntamos as mãos quando oramos? Porque, antes de estarem unidas diante de nós, elas varreram o mundo sem encontrar Deus!
— José Eduardo Lopes (@nanonarrativas) August 24, 2013

O que poderíamos fazer com três milhões de nadas?

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Caminhar na Lua, atravessar portas no ar, abraçar alguma nuvem mais jovem e dócil, dizer o indizível, escrever o verso impossível, atar palavras ao cais da memória com correntes de ar, navegar entre o ontem e a eternidade numa casca de nós, profetizar o que já sucedeu com um riso sem siso, e convidar o amor para a nossa casa e fazer-lhe a Kama.    Com três milhões de nadas,    é seguro,     que continuaríamos a sonhar.

ABCDário - T de Tenebrário

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Do outro lado do mundo havia luz, muita luz, com o Sol a derramar-se pelo espaço como uma lagoa de lava a escorrer em espiral para uma cova próxima; mas ali, só a face da Lua brilhava a intervalos breves como se alumiada por explosões prateadas. No solo, tudo estava ás escuras, apagado, as luzes elétricas, os pirilampos e os peixes das profundezas, e o brilho dos olhos no rosto das pessoas mortas. Na igreja posta a céu aberto pela tremura da Terra, o Tenebrário ainda manteve as velas acesas por algum tempo naquela noite de Sexta-Feira Santa, antes de se apagar como o mundo enquanto o planeta, com as suas montanhas e os seus sonhos, deslizava com a Lua para o Buraco Negro que se abria junto a si como uma porta de trevas.

Mar-morto

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Dez horas da manhã (de uma manhã enevoada de Quarta-Feira). Hora de abrir o expediente, de bulir, de picar o cartão. As lojas, escritórios e repartições abrem as portas, algum empregado mais tarimbado aspira com força o resto do fumo do seu cigarro antes de entrar. Uma jovem muito maquilhada varre a entrada de uma butique; mais abaixo, a dona de um quiosque pagina os jornais do dia alinhados no expositor.    Décio Júnio aguarda ainda uns momentos. Não gosta de entrar numa loja enquanto a caixeira ainda arruma os dinheiros na caixa ou os marçanos dão um toque nos artigos expostos e abrem os estores de fitas. Por fim, tira o boné cinza e entra na loja de alfaias agrícolas com humildade e receio. Abana a cabeça perante o olhar inquiridor dum marçano, e num relance, encontra quem procura, uma caixeira que folheia umas guias de remessa no cubículo de pagamento. Reconheceria aquele rosto em qualquer lugar, apesar dos anos que haviam escorrido como areia desde a última vez que o vira. Ap…

O curso

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Encontrava-se de férias. Pôs de parte a preguiça, as cervejas entesouradas no frio, as sornas na praia ou na cama de rede de jardim, e decidiu fazer algo de útil e proveitoso com as férias, servir-se delas para se tornar uma pessoa melhor e mais rica. Como era um pouco avesso a leituras, optou por tirar um curso de línguas. Contatou uma empresa de ensino de línguas cujo anúncio comercial online estava sempre a pop-upar no seu site favorito de pornografia, e subscreveu um Curso Completo de Silêncio, que compreendia sete DVDs com aulas, e um CD-ROM interativo para conversar com o professor. Quando finalizasse o curso, e com vista a obter o diploma, teria de prestar uma prova escrita, acrescida de um exame oral através do sistema de videoconferência.    Entusiasmado, embrenhou-se com uma vontade enérgica no bosque intricado de vocábulos e verbos do Curso de Silêncio. Quanto mais estudava e repetia as palavras, mais à-vontade se sentia com a língua, e as dificuldades só aumentaram qua…

Paciência

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(Imagem: Shannon Marie)
   É preciso paciência. Para carregar com tudo o que os outros veem em nós, o que está fortuitamente próximo da verdade e o que é uma fraude ignóbil que os outros segregaram rebuçada em pus, tolerada por nós como se fosse algum bálsamo.     É preciso paciência, para defender a paz que nos roubam, os sonhos saqueados, a nossa vontade espezinhada.     É preciso paciência para viver, dia após dia, a merda de vida que nos consentiram – minguada, violada, estropiada e escarnecida.     E esperam de nós que sejamos pacientes, que saibamos esperar pelo que nunca virá, e que valorizemos e veneremos a sacrossanta paciência.     Porque esperam das ruínas, que saibam envelhecer com graça.
   Cuspo nisso!

ABCDário - U de Unívoco

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Rosmaninhal, foi sempre uma aldeia pequena, um núcleo de casas de granito e tijolo, emberçado no fundo dum vale entre encostas com choupos, hortas e cercados. Um quinto das casas ainda é ocupada, e as restantes estão abandonadas, porque os donos partiram em busca do sonho distante e traiçoeiro. Em Rosmaninhal, o futuro não é animador e vive-se devagar. Pelo correr das coisas, pareceria que a aldeia continuaria a despovoar-se até não restar ninguém nas casas de granito. Mas tudo começou a mudar quando chegou á aldeia um homem que era órfão, não tinha pai nem mãe, e pediu ás pessoas se podia ocupar uma das casas devolutas da aldeia. As pessoas concordaram, satisfeitas por haver uma cara nova na terra. Depois desse, vieram outros, homens e mulheres, todos órfãos de pai e mãe. Via-se que vinham a convite ou incitamento do primeiro órfão que lá chegara. Os habitantes de Rosmaninhal receberam-nos bem, cederam-lhes as casas desabitadas, trabalharam para tornar essas casas habitáveis, e o…

Aviso á navegação

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- O que somos nós? – perguntava o Jovem com Aspirações Políticas ao Político Experiente Inspirado.    - Nós – e respirou fundo para intercalar a pausa significativa que os mestres usam antes de cada ensinamento basilar – nós somos Republicanos Darwinistas.    - E o que é isso? – voltou á carga o jovem, receando perder alguma migalha, algum fio solto de sabedoria.    - Acreditamos no valor da República tanto quanto acreditamos na verdade darwinista do domínio do mais forte e da sua preponderância na seleção natural, das espécies e dos indivíduos dentro de cada espécie. Isso conduziu-nos a enriquecer os três direitos fundamentais da Revolução Francesa, que são…?    - A Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade.    - Muito bem! Mas esse lema, visto duma perspetiva mais atual e ponderada, leva-nos ao seguinte: Liberdade, para espoliar os mais fracos, aqueles que perderam na batalha da sobrevivência e que são, garantidamente, os menos aptos para conduzir, governar ou decidir. Igualdade, …

A razão dos sem-razão

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(Arte de Gustavo Costa)

- Hoje é Dia da Liberdade! - afirmou o pobre, de cócoras no jardim do sanatório.
- Dia da Liberdade? - estranhou o enfermeiro - costuma ser em Abril, mas tu lá sabes, Toninho. E agora, o que é que fazemos no Dia da Liberdade?
- Temos de a encontrar! - retrucou ele, a  esgravatar na terra com as mãos nuas.


Juras de amor

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- Vou amar-te até ao fim dos meus dias, até ao último sopro de vida dentro de mim! - jurou
- Ãhn!...Eu também, decerto...
- Mas não te ouvi dizê-lo, aliás, não tenho muita certeza disso, eu bem vi como olhavas para o rabo da hospedeira. Se calhar, nunca me amaste e não é agora que vais começar, logo agora, que o nosso avião mergulha a pique e temos poucos segundos de vida.
- Amor! - defendeu-se ela - como é que preferes acabar a tua vida, acreditando que te amo, ou consumido por dúvidas inúteis?

férias

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- Quero férias! – reclamava o velho Tibório, de braços cruzados a esfregar os cotovelos, como se o clamor dos seus ossos reforçasse a sua causa – ando muito cansado e cheio de dores nos ossos, tenho direito ás férias e preciso de as ter… - adiantou, pausando as palavras para ser bem entendido.    O autarca encolheu os ombros.    - Ó Tibório… não poderia pensar melhor no assunto? Estamos em Agosto, e eu não tenho mais ninguém. Você sabe como as coisas são, com o calor e tudo o mais…    Mas Tibório mostrou-se inflexível e lá teve as férias. Ansiadas e merecidas. Gozou-as em pleno, os filhos que tinham vindo de férias de França enchiam a sua casa e fez tudo com eles, foi aos arraiais e ás touradas, percorreu todas as capelinhas das adegas dos amigos, torrou deitado na areia da praia enquanto adultos e pirralhos riam ou se agitavam á sua volta, enfumarou-se com os churrascos e as fornadas de pão e pão com chouriço ou torresmos.
   Quando as férias terminaram, voltou ao trabalho, cient…

[Funes, El Memorioso]

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Para Funes a memória não era apenas uma faculdade ou um órgão - era um portal de passagem, uma rutura de nível.
   É assim que, a agonizar na sua velha casa, revive com infinitos detalhes a realidade outra dos seus tempos de bebé, deitado no colo da mãe no alpendre, enquanto o pai adestra um cavalo no pátio, garboso, com o seu bigode prussiano, o casaco de pele de alpaca e as botas altas de couro. Enquanto se demora nessa memória, Funes procura não isolar esses pormenores, não lhes conceder um nome ou uma descrição, que só multiplicaria o que a sua memória retém e carrega.

Sépia

Sinto uma afeição vintage pelos tons sépia da nossa leal relação de décadas.— José Eduardo Lopes (@nanonarrativas) July 31, 2013

A cadeira

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Afonso despediu-se da mulher e foi trabalhar, trabalhava nas obras e afortunadamente, numa obra a pouco mais de duzentos metros de casa, pelo que foi a pé. Saiu pelo portão pequeno da casa, espreitou a sua própria caixa de correio a ver se tinha alguma coisa – estava vazia - e começou a descer a rua, aspirando, feliz, o fumo do cigarro. Quase no fim da rua, atravessou-a para não passar junto aos contentores de lixo e evitar assim o seu fedor nesse dia quente de Julho. Mas foram esses mesmos contentores de lixo que o fizeram deter-se. Eram dois, verdes e manchados, e entre eles, estava colocada uma cadeira, da qual alguém se quisera desfazer. Era uma cadeira das antigas, com costas altas e revestimento em couro. Por baixo, entre as duas pernas dianteiras, e um pouco saído, viu que havia também ali um par de ténis, com as biqueiras viradas para ele. Afonso aproximou-se. A cadeira não parecia estar comida pelo caruncho e era muito, muito bonita. Intrigava-o como é que alguém querer…

Um rito profano

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Segunda Terça-Feira de casa mês, é dia de cortar as unhas na casa. Tiram-se sortes para definir a escala de serviço e inicia-se o ofício. Todos, mas todos, descalços e com as calças arregaçadas (caso vistam calças ou calções. Caso contrário, tira-se o vinco ao cós da saia), enfiam os pés em alguidares com água quente para amolecer; e ás mãos, mergulham-nas  em tigelas de barro que desempenham a mesma função. Em geral, os adultos colaboram com mais boa vontade e as crianças resistem instintivamente ao rito, pelo que, além de se lhes amolecer as unhas com água a escaldar, amolece-se as suas vontades com calduços e tabefes distribuídos com parcimónia. Depois de quinze minutos com os pés em banho-maria, inicia-se o corte. Os dois familiares eleitos pelas sortes cortam as unhas aos restantes, começando pelas mãos, que é um corte mais delicado que requer utensílios mais simples e efeminados, e finalizando pelos pés que exigem um hardware de dimensões invulgares. Quando os dois cortadore…

O reduto da sabedoria (uma estória em jeito de parábola social)

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(imagem daqui)
               Mog, um jovem celtibero, foi instruído pelos anciãos sobre a origem do cosmos e do homem, e um deles, Ogden, conduziu-o ao coração dos bosques, onde o deixou sem qualquer arma e com a incumbência de capturar um veado de cauda listada, o animal mágico que lhe surgira em sonhos depois de ter mastigado as folhas do teixo. Mog, supera a prova, persegue e abate o veado, retira dele as orgulhosas armações e regressa a Segobriga, o povoado fortificado onde nascera e fora criado. Sente-se feliz, por já poder ser considerado um adulto, e porque Ogden lhe prometera que o continuaria a instruir no conhecimento e nos ritos sagrados até os anciãos o considerarem apto a suceder ao seu pai na liderança da tribo.                A caminho de Segobriga, Mog entra num desfiladeiro tortuoso e enevoado que se assemelhava a um longo túnel helicoidal onde, por vezes, Mog tem a sensação de estar a pisar o chão e de estar simultaneamente suspenso sobre este. Quando sai do desfila…

Causa mortis

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A cantora soprano possuía uma voz belíssima, e essa voz guindou-a á fama, fazendo-a elevar-se neste mundo num percurso inverso ao da lira e voz de Orfeu. Também o inferno assomava ao seu mundo, mas os que a rodeavam faziam tudo para que ela o esquecesse. Chamavam-na divina e eterna. Viverás para sempre como os deuses - repetiam-lhe os admiradores e os amigos, os críticos e os leais servidores, e insistiam – as estrelas irão apagar-se primeiro do que a tua glória, e estás apenas a um passo de ser admitida no Olimpo.
  A deusa, viveu e resplandeceu como pôde, até se finar no seu apartamento em Paris. A eterna morreu de incoerência.

RT

RT@nanonarrativas Il écrivit le huitième tome de son autobiographie, et ensuite il ronronna, heureux.
— Mario Aguirre (@AguirremariO) July 28, 2013

Cem touros

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Na psique feminina é comum imaginar-se que o primeiro centauro nasceu da união dum cavalo e de uma deusa ou ninfa soberana. Na psique masculina, o cenário é quase o mesmo, mas a iniciativa e a autoria pertencem ao cavalo, másculo e dominador. Mas uns e outros não se furtam á evidência de que as éguas mitológicas são fecundadas pelo vento, e de que os centauros, filhos do vento ou do espírito, continuam a pascer tranquilamente nas planuras do nosso coração.

O carro de fuga

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O assalto foi preparado na hora pelos dois malfeitores. Mal preparado, quase espontâneo como um silvo de surpresa ou admiração. Havia duas fases no plano. Começando pelo fim, a segunda fase era chegar ao pé da Heloísa, a vendedora quarentona de frutos secos da praça; Abelardo estava apaixonado por ela, pelas suas faces coradas, pelo peito generoso e pernas gordas, e pelo baloiçar rodopiante e obsceno das suas bochechas quando mascava pastilha elástica. A primeira parte do plano, e foi aí que Abelardo pediu ajuda ao amigo Segismundo, a primeira parte, dizia, era roubar um punhado de margaridas da coroa de flores que a edilidade havia depositado aos pés da estátua da rainha D. Leonor. Abelardo roubava as flores, e entrava no carro de fuga conduzido por Segismundo, que os levaria até á praça da fruta, onde   Abelardo as entregaria a Heloísa, junto com uma improvisada declaração de amor.
   Ultimaram então os preparativos do assalto; com Abelardo a espiar a proximidade das pessoas á a…

Sem regras

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Jorge, é um rei que vive preocupado. O seu reino está em guerra e qualquer desfecho é possível; por isso preocupa-se, pelo reino e pela sua própria cabeça. Nessa manhã, o rei Jorge acorda particularmente anticlerical, e ordena que decapitem o debochado do bispo mesmo antes de tomar a primeira refeição da manhã. Quando, horas depois, dormita reclinado sobre a mesinha com o tabuleiro de xadrez, um guerreiro-pajem de rosto pintado (um espião) insinua-se nos seus aposentos e crava-lhe no coração uma adaga comprida e aguçada. A morte é imediata, e o guerreiro regozija-se com o que considera uma proeza, que o é certamente, se nos lembrarmos de que ele é apenas um peão do jogo de xadrez que se joga nos aposentos reais.

Ela

Despida de sombras, vestida de sol, a mulher nua dança e rodopia no círculo de magia da clareira do bosque,  os animais contemplam, as serpentes rendem-se, a minha alma enche-se de luz.
Onde estavas tu, sacerdotisa, na hora da minha negra morte?!

Brblt

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A doutora Anna inventou a borboleta uterina. Um engenhoso acessório de prazer que se introduz na vagina preso por um fio e que estimula o seu interior com ínfimas descargas eletromagnéticas que marcam o compasso do abrir e fechar das asas boleadas da borboleta.    A doutora Anna é uma solitária. A doutora Anna ainda não divulgou o seu invento, pelo qual sente uma crescente afeição. A borboleta uterina é a coisa mais parecida com mariposas no estômago que já pôde experimentar.

A resposta

A família, o casal e duas filhas adolescentes, chegou á cidade pequena da costa na hora fresca do entardecer. Fizeram o Check-in no hotel onde tinham reserva, e interrogaram-se sobre o que iriam fazer em seguida. A patroa queria espreitar a praia, ver se ficava muito longe do hotel, se era ventosa ou não, e se tinhas lojas ou restaurantes nas imediações. As filhas adolescentes iam com ela, mas primeiro queriam descobrir se havia algum centro comercial de jeito na cidadezinha, se tinha cinema, lojas de marca, Mac, restaurante chinês. O pai delas,e marido da respetiva, divergiu da família sem grandes protestos dos companheiros de viagem. Já o conheciam. Era mais introspetivo e reservado, e preferia perambular pela cidade com a sua Canon, descobrir ângulos, pessoas, bairros antigos e velhos monumentos.
   Assim fez, começou a partir do mar, dos bairros de pescadores de ruas estreitas e empedradas e casas pobres e simples, e foi subindo a encosta. O centro histórico era mais acima, nas…

jardim

- Já há bastante tempo que não te via por aqui! Já devias andar com saudades…    Ela sorriu, um sorriso que mal merecia essa descrição, sumido, triste, de lonjuras. Passou a mão trémula pelos cabelos escuros e segurou no copo de cerveja que estava pousado no tampo do balcão.    - Eu não tenho saudades de nada nem de ninguém. O meu coração é uma pedra de gelo!    - Não acredito. És tão bela, e irradias sedução. Acredito, isso sim, que tu, como todos, precisas de te protegeres, de resguardar o coração por trás de muros e fossos. Só assim conseguimos sobreviver.    Ela anuiu, erguendo para ele os olhos verdes.    - Estou de acordo contigo. Pessoa tinha um verso em que dizia que o coração era um jardim no meio dum círculo de ervas daninhas. É realmente assim que temos de viver.    - E onde estou eu? No jardim, ou nas ervas daninhas?    A mão dele aflorara a coxa sob a mini-saia. Sentiu-se excitado com o calor da sua pele.    - Um pouco menos longe do que quando começaste a falar – rec…

A guardiã

A casa da anciã era enorme, um casarão austero da década de trinta, mas o seu aspeto não repugnava a quem passava na rua, porque parecia irradiar uma luz própria, fosse da refração da luz solar nos tanques de mármore azulado com plantas aquáticas, ou da paleta generosa das flores que medravam nos seus jardins – hibiscos, rosas, gazânias, pelargónios, agapantos, e tantas outras.    Ainda assim, apesar de não sentirem receio ou repulsa pela anciã ou pela casa, era com muita timidez e dúvidas que as pessoas chegavam á sua porta, depois de tocarem o pequeno sino no portão de ferro junto á estrada. A anciã atendia-as e fazia-as entrar para o vestíbulo. Não lhes perguntava nada porque sabia ao que vinham. Todas vinham ter com ela para lhe pedir que lhes guardasse um segredo. Era esse, desde sempre, o seu ofício e a sua paixão. Entregavam á velha mulher um segredo, e ela encafuava-o numa das muitas divisões do casarão. Por vezes, era um segredo pequeno, toscamente embrulhado numa folha d…

Às portas de Tebas

Sentia-se saturado da vida de todos e da sua própria vida de todos os dias e todos os lugares, não suportava a rotina, os mecanismos e repetições que desempenhava no trabalho, em casa, ou quando estava um pouco com os amigos. Fugiu, então. Conduziu o seu carro para longe, desfiando estradas até se acabar a gasolina. Prosseguiu a pé, enquanto não lhe doeram os pés. Quando já não conseguia andar, teimou em continuar, a gatinhar como um bebé. E foi assim que chegou á porta da casa da mãe. Mas não pôde entrar. Na porta, o anúncio da agência funerária com a fotografia dela revelava-lhe que tal já não era possível.



ilusão

As pessoas olham e vêem-me, acenam, cumprimentam, permutam comigo saudações e banalidades ocas.
Mas eu não acredito nelas.
Não acredito na menina da bilheteira, no revisor do comboio, no porteiro do prédio, na telefonista do escritório, no velho de patilhas do quiosque de jornais que gosta de evocar o tempo em que matava turras em África. Nesses e em tantos outros. Gente da rua, da  Lua, do trabalho, da casa em que moro com a família, das divisões de casas e prédios em que pareço estar unido a estranhos por rotinas oblíquas e liames inconsistentes.
Não acredito nelas quando fingem que me vêem.
Eu sei que mentem, por condescendência. E conivência.
Fingem que eu estou ali, como fingem que viram uma coisa qualquer na televisão de que toda a gente fala, ou que ouviram aquele estampido do disparo quando o vizinho do quinto andar estoirou com os miolos.
Tenho a certeza absoluta de que mentem. Dispo a minha gabardina de Homem Invisível, e permaneço ao seu lado, no meio deles, a rir como um l…

Sereia

A Sereia do porto de Copenhaga canta em silêncio para um Ulisses de bronze— José Eduardo Lopes (@nanonarrativas) June 30, 2013

Jangada

A "Jangada de Pedra" soltou-se e baloiça num mar de dívidas e incompetência— José Eduardo Lopes (@nanonarrativas) June 30, 2013

Chuva

Nada explica a chuva. O contrabaixo de Mingus á mistura com o som da chuva. O som dos teus passos a sair pela porta da rua.— José Eduardo Lopes (@nanonarrativas) June 21, 2013

...

A VOZ DO CORAÇÃO: Aos Sábados á noite, o cardiologista gostava de subir aos palcos para mostrar os seus dotes de ventriculista.
— José Eduardo Lopes (@nanonarrativas) June 21, 2013

(des) arrazoado

Os universos paralelos tocam-se amiúde, acariciam-se, trocam coisas, beijos, objetos, emoções, lugares e visões.
Deve existir um universo paralelo com um planeta como o nosso onde os habitantes sejam apenas mulheres, leves como o ar, que se passeiam sobre as nuvens com mantos brilhantes, as mesmas que inspiraram as visões de Atena, Pachamamma, e da Nossa Senhora.
Noutro, só há animais híbridos e bizarros, que aparecem ao artista que compõe a sua iluminura, ou ao escultor de gárgulas. Diz-se que Bosch, o holandês, conseguira estar junto de alguns desses animais, e que possuía na cara um lanho provocado pela unha dum grifo.
Muitas vezes, alcança-se um outro universo ao cruzar um pórtico transdimensional ou ao subir uma escada sem fim que surge suspensa dum buraco nos céus ou, por fim, por formas mais comuns, como a vulva. É tido como certo que a vulva pode transportar um homem a um universo distinto.
A teoria dos universos paralelos pode também explicar a existência dos alegados sósias…

I.I.

Imagem
Hambrelín ou a Tabuada das Ratazanas, no Infinitamente Improvável


Primeira história com moral

Um homem, que aqui nomearemos por João, está no elétrico, em pé, apoiado às costas dum banco. Junto a si, um casal discute, furiosamente, ou com mais rigor se dirá que ele grita com ela, e ela respondia com palavras sem nexo como se elas pudessem amainar a fúria do seu companheiro proceloso.
    João sabe que não tem que ver com o assunto, ninguém tem, mas, por capricho ou destino, ele e o casal saem na mesma paragem - e quando saem os três, o jovem vira-se para ela e aperta-lhe o braço com uma mão enquanto que com a outra lhe bate na nuca com vontade e força.
   João sai da sua zona de conforto, do seu perímetro de segurança, para uma coisa estúpida: dizer ao tipo que não havia necessidade de bater daquela forma. O que se seguiu foi tão rápido como um piscar de olhos, o homem estica o braço para ele, e João nota que ele tem uma navalha na mão, apenas algumas frações de segundos antes dessa navalha o esventrar dos rins ao plexo solar. Cai por terra, e assiste, estupidificado, ao mo…

A espera

Ana esperava. Esperava apenas. Sentada num banco de ripas junto á paragem do autocarro, com a pasta de executivo aos pés e o iPod esquecido no regaço. Tinha os lábios num fio, e grossas olheiras em redor dos olhos, marcas do cansaço daquele dia e de todos os dias. Mas permaneceu quieta e indiferente ao ruído e ao fumo dos carros, às vozes e grunhidos dos transeuntes, ao olhar perscrutador dos motoristas dos autocarros que paravam junto a ela. Esperou horas. Ao anoitecer, quando os pombos se aconchegavam nos beirais e se ouvia fechar os estores das janelas dos prédios, chegou finalmente o unicórnio. Desceu a rua, com os cascos a golpear o alcatrão, e parou perto de si a dessedentar-se num pequeno charco que se formara junto ao lancil do passeio. Ela levantou-se, com movimentos lentos, para não o assustar, e aproximou-se até conseguir afagar a sua crina prateada e húmida. O unicórnio levantou a cabeça e fitou nela os olhos muito negros, durante longos momentos. Em seguida, sacudiu …

Um caso

O detetive matou-a porque desejava ter um caso com ela— José Eduardo Lopes (@nanonarrativas) June 15, 2013

O patinho feio

Ao menino, não desagradou o patinho feio, e colheu laranjas para lhe fazerem companhia no tacho da mãe— José Eduardo Lopes (@nanonarrativas) June 7, 2013

Um rapaz

O rapaz era forte e tímido como um pugilista acanhado. Fixava-a pelo canto do olho quando entrava na loja, falava para ela de olhos baixos, uma voz abafada e longínqua solta num tremor da garganta e uns olhos que deveriam brilhar, tanta era a emoção que ela detetava nos seus gestos descoordenados. A ela, enternecia-lhe a paixão ou o carinho que aquele rapaz deveria nutrir por ela; e pensava nele como um “rapaz” porque uns bons dez anos separavam a idade de ambos, ainda que ele já fosse adulto, e tivesse o seu carrito, e fumasse tanto que os dedos da mão já haviam adquirido aquela tonalidade amarelada tão caraterística. Foi pois, sem surpresas, que ela descobriu no saco de mercearias da loja uma delicada margarida, um sinal simbólico inequívoco deixado por ele. Na vez seguinte que teve de ir á loja, ela bem notou o seu nervosismo, e os gestos tensos de quem espera que um raio caia em cima da sua cabeça. Mas ela não se desmanchou e, quando recebeu o troco das mãos dele, afagou-lhe …

Portugal 2

No Dia de Portugal, três milhões de portugueses foram ao Google pesquisar sobre esse país mítico— José Eduardo Lopes (@nanonarrativas) 9 de junho de 2013

Portugal 1

No Dia de Camões, há um velho professor que vai levar uns agasalhos ao túmulo do poeta, oferecendo-lhe o que os contemporâneos lhe negaram— José Eduardo Lopes (@nanonarrativas) 9 de junho de 2013

amigos

- Tenho medo de morrer sozinho - disse num fio de voz, deitado na cama de Hospital - nunca soube fazer amigos, estimá-los, transmitir-lhes o quanto gosto das outras pessoas e de como a sua presença me traz alegria e prazer. Vivi toda a vida dentro duma redoma, entretido com a minha imaginação, e isolando-me das pessoas de carne e osso; a tal ponto que, se tenho família, não sei onde ela pára, ou se saberão de mim e dos meus dissabores.
- Nada temas, porque não estarás sozinho quando o teu corpo descer á terra.
- Quem mo garante? Olha para ti, estás á cabeceira da minha cama, mas há quanto tempo não te via nem falava contigo? Percebes o que eu quero dizer?
- Sei dos teus receios, mas eles são infundados. Eu estive sempre por perto, ainda que não me conseguisses ver. Eu e os teus outros amigos imaginários. Criaste-nos desde a infãncia e povoaste connosco a tua solidão e a tua erma rotina, e nós estaremos contigo até ao fim, e depois disso. Estaremos por perto enquanto respirares, e far-…

crueza

A vida é crua. Não quero isso dizer que ela careça de cozedura, tempero, preparação. É apenas crua, desnuda, punge ao olhar e à sensibilidade. A parteira que te dá um açoite para não atrasares o pranto, a fome que se insinua no teu ventre para que saibas que não és um deus, a mão pesada dum pai ou dum professor, os dramas ocultados por quem se aproveita de ti, e destrói a tua paz como se pisasse uma beata no chão. A vida é crua, mais vale perceberes isso. Não há super-heróis, santos, deuses ou anjos que suspendam a pancada, o golpe, a dor profunda. Não te queixes então, do destino ou da injustiça da vida. Já sabias que a vida era assim antes de destapares o esgoto do teu azedume, e tirares a vida a outra pessoa, que diante do teu ato se sentiu tão desguarnecida e oprimida como tu próprio sempre te sentiste.