Os Vinte Reis-Magos (ou Os Dezassete Disparates)

A tradição comum omite que eram vinte, e não três, os reis-magos que se puseram a caminho de Belém, seguindo uma estrela de luz caprichosa. Também omite que a dita estrela se convertia num círculo de trevas no céu durante a vigência da luz do Sol; e que iludiu os reis-magos, levando-os para destinos dispersos pelo mundo. A lista que se segue, (muito) parcialmente fundada num documento copta exumado num sepulcro em Faium ("The Twenty Wise Man", estudo interpretativo do documento por Thompson et al., Ordfordshire Press, Londres, 1962), tenta recuperar esses reis-magos esquecidos. 
   Deixando de parte os três reis-magos já consagrados pela tradição, enumera-se os restantes:


O 4º rei-mago acabou a sua viagem no sopé do Tauro, no reino das amazonas, onde a beleza dos seus corpos nus e do seio solitário no seu tronco, o fez entregar-lhes a sua virilidade em oferenda para as servir como eunuco até ao fim dos seus dias.


O 5º rei-mago pretendeu oferecer urânio ao rei dos judeus, e isso é tudo o que se sabe dele; supondo-se que ele e a sua montada tenham naufragado nas dunas onduladas do deserto, consumidos por uma inexorável morte lenta.


O 6º rei-mago aportou à ilha sagrada de Dilmun, onde matou uma cobra que o atacara. Do seu ventre, extraiu a erva da imortalidade que lhe conferiu a juventude eterna e, por isso, este rei-mago ainda aí permanece, entre poços de petróleo, escaramuças religiosas e raides aéreos.


O 7º rei-mago, não era rei, não era mago nem transportava nenhuma oferenda, mas era um mimo extraordinário que teve a pouca sorte de exibir os seus talentos diante de legionários romanos sem humor e sem imaginação, que o juntaram à força a uma comunidade de leprosos da Samaria.


O 8º rei-mago levava consigo um pequeno tesouro de pérolas do Índico, mas a estrela errante conduziu-o às margens do Nilo onde Drusila, neta de Cleópatra, sequestrou as pérolas na convicção de que elas a ajudariam a manter-se jovem. O 8º rei-mago, por orgulho, negou-se a continuar a viagem sem as suas oferendas, mesmo depois de Drusila morrer com a ingestão das pérolas e dele ter sido morto por lapidação pelos seus súbditos.


O 9º rei-mago rumou ao norte onde o brilho da estrela se fundiu no de uma aurora boreal, fazendo-o inquirir pelo salvador do mundo entre os bem-aventurados hiperbóreos, que não precisavam ser salvos (os hiperbóreos, confundidos pelas suas perguntas, julgaram que Apolo regressaria mais cedo naquele ano).


O 10º rei-mago, oriundo duma família de mercadores, pôs-se a caminho com uma carga de maçãs, que trocou por um punhado de amostras de mineral de adamite, que trocou por um cesto de serpentes venenosas amestradas, que o mataram.


O 11º rei-mago partiu da Trinácria com um sino ao pescoço, mas foi enganado pela feiticeira Circe, que o transformou numa vaca. Chegou de facto a um certo estábulo em Belém de Judá, ainda que ninguém lhe faça justiça.


O 12º rei-mago, que reuniu para a oferenda um pequeno tesouro em minerais de Galena, descobriu na viagem as atrocidades que a doença e a guerra infligiam às pessoas, e decidiu renunciar á sua viagem para se cultivar nas artes médicas e assim poder ajudar o próximo.


O 13º rei-mago tomou a Rota da Seda até ao reino do Catai, e conheceu e inventariou algumas das cidades invisíveis que ressurgiriam séculos mais tarde sob a forma de miragens sobre o mar do Adriático. Correu mundo e a sua sabedoria era tão prodigiosa que um Arcanjo Administrativo o incumbiu de corrigir os textos dos primeiros evangelistas e de lhes dar as primeiras noções sobre a publicação de obras.
   Nota: Os textos originais dos evangelistas aludiam profusamente à faina da pesca e ao nome de peixes.
   Exemplo: Herodes era feio como um congro, Pilatos era escorregadio como uma moreia, Cristo ganhara três seguidores nas suas redes iscadas…


O 14º rei-mago, transportava um pequeno cofre cheio de flores fragrantes, e a dança da estrela nos céus levou-o até Lutécia, nas margens do Sena; onde o mau cheiro dos celtas a tresandar a carneiro e dos aluviões do rio, o convenceram a tornar-se perfumista.


O 15º rei-mago escolheu como sua oferenda para o rei dos judeus, um fragmento coruscante de estrela que caíra no monte Ararat. O 15º rei-mago acertou com o caminho, mas chegou depois de tudo e de todos porque teve de ir a pé, uma vez que nenhuma montada ou animal de carga se aproximava dele, atemorizados que ficavam pelas vozes que saíam do fragmento da estrela.


O 16º rei-mago, um pobre observador de estrelas, organizou espetáculos de magia para suportar os custos da viagem. Soltava-se de correntes enquanto estava mergulhado num tanque de água, tirava coelhos de dentro de turbantes, e era cortado ao meio por um assistente. O assistente que arranjou foi o mais barato que conseguiu encontrar, e a sua inexperiência notou-se no número que serrou o espetáculo.


O 17º rei-mago partiu da Pérsia com todo o seu séquito: a rainha, os cavalos, bispos, torres, peões, xeques e roques (e respetivas famílias). Com uma comitiva tão volumosa, chegou à Terra Santa por alturas da crucificação.


O 18º rei-mago ignorou os sinais no céu noturno e não chegou a sair do seu palácio, tão gordo e anafado se tornara ao longo dos anos. Arranjou um palco no palácio com uma tocha alta que representava a estrela, e ordenou a diligentes bonecreiros para representarem a sua viagem épica e o seu encontro com o rei dos judeus, enquanto comia ainda mais, sofregamente, com medo que sobrasse comida no mundo depois de chegar a sua hora de morrer.


O 19º rei-mago viu a sua estrela deter-se sobre o santuário de Delfos. Juntou-se a outros peregrinos e ouviu as palavras sagradas da pitonisa que, mau-grado as suas insuficiências linguísticas, avisou-o de que o rei dos judeus tinha os dias contados, pelo que mais valia dedicar-se à criação de gado e à exportação de louça para as colónias romanas no exterior das Colunas de Hércules. Este rei-mago, encantado com o que julgava ter ouvido, jurou seguir o conselho da pitonisa: ofereceu as suas safiras aos corvos, mudou de nome e fixou-se na encosta do monte Parnaso, onde fingia ser um rochedo coberto de musgo.


O 20º rei-mago sucumbiu a uma crise de identidade depois de eleger a Goethita como o mineral do seu tesouro. Julgou ser Fausto, julgou ser Mefistófeles, e acabou a sua viagem num prostíbulo em Tiro, a trabalhar com o exótico nome de Gretchen.

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