O santeiro

   - Como é que estão as coisas no litoral? - perguntou o vendedor, o colarinho branco apertado, a batina escura, as mãos muito brancas de dedos entrelaçados, como as de João Paulo I da gravura a óleo na parede.
   - Mais ou menos más, como em todo o lado - explicou o padre - estou numa paróquia pobre e as pessoas já não vão às igrejas, não têm fé ou não têm tempo.Vim aqui a Braga para encontrar imagens ou crucifixos que despertassem o fervor dos fiéis e contrariassem a tendência geral para a mundanização da vida.
   - Compreendo-o perfeitamente. Posso mostrar-lhe alguns itens, mas a ajuda que terá da nossa parte depende do pecúlio que o senhor prior trouxer consigo.
   O prior fez um gesto tranquilizador e aproximando-se do seu interlocutor, segredou-lhe uma cifra que o fez arregalar os olhos.
   - Temos um casal de mecenas na paróquia, duas almas abençoadas, generosas e tementes a Deus - explicou - O que eu adquirir aqui, ficará bem guardado na nossa igreja, mas nem eu nem eles queríamos coisas que se vissem em todo o lado. Teria de ser alguma coisa valiosa mas diferente, que chamasse gente e enchesse a nave durante os ofícios.
  - Então, não está interessado em crucifixos folheados a ouro? Ou belíssimas imagens em resina ou gesso, com aplicações de esmalte?
   - Não, nem paramentos, pinturas ou custódias. Teria de ser mesmo algo diferente...
   - Então, foi a Providência que me colocou no seu caminho! - exclamou com convicção - venha comigo!
   O padre seguiu-o por um dédalo de salas e corredores até uma pequena oficina nas traseiras da casa.   Accionou o interruptor e a luz fraca revelou uma bancada colocada no centro do cubículo, em cima da qual se erguia um vulto de santo, velado por um manto púrpura. A porta foi cautelosamente fechada atrás deles, e o manto foi retirado, desvelando uma imagem de santa esculpida em pedra.
   - Nossa Senhora da Conceição! - apresentou o vendedor - esculpida em pedra de Ançã ao estilo das obras de Mestre Pêro de Coimbra. A pedra foi envelhecida por processos químicos, pelo que aparenta ter quatro ou cinco séculos. O senhor prior poderia até apresentá-la à congregação como se tivesse sido encontrada nas proximidades da igreja ou junto a alguma das capelas da paróquia - e percebendo a hesitação na expressão do padre, apressou-se a acrescentar - mas esta imagem possui outras virtudes, que não sei se estará pronto para escutar...
   - É claro que sim! Estou pronto para tudo!
   - Seja...vivemos tempos de vazio e descrença, e temos de lutar contra isso. Esta imagem tem um espaço oco na cabeça, ao qual se acede retirando esta cubo de pedra na nuca - explicou, exemplificando - aqui dentro, como pode ver, existe um pequena embalagem com um líquido avermelhado espesso, que dois tubos finos ligam aos olhos da imagem. Os orifícios nos olhos são mínimos e precisos, com dois micros e meio de largura. Percebe o propósito do artifício?
   - A imagem chora sangue! Mas como é que isso é feito? Há algum mecanismo ou motor?
   - Não, nenhum, e esse é o maior trunfo que ela tem. A proximidade entre o nível do líquido e os orifícios nos olhos é uma coisa mínima, quase microscópica. A única coisa que tem de fazer é colocar a imagem num nicho da igreja onde ela receba Sol ou, se não existir um nicho adequado, em cima duma mesa pequena que funcione como um altar subsidiário. O pouco calor que receba fará com que ela verta uma ou duas lágrimas de sangue ao princípio da tarde, todos os dias, o suficiente para gerar o efeito que se pretende. E já pode imaginar o que se segue, rumores, reportagens, peregrinações, multidões a acotovelarem-se nos degraus da igreja, os penitentes a cumprir as suas promessas...
   - Isso parece-me muito hábil, e tentador, se me permite a palavra. O meu receio, é que algo possa correr mal e tornar-se pior a emenda que o soneto...
   - Não tem nada a temer, nós mesmos levamos a imagem, colocamos no lugar adequado, e aferimos as condições do seu funcionamento. E, se por acaso, alguém começar a fazer muitas perguntas, ou esperar uma verificação dos factos por parte dos seus superiores eclesiásticos, tem apenas de esperar que a igreja feche para retirar da imagem a depósito de líquido e lavar a face da imagem com álcool. Julgo que isto corresponda ao que procurava...
   - Decerto que sim, na verdade, excede as minhas melhores expetativas. Enquanto estava a ouvi-lo, ocorreu-me que, pelo menos, nos primeiros tempos, poderíamos tentar reforçar o aspeto miraculoso da imagem, acrescentando-lhe algum elemento feérico e maravilhoso...
   - O que é que tinha em mente?
   - Alguma forma de libertar pequeníssimas quantidades de metano, que ardesse em contato com as velas da igreja, criando uma espécie de fogos-fátuos a que ninguém ficaria indiferente. Como vocês são tão engenhosos...
   - O senhor prior é que se está a revelar muito engenhoso, diria mesmo, um Ulisses de Cristo. Julgo que a sua proposta é exequível, e que poderemos pô-la em prática quando instalarmos a imagem na sua igreja. Alguma coisa mais?
  - Não sei como dizer isto, mas vim de muito longe com a mala carregada de dinheiro e, como não conheço nada nem ninguém nesta cidade, agradeceria que me desse algumas indicações de como encontrar um bom lugar para pernoitar e comer, ou talvez, um ou outro estabelecimento noturno onde possa desanuviar um  pouco a cabeça de tantos problemas e preocupações com a paróquia e os paroquianos.
   - Farei melhor, consigo-lhe uma cicerone privativa, uma das nossas empregadas, que é muito prestável e diligente e o conduzirá melhor do que Medeia pelos labirintos de diversão da nossa cidade. O trabalho ao serviço de Deus consegue ser muito esgotante...
   - Sem dúvida que sim, muito esgotante mesmo...

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