Miniatura 8

   Quase todas as pessoas possuem um pequeno garrote na garganta, uma válvula que a fecha nos momentos oportunos. Sentem raiva, dor, desespero, vontade de ferir com palavras e de com elas açoitar, trespassar, invocar deuses furiosos e tempestades terríveis. Esse pequeno garrote coíbe-os de o fazer, ergue a represa diante das palavras revoltas, amaina a lava que ferve no fundo do abismo e que, assim contida e fechada, calcina o seu íntimo e as mais fundas raízes das suas emoções. Uma vez ou outra aparece-nos alguém cujo garrote se desfez e ficou inoperante, e que por isso anda pelas ruas a gritar injúrias e insultos com a boca a espumar de raiva, libertando aos ventos o calor das extrusões amargas do seu íntimo. Só nos merece pena, e apodamo-lo de louco enquanto prosseguimos a nossa aveludada trilha de carneiros mansos.

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