Miniatura 7

   A vida é muito simples, dentro dos seus limites e circunscrições sumárias: o que está vivo, não está morto; o que está morto, não está vivo. Tudo continuaria bem e simples se nos ficássemos por aqui. O que não é assim tão simples é o círculo exterior, a margem de transição onde a vida e a morte se mesclam e se substituem, incomodando uns e outros nos dois lados do perímetro da vida. Sei dum homem que se convenceu de que estava morto e que todos os dias se enchia de perfume para disfarçar o cheiro a carne podre (que só as suas narinas captavam), e que chorava de forma patética diante dos filhos porque já não poderia viver com eles o dia seguinte. Também, é claro, sei de mim mesmo, e da estranheza que me suscita tudo o que me rodeia, sobretudo, as pessoas que moram agora na minha casa e dormem na minha cama, e a dificuldade que tenho em encontrar os meus próprios livros e escritos que elas, tão displicentemente, encafuaram em caixotes no sótão da casa, como se fossem uma coisa velha e sem préstimo (como realmente é). A casa dum homem solitário devia morrer com ele por forma a ter onde regressar, e lavorar estas futilidades enquanto olha o mundo através das suas janelas de névoa.

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