Miniatura 6

   Quando soube que nos calabouços do seu palácio, estava preso um escultor veneziano, o sultão mandou que lhe tirassem as grilhetas e que o conduzissem à sua presença. Através dum intérprete, explicou-lhe:
   - Cristão, soube que és escultor e acontece que os jardins do meu palácio estão a precisar duma escultura diferente e grandiosa, como aquelas que se lavram para os palácios da tua cidade. Aceita essa incumbência,  e, se a escultura for do meu agrado, dar-te-ei a liberdade e um punhado de ouro e terás à tua disposição um navio para te levar de volta ao teu lar no Adriático.
  O escultor veneziano concordou, e entregou-se ao trabalho que lhe fora encomendado. Uma semana depois, e avisado pelos guardas, o sultão foi admirar a obra acabada do escultor. Este esperava-o num recanto dos jardins do palácio, e com um gesto largo apontou ao sultão a sua obra. O sultão sentiu as faces afoguearem-se de indignação. O que o escultor lhe apontava era um árvore, um dragoeiro com folhas e flores, em volta de cujo tronco se enrolava uma serpente gigantesca que, com esforço, abocanhava o corpo dum cordeiro cujos quartos traseiros ainda estavam fora da sua cabeça.
   - Isto, que dizes ser obra tua - fez saber pelo intérprete - não é uma escultura, mas seres vivos, árvores e animais como todos os outros.
  - Perdoe-me, majestade, mas as suas palavras apenas revelam que o sultão não sabe o que é a arte!

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