Miniatura 5

   O ascensorista morreu durante o sono.
   A sua alma elevou-se então até ao paraíso num percurso vertical retilíneo. Enquanto subia, trauteava o opus 111 de Brahms, que repetiam obsessivamente no elevador quando trabalhava.
   Chegado às portas do paraíso, foi-lhe explicado que o seu volume de faltas era demasiado dilatado para permanecer ali, e foi-lhe indicado que descesse ao purgatório para expiar algumas delas; e o ascensorista desceu em linha reta e direita até ao lugar onde antes existia o purgatório. E ficou por ali com as portas do ascensor abertas, parado, grosso modo, no limite entre a troposfera e a estratosfera, sem saber o que iria acontecer a seguir, e esperançado que alguma potência celeste ou uma alma caridosa lhe dissesse se devia subir ou descer. E ficou à esperou, por evos, sempre a trautear o opus 111 de Brahms.


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