Dia 4 - Miniatura 4

   - A nossa cidade está a precisar de renascer!
   Quem o afirmava era Rosália, jovem universitária, defensora acérrima do meio ambiente. Era uma mulher estranha, enérgica e cheia de força. Os seus olhos escuros e intensos faziam-me lembrar os retratos de Frida Kahlo.
   Rosália explicou-me como é que se cultivava terrenos abandonados da cidade, à revelia dos seus longínquos proprietários. Moldavam-se bolas de argila humedecida, com fertilizante e um punhado de sementes do que se pretendia ver nascer, e atiravam-se para dentro dos baldios ou quintais desprezados. A chuva e a natureza cuidavam dessas bolas de sementes e, em pouco tempo, as plantas desejadas nasciam aí como em qualquer viveiro ou jardim cuidado. Na realidade, ela e os colegas não andavam preocupados em fazer nascer florzinhas e trepadeiras bonitas, preferiam as espécies hortícolas, que podiam revelar-se de alguma utilidade para alguém. E mostrou-me alguns terrenos desprezados onde elas cresciam já. Havia alguns sem-abrigo e toxicodependentes que apadrinhavam algumas dessas plantas, cuidando delas e dos seus rebentos, e ganhando o privilégio de poder comer alfaces, pepinos ou tomates. Quando completávamos o tour pelos lugares de jardinagem clandestina, passamos por um - um pátio no centro dum prédio em ruínas - onde as plantas me pareceram familiares, altas, de folhas largas e espalmadas com vários folíolos recortados.
   - Cannabis? - perguntei, sabendo de antemão a resposta.
   Rosália, sorriu, e com o sorriso nos lábios encostou-os aos meus num beijo cúmplice.
   - Nem só de pão vive o homem, meu amigo - explicou - e olha que não fui eu que inventei essa...

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