Miniatura 30 (a última de 2012)

Lebab
- uma fantasia milenarista

   Muitos anos depois do grande cataclismo, os homens que sobreviveram regressaram à terra de Sinar, em grupos e clãs cujas línguas eram distintas duns para os outros, e carregando rolos de papiro e livros impressos com sinais e símbolos estranhos.
   Chegados à terra de Sinar, e comunicando por gravuras, acordaram entre si:
   - Vamos reconstruir a Torre de Babel.
   E sem mais palavras ou ilustrações, começaram todos a trabalhar, escavando o solo em vez de construírem para o alto em terraços de tijolos. Começaram por escavar um fosso largo quadrangular em que cada um dos lados tinha o comprimento de cinquenta mil e seiscentos côvados babilónicos de Lagash. A partir desse fosso construíram um segundo fosso, ligeiramente mais pequeno, centrado com o primeiro e unido a este por uma rampa descendente em espiral, e um terceiro fosso a partir do segundo, um quarto a partir do terceiro, e assim sucessivamente. A medida que a obra avançava e a torre invertida era aprofundada no solo, as línguas desses povos começaram a fundir-se, e eles, misteriosamente, entendiam-se nas suas línguas distintas, e os símbolos dos papiros e livros começaram a revelar o seu sentido, mesmo para aqueles que antes os conservavam sem os conseguirem perceber.  
   Quando as quatro vertentes da obra estavam cada vez mais próximas de se encontrarem, e a língua única começava a emergir da algaraviada de povos, nações, línguas e dialetos, a deidade ciumenta notou o propósito daquela obra e daqueles homens. E num ato ocioso e desprendido, ela fez com que as suas línguas secassem como lâminas de mica, e inundou a torre invertida dos últimos homens de lava em fusão e chumbo fundente.

Mensagens populares deste blogue

A viagem

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue