Miniatura 29 - a frustração

   O meu amigo estava triste, estava, não era, e como estava triste, tinha de ter boas razões para tal.
   - O que é que se passa?- perguntei-lhe, recebendo o fino de cerveja das mãos do empregado do bar.
   - Dei-me hoje conta de que ninguém ainda me escolheu para integrar uma coletânea de poesia, ou me referiu como um dos valores emergentes na literatura, nem sequer fui contemplado nas listas de linques de blogues e sítios com poesia de qualidade.
   - Poxa, pá! É por isso que estás triste? C'um carago!
   - São bons motivos, não achas? Tenho trinta e poucos anos e nenhum poeta me reconhece como um irmão do Parnaso, um guerreiro das musas. Daqui por meia dúzia de anos já estou cota e esquecido no meio da multidão anónima, isso, se antes não me diagnosticarem um cancro irreversível no pâncreas ou me cair algum avião em cima da cabeça.
   - Mas, Miguel, deixa-me recapitular. O que é que tu já fizeste para merecer isso? Já publicaste algum livro de poesia?
   - Não!
   - Tens trabalhos editados em revistas ou suplementos literários?
   - Não!
   - Já escreveste algum poema ou texto de prosa poética?
  - Não!
  - Um verso que seja, por pequenino que seja?
  - Não, pá, mil vezes não...mas tenho o Spleen, percebes, o Spleen que revela os verdadeiros poetas, e isso não deveria precisar de comprovativos nem obras! Agora, ainda achas que não tenho motivos para me sentir deprimido?

Mensagens populares deste blogue

A viagem

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue