Miniatura 26

   Um dia, quando era pequeno, caiu aparatosamente de bicicleta e esfolou os joelhos no alcatrão. Do incidente, ficou a ferida, depois a cicatriz, que mostrava aos amigos quando andava de calções, ou arregaçando as pernas das calças só para o fazer. Gostou que tivessem pena deles, e da simpática empatia que revelavam. E aprendeu a gostar disso, e a ter prazer sempre que lhes mostrava as feridas e as cicatrizes. E assim progrediu ao longo dos anos, magoando-se e exibindo depois as mazelas com íntima satisfação. Os golpes que levava, os ferimentos de guerra, o buraco no peito de quando uma mulher lhe levou o coração, e o vazio na alma de quando se descobriu órfão de Deus. Hoje, para seu infortúnio, já não se magoa muito e não tem muito para mostrar. Não tropeça nem cai, porque não caminha, não é derrotado ou ferido em combate porque não luta. O seu mundo é a sua cama, e até poderia mostrar aos outros a solidão inóspita e gelada em que se converteu o seu íntimo, mas não pode esperar compaixão nem empatia das funcionárias de rosto acidulado que cuidam do seu corpo em ruínas, ou das enfermeiras distantes que verificam mecanicamente a sua medicação.

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