Miniatura 24

   Os dois alpinistas suíços prepararam-se para escalar o Acongágua, e partiram do acampamento que haviam montado no Nido de Condores. Eram dois alpinistas veteranos, e experimentados em toda a sorte de acometidas montanhistas, dificuldades imponderáveis e árduas condições atmosféricas. Para mais, iam escalar pela rota normal, que não apresentava dificuldades de maior, o tempo parecia ameno, e o sol brilhava com uma invulgar boa disposição. No entanto, as coisas pioraram à medida que subiam, como se os pitões de ferro dos seus sapatos tivessem acordado alguma irascível deidade andina do submundo. O solo estremecia sob os seus pés numa ténue inquietação sísmica, e levantou-se um vento intenso e inesperado que lhes açoitava as faces. O som do vento mais parecia um longo e agudo queixume de dor, e o som cavo que produzia nas reentrâncias dos rochedos formava rugidos semelhantes a gritos lancinantes. Os dois alpinistas ainda ponderaram regressar ao acampamento-base, mas depois dum breve convénio, decidiram prosseguir a subida, esperançados num volte-face do mau tempo. E este aconteceu, de facto, pouco depois de ultrapassarem os seis mil metros de altitude. O solo deixou de tremer sob eles, o vento cessou, e o sol inundou com a sua luz generosa as encostas rochosas do Acongágua, como se tivesse a intenção de lhes mostrar com nitidez aquilo que tinham agora diante dos olhos: uma poça irregular de líquido cor-de-chumbo à entrada duma pequena gruta e, no centro dela, um pequeno rato recém-nascido, ainda húmido do líquido amniótico do ventre da montanha. Os alpinistas, impressionados por aquele parto ciclópico, envolveram o pequeno rato em roupas quentes, e iniciaram a descida para o acampamento para encontrar quem cuidasse dele. Mas não o fizeram sem antes erguerem o roedor na extremidade dos braços, para que a montanha o pudesse ver bem antes de o levarem dali.

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