Miniatura 22

   Giorgio reuniu à sua volta quatro pequenas comodidades para se sentir mais confortável e repousado.
   A saber:
   Uma gravação do latido dum cão na noite funda, bordejado pelo som da chuva a rumorejar em telhados de telha de barro.
   Um ambientador elétrico que solta para a atmosfera o aroma da terra impregnada de chuva e húmus.
   A música gravada do cântico das lavadeiras, que alegrava as ruas na pequena aldeia do Abruzos onde Giorgio cresceu.
   A reprodução, fixada na parede metálica, duma gravura de Escher do período italiano, onde o artista fixou a vida numa rua de Scanno, com as suas casas e escadas de pedra e as oliveiras pálidas a pontilhar um monte que preenche o horizonte entre as casas.
   Com estas pequenas comodidades, Giorgio consegue por vezes viver ou adormecer com a sensação de que não saiu de casa. Por vezes. Por momentos. Na euforia duma miragem.
   Uma miragem que não se sustenta de pé, com as estrelas e o planeta Terra a ocupar todo o campo de visão nas janelas da estação orbital.


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