Miniatura 21 (miniatura grande)

   A mãe tinha pressa, muita pressa, tinha de fazer as compras para ir fazer o jantar, e tinha de estar em casa a horas de dar o biberão à filha pequena, mais o xarope para a tosse da miúda. E o pior, é que estava no carro, à porta do supermercado, e a filha pequena dormia, ferrada, na cadeirinha do assento. E o tempo a passar, e ela com pressa. Viu então uma senhora, bem vestida, que esperava alguém à porta do supermercado, talvez uma boleia, ou alguém que estava a estacionar o carro para entrar com ela no estabelecimento. A mãe chamou-a.
   - Dá-me uma ajudinha? - pediu - olha pela minha filha durante cinco minutos? É só o tempo de eu comprar umas coisas lá dentro, e já venho ter consigo.
   - A senhora não me conhece de lado nenhum, e confia-me a sua filha? Não é uma atitude muito sensata...
   - Estou desesperada e sei que posso confiar em si, sabe, eu consigo ver ou entrever a aura das pessoas, e olhando para a sua, eu não vejo maldade nenhuma. Eu sei que posso confiar em si - frisou.
   - Seja, vá lá que eu fico de olho na sua filha.
   A mãe entrou supermercado, fez as suas comprar num corrupio e, quando já estava na caixa, ouviu um grande burburinho junto à porta do supermercado, com os seguranças do local a correrem para lá. Teve um mau pressentimento, e acorreu também. No exterior, a primeira coisa que os seus olhos viram foi a filha, sentada como antes na cadeirinha do carro, mas acordada, e sentiu-se extremamente aliviada, apesar de não gostar das cores dela, das emanações da sua aura. E só em seguida é que descobriu o motivo de tanta agitação - a mulher a quem pedira ajuda estava caída ao lado do carro, e parecia morta. Espreitou melhor por entre as cabeças das pessoas e os braços levantados dos seguranças, e viu que a senhora parecia ter o pescoço partido, como se uma força descomunal lhe tivesse empurrado a cabeça para o lado. A carne na base do pescoço estava entumescida e avermelhada, revelando bem as hemorragias internas produzidas por aquela força de torção.
   Aproveitando a confusão, conseguiu entrar para o carro, fechar o vidro do lado da miúda, e sair dali com ela. Só então é que olhou para a filha pelo espelho retrovisor. Ela estava acordada e olhava-a nos olhos, com um pálido sorriso de felicidade na cara redonda de grandes bochechas.
   - Não precisavas de fazer aquilo, minha filha, foi a mãe quem pediu à senhora para ficar contigo, e não demorei nada. Foi muito feio, muito feio mesmo...

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