Miniatura 16

   Durante toda a vida, fez tudo o que pode para alimentar o seu próprio ego, que foi crescendo inexoravelmente como uma coisa fenomenal. Ele era agora deveras enorme mas, por ironia, tanto ego denso e concentrado não foi suficiente para deter a marcha dum desprezível automóvel que o apanhou no centro duma avenida e o matou. Como já era enorme, não foi directo para o céu por não caber na entrada e, por isso, não teve outro remédio senão voltar para a casa onde antes habitava. Ao princípio, o seu ego, agora na forma de corpo espiritual, ainda cabia na casa, mas não tardou a ter de viver no exterior porque o seu ego continuava a crescer, e agora, dispunha de toda a eternidade para cuidar dele. A nossa sorte, é que ele morreu apenas há um par de anos, porque os nossos filhos e os filhos deles já terão alguma dificuldade em observar as estrelas através do ectoplasma prateado que emanará do seu ego.

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