Miniatura 13

   Wilhem, o velho Wilhem, gosta de passear pelas praças da cidade e alimentar os pombos como qualquer velho. O seu lugar preferido na sua amada Berlim, é um banco próximo às Portas de Brandemburgo, onde fica sentado durante horas com um olhar profundamente triste. Aí, Wilhem não tira fotografias à quadriga majestosa no topo da Porta, nem aos altos-relevos que adornam os seus arcos. Wilhem não posa para fotos, e nem mesmo alimenta os pombos. Olha apenas. Lembra-se nitidamente de quando as Portas de Brandemburgo integravam o Muro de Berlim, e é essa memória que regressa a si de cada vez que olha para as Portas porque, ao contrário dos turistas e dos ociosos, Wilhem ainda consegue ver as vítimas do Muro, as suas sombras torturadas, ceifadas por longínquos disparos de metralhadora quando correm em desespero para um futuro que nunca alcançarão. Já surpreendidas e mortas, as sombras erguem para ele o olhar torurado e regressam, arrastam-se para o outro lado do Muro, para uma nova fuga, tão ominosa como a pedra de Sísifo.

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