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Conto escrito a duas mãos - 7



EVAN
   Evan possuía um dom, que nascera consigo e ao qual chamava transparência - quando estava junto a um objeto, fosse qual fosse, conseguia por vezes sentir todo o seu interior, o emaranhado de átomos da sua estrutura, e a cadeia intrincada de elementos e energias que o estruturavam num delicado e feérico equilíbrio quântico. Quando entrou na adolescência, nessa idade de mutações e fenómenos, esse dom estendeu-se aos seres vivos - plantas e animais. Apreendia, num mergulho cognitivo involuntário, não apenas as suas características biológicas e atómicas, mas também, o que era um elemento acrescido de espanto, as suas reações emotivas e as suas sensações. Nunca imaginara o grau de intensidade com que um cão ou um inseto podiam sentir medo ou angústia, e nunca supusera que uma planta podia comunicar sinais muito semelhantes aos dum animal com fome ou dor.      
   Nesse estádio do seu dom, Evan já se sentia assoberbado, a extravasar de conhecimento intuitivo, mas a sua progressão não terminara aí. Nos primeiros anos da sua juventude, mais rigorosamente, na primeira vez em que penetrou uma mulher, em que esteve dentro doutro ser, esse dom libertou-se dos últimos resíduos do seu casulo, e Evan sentiu estender-se às pessoas as suas faculdades de transparência. A partir desse dia, quando estava com outras pessoas, chegava-lhe num aluimento fortuito o conhecimento daquilo que elas encerravam em si.
   Quando percebeu que podia percecionar toda a gente ficou com medo.Medo de penetrar no mais negro de todos os seres vivos- nas angústias e emoções de todos quanto o rodeavam. A intensidade de sentimentos era tão forte  como o odor do mais negro café africano. As pessoas cheiravam a suor e a perfume. O ser humano transportava a semente da destruição. E da beleza também.
   Pensou, então, em domesticar o seu dom. Procurou um hipnótico que lhe bloqueasse as sensações da semente da destruição e aspirou a doçura da beleza humana. A humanidade floresceu no seu coração. Evan acabou canonizado por todas as religiões do mundo porque, viu-se, conseguia acreditar na redenção da Humanidade.

Escrito por José e Maria

Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...