INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Os Vinte Reis-Magos (ou Os Dezassete Disparates)

A tradição comum omite que eram vinte, e não três, os reis-magos que se puseram a caminho de Belém, seguindo uma estrela de luz caprichosa. Também omite que a dita estrela se convertia num círculo de trevas no céu durante a vigência da luz do Sol; e que iludiu os reis-magos, levando-os para destinos dispersos pelo mundo. A lista que se segue, (muito) parcialmente fundada num documento copta exumado num sepulcro em Faium ("The Twenty Wise Man", estudo interpretativo do documento por Thompson et al., Ordfordshire Press, Londres, 1962), tenta recuperar esses reis-magos esquecidos. 
   Deixando de parte os três reis-magos já consagrados pela tradição, enumera-se os restantes:


O 4º rei-mago acabou a sua viagem no sopé do Tauro, no reino das amazonas, onde a beleza dos seus corpos nus e do seio solitário no seu tronco, o fez entregar-lhes a sua virilidade em oferenda para as servir como eunuco até ao fim dos seus dias.


O 5º rei-mago pretendeu oferecer urânio ao rei dos judeus, e isso é tudo o que se sabe dele; supondo-se que ele e a sua montada tenham naufragado nas dunas onduladas do deserto, consumidos por uma inexorável morte lenta.


O 6º rei-mago aportou à ilha sagrada de Dilmun, onde matou uma cobra que o atacara. Do seu ventre, extraiu a erva da imortalidade que lhe conferiu a juventude eterna e, por isso, este rei-mago ainda aí permanece, entre poços de petróleo, escaramuças religiosas e raides aéreos.


O 7º rei-mago, não era rei, não era mago nem transportava nenhuma oferenda, mas era um mimo extraordinário que teve a pouca sorte de exibir os seus talentos diante de legionários romanos sem humor e sem imaginação, que o juntaram à força a uma comunidade de leprosos da Samaria.


O 8º rei-mago levava consigo um pequeno tesouro de pérolas do Índico, mas a estrela errante conduziu-o às margens do Nilo onde Drusila, neta de Cleópatra, sequestrou as pérolas na convicção de que elas a ajudariam a manter-se jovem. O 8º rei-mago, por orgulho, negou-se a continuar a viagem sem as suas oferendas, mesmo depois de Drusila morrer com a ingestão das pérolas e dele ter sido morto por lapidação pelos seus súbditos.


O 9º rei-mago rumou ao norte onde o brilho da estrela se fundiu no de uma aurora boreal, fazendo-o inquirir pelo salvador do mundo entre os bem-aventurados hiperbóreos, que não precisavam ser salvos (os hiperbóreos, confundidos pelas suas perguntas, julgaram que Apolo regressaria mais cedo naquele ano).


O 10º rei-mago, oriundo duma família de mercadores, pôs-se a caminho com uma carga de maçãs, que trocou por um punhado de amostras de mineral de adamite, que trocou por um cesto de serpentes venenosas amestradas, que o mataram.


O 11º rei-mago partiu da Trinácria com um sino ao pescoço, mas foi enganado pela feiticeira Circe, que o transformou numa vaca. Chegou de facto a um certo estábulo em Belém de Judá, ainda que ninguém lhe faça justiça.


O 12º rei-mago, que reuniu para a oferenda um pequeno tesouro em minerais de Galena, descobriu na viagem as atrocidades que a doença e a guerra infligiam às pessoas, e decidiu renunciar á sua viagem para se cultivar nas artes médicas e assim poder ajudar o próximo.


O 13º rei-mago tomou a Rota da Seda até ao reino do Catai, e conheceu e inventariou algumas das cidades invisíveis que ressurgiriam séculos mais tarde sob a forma de miragens sobre o mar do Adriático. Correu mundo e a sua sabedoria era tão prodigiosa que um Arcanjo Administrativo o incumbiu de corrigir os textos dos primeiros evangelistas e de lhes dar as primeiras noções sobre a publicação de obras.
   Nota: Os textos originais dos evangelistas aludiam profusamente à faina da pesca e ao nome de peixes.
   Exemplo: Herodes era feio como um congro, Pilatos era escorregadio como uma moreia, Cristo ganhara três seguidores nas suas redes iscadas…


O 14º rei-mago, transportava um pequeno cofre cheio de flores fragrantes, e a dança da estrela nos céus levou-o até Lutécia, nas margens do Sena; onde o mau cheiro dos celtas a tresandar a carneiro e dos aluviões do rio, o convenceram a tornar-se perfumista.


O 15º rei-mago escolheu como sua oferenda para o rei dos judeus, um fragmento coruscante de estrela que caíra no monte Ararat. O 15º rei-mago acertou com o caminho, mas chegou depois de tudo e de todos porque teve de ir a pé, uma vez que nenhuma montada ou animal de carga se aproximava dele, atemorizados que ficavam pelas vozes que saíam do fragmento da estrela.


O 16º rei-mago, um pobre observador de estrelas, organizou espetáculos de magia para suportar os custos da viagem. Soltava-se de correntes enquanto estava mergulhado num tanque de água, tirava coelhos de dentro de turbantes, e era cortado ao meio por um assistente. O assistente que arranjou foi o mais barato que conseguiu encontrar, e a sua inexperiência notou-se no número que serrou o espetáculo.


O 17º rei-mago partiu da Pérsia com todo o seu séquito: a rainha, os cavalos, bispos, torres, peões, xeques e roques (e respetivas famílias). Com uma comitiva tão volumosa, chegou à Terra Santa por alturas da crucificação.


O 18º rei-mago ignorou os sinais no céu noturno e não chegou a sair do seu palácio, tão gordo e anafado se tornara ao longo dos anos. Arranjou um palco no palácio com uma tocha alta que representava a estrela, e ordenou a diligentes bonecreiros para representarem a sua viagem épica e o seu encontro com o rei dos judeus, enquanto comia ainda mais, sofregamente, com medo que sobrasse comida no mundo depois de chegar a sua hora de morrer.


O 19º rei-mago viu a sua estrela deter-se sobre o santuário de Delfos. Juntou-se a outros peregrinos e ouviu as palavras sagradas da pitonisa que, mau-grado as suas insuficiências linguísticas, avisou-o de que o rei dos judeus tinha os dias contados, pelo que mais valia dedicar-se à criação de gado e à exportação de louça para as colónias romanas no exterior das Colunas de Hércules. Este rei-mago, encantado com o que julgava ter ouvido, jurou seguir o conselho da pitonisa: ofereceu as suas safiras aos corvos, mudou de nome e fixou-se na encosta do monte Parnaso, onde fingia ser um rochedo coberto de musgo.


O 20º rei-mago sucumbiu a uma crise de identidade depois de eleger a Goethita como o mineral do seu tesouro. Julgou ser Fausto, julgou ser Mefistófeles, e acabou a sua viagem num prostíbulo em Tiro, a trabalhar com o exótico nome de Gretchen.

Miniatura 30 (a última de 2012)

Lebab
- uma fantasia milenarista

   Muitos anos depois do grande cataclismo, os homens que sobreviveram regressaram à terra de Sinar, em grupos e clãs cujas línguas eram distintas duns para os outros, e carregando rolos de papiro e livros impressos com sinais e símbolos estranhos.
   Chegados à terra de Sinar, e comunicando por gravuras, acordaram entre si:
   - Vamos reconstruir a Torre de Babel.
   E sem mais palavras ou ilustrações, começaram todos a trabalhar, escavando o solo em vez de construírem para o alto em terraços de tijolos. Começaram por escavar um fosso largo quadrangular em que cada um dos lados tinha o comprimento de cinquenta mil e seiscentos côvados babilónicos de Lagash. A partir desse fosso construíram um segundo fosso, ligeiramente mais pequeno, centrado com o primeiro e unido a este por uma rampa descendente em espiral, e um terceiro fosso a partir do segundo, um quarto a partir do terceiro, e assim sucessivamente. A medida que a obra avançava e a torre invertida era aprofundada no solo, as línguas desses povos começaram a fundir-se, e eles, misteriosamente, entendiam-se nas suas línguas distintas, e os símbolos dos papiros e livros começaram a revelar o seu sentido, mesmo para aqueles que antes os conservavam sem os conseguirem perceber.  
   Quando as quatro vertentes da obra estavam cada vez mais próximas de se encontrarem, e a língua única começava a emergir da algaraviada de povos, nações, línguas e dialetos, a deidade ciumenta notou o propósito daquela obra e daqueles homens. E num ato ocioso e desprendido, ela fez com que as suas línguas secassem como lâminas de mica, e inundou a torre invertida dos últimos homens de lava em fusão e chumbo fundente.

Miniatura 29 - a frustração

   O meu amigo estava triste, estava, não era, e como estava triste, tinha de ter boas razões para tal.
   - O que é que se passa?- perguntei-lhe, recebendo o fino de cerveja das mãos do empregado do bar.
   - Dei-me hoje conta de que ninguém ainda me escolheu para integrar uma coletânea de poesia, ou me referiu como um dos valores emergentes na literatura, nem sequer fui contemplado nas listas de linques de blogues e sítios com poesia de qualidade.
   - Poxa, pá! É por isso que estás triste? C'um carago!
   - São bons motivos, não achas? Tenho trinta e poucos anos e nenhum poeta me reconhece como um irmão do Parnaso, um guerreiro das musas. Daqui por meia dúzia de anos já estou cota e esquecido no meio da multidão anónima, isso, se antes não me diagnosticarem um cancro irreversível no pâncreas ou me cair algum avião em cima da cabeça.
   - Mas, Miguel, deixa-me recapitular. O que é que tu já fizeste para merecer isso? Já publicaste algum livro de poesia?
   - Não!
   - Tens trabalhos editados em revistas ou suplementos literários?
   - Não!
   - Já escreveste algum poema ou texto de prosa poética?
  - Não!
  - Um verso que seja, por pequenino que seja?
  - Não, pá, mil vezes não...mas tenho o Spleen, percebes, o Spleen que revela os verdadeiros poetas, e isso não deveria precisar de comprovativos nem obras! Agora, ainda achas que não tenho motivos para me sentir deprimido?

Miniatura 28

   O meu trajeto diário da casa para o trabalho foi perturbada por um acidente automóvel junto aos semáforos da Avenida Oannes - um carro deve, suponho, ter travado muito em cima da mudança de sinal no semáforo, o que originou que várias viaturas se tivessem enfeixado umas nas outras. No momento em que parei cuidadosamente o meu carro e liguei os quatro piscas, os carros envolvidos no acidente apresentavam um aspeto deplorável, uns com a barbatana caudal quebrada, outros com as barbatanas peitorais apenas evocadas pelas estruturas radiais internas que lhes tinham sobrevivido; havia escamas de diversos formatos espalhados pelo alcatrão do pavimento e, nalguns carros, as guelras rasgadas metiam dó, com aqueles tecidos esponjosos retraçados pelo impato e pendendo, inermes, como minúsculos e exangues braços decepados. Ainda aguardei um pouco para ver se o trânsito era restabelecido naquele cruzamento mas, como outros, acabei por fazer inversão de marcha e procurar um caminho alternativo para o trabalho, saindo dali no momento em que chegavam os polícias, montados em cavalos-marinhos.

(mosaico romano em Milreu, Algarve)

Miniatura 26

   Um dia, quando era pequeno, caiu aparatosamente de bicicleta e esfolou os joelhos no alcatrão. Do incidente, ficou a ferida, depois a cicatriz, que mostrava aos amigos quando andava de calções, ou arregaçando as pernas das calças só para o fazer. Gostou que tivessem pena deles, e da simpática empatia que revelavam. E aprendeu a gostar disso, e a ter prazer sempre que lhes mostrava as feridas e as cicatrizes. E assim progrediu ao longo dos anos, magoando-se e exibindo depois as mazelas com íntima satisfação. Os golpes que levava, os ferimentos de guerra, o buraco no peito de quando uma mulher lhe levou o coração, e o vazio na alma de quando se descobriu órfão de Deus. Hoje, para seu infortúnio, já não se magoa muito e não tem muito para mostrar. Não tropeça nem cai, porque não caminha, não é derrotado ou ferido em combate porque não luta. O seu mundo é a sua cama, e até poderia mostrar aos outros a solidão inóspita e gelada em que se converteu o seu íntimo, mas não pode esperar compaixão nem empatia das funcionárias de rosto acidulado que cuidam do seu corpo em ruínas, ou das enfermeiras distantes que verificam mecanicamente a sua medicação.

Miniatura 25

   O homem destelhado anda com a telha, a angústia destalha-lhe o sangue nas veias, e a fúria talha pacientemente o granito frágil das suas forças com a mesma volúpia com que retalha o tecido esgarçado dos seus pretextos de vida.
   O homem destelhado está deste lado, do lado dos crédulos a quem foi prometido o Céu e que não têm para onde ir, do lado dos apátridas e dos sem abrigo a quem uma simples casa pareceria a um tempo a Terra Prometida e a Jerusalém dos céus.
   Porque o homem destelhado não tem telhas sobre si,
   e chove.

Miniatura 24

   Os dois alpinistas suíços prepararam-se para escalar o Acongágua, e partiram do acampamento que haviam montado no Nido de Condores. Eram dois alpinistas veteranos, e experimentados em toda a sorte de acometidas montanhistas, dificuldades imponderáveis e árduas condições atmosféricas. Para mais, iam escalar pela rota normal, que não apresentava dificuldades de maior, o tempo parecia ameno, e o sol brilhava com uma invulgar boa disposição. No entanto, as coisas pioraram à medida que subiam, como se os pitões de ferro dos seus sapatos tivessem acordado alguma irascível deidade andina do submundo. O solo estremecia sob os seus pés numa ténue inquietação sísmica, e levantou-se um vento intenso e inesperado que lhes açoitava as faces. O som do vento mais parecia um longo e agudo queixume de dor, e o som cavo que produzia nas reentrâncias dos rochedos formava rugidos semelhantes a gritos lancinantes. Os dois alpinistas ainda ponderaram regressar ao acampamento-base, mas depois dum breve convénio, decidiram prosseguir a subida, esperançados num volte-face do mau tempo. E este aconteceu, de facto, pouco depois de ultrapassarem os seis mil metros de altitude. O solo deixou de tremer sob eles, o vento cessou, e o sol inundou com a sua luz generosa as encostas rochosas do Acongágua, como se tivesse a intenção de lhes mostrar com nitidez aquilo que tinham agora diante dos olhos: uma poça irregular de líquido cor-de-chumbo à entrada duma pequena gruta e, no centro dela, um pequeno rato recém-nascido, ainda húmido do líquido amniótico do ventre da montanha. Os alpinistas, impressionados por aquele parto ciclópico, envolveram o pequeno rato em roupas quentes, e iniciaram a descida para o acampamento para encontrar quem cuidasse dele. Mas não o fizeram sem antes erguerem o roedor na extremidade dos braços, para que a montanha o pudesse ver bem antes de o levarem dali.

Miniatura 23 - Conto de Natal


Conto escrito a Duas Mãos - 8
(escrito por Maria e José)


   A fada Oriana estava aflita com o Poeta. Perdido na sua torre escura, cantando versos ao luar o Poeta tinha-se esquecido que prometera escrever uma toada de Natal. Os animais da floresta, preocupados com a demora, dirigiram-se à Torre para o procurarem. Em vão. O poeta desaparecera. A fada lembrou-se então que a Torre dava para as terras dos elfos. Veloz, procurou a Torre e descendo às masmorras encontrou a pequena porta por onde o poeta, certamente, se escapulira. Voou em direção ao castelo de Alf, o elfo rei e pediu-lhe ajuda para procurar o Poeta. As terras dos elfos ficavam num pequeno oásis escarpado, por onde corriam altas cascatas de água. O Castelo parecia suspenso no ar. Um clima doce e luminoso rodeava toda a pequena vila de elfos. A partir do castelo, campos verdes envolviam o oásis e o castelo.
   Mas onde estaria escondido o Poeta que gostava tanto da sua torre negra e, de cantar doces versos ao luar? Não parecia dele ter-se escapulido para a terra dos elfos. Alf pediu a Oriana que esperasse pelo anoitecer, porque então, teria alguém para a auxiliar a encontrar o Poeta. Oriana esperou então, no majestoso Salão dos Ancestrais, onde os elfos preservavam o Poço de Vidência através do qual se podia escrutinar todo o mundo. O elfo rei explicou a Oriana como isso era possível – o mundo é recoberto por uma trama de linhas de energia que a reveste como uma pele. Essas linhas e o espaço entre elas são as escamas do dragão cósmico Morgür cujas veias alimentam a vida das plantas e animais e auxiliam as montanhas e os rios a crescer. Mas o dragão cósmico existe mesmo, e a sua mente é o Naos, o espírito onde tudo mergulha e donde tudo emana. Os elfos da luz, num labor de evos, aprenderam a conhecer o Naos e construíram o sagrado Poço da Vidência, que era como uma janela ou um olho aberto sobre os segredos do Naos, cuja momentânea contemplação por um mortal o arrastaria instantaneamente para a loucura. Mesmo entre os elfos e fadas, nem todos tinham o poder e a energia para suportar essa visão, e só um elfo entre eles tinha o poder de usar o Poço como uma porta mágica. Explicado isso, o elfo rei pediu a Oriana para ser paciente, e Oriana esperou pela noite, que chegou mansamente como uma névoa escura, e a noite trouxe Sigvar, uma mulher-elfa oriunda de Svartalfheim, o reino dos Elfos da Escuridão. Sigvar entrou no Salão dos Ancestrais, relanceou os olhos por Oriana e pelo elfo-rei e, de seguida, demorou o seu olhar na superfície de chumbo do Poço da Vidência. Oriana não tirou os olhos dela, e não sentiu medo quando Sigvar se aproximou deles como os seus olhos brancos como marfim, nem quando lhe vendou os olhos e a conduziu ao Poço. Oriana percebeu que subia uns degraus e que mergulhava no Poço, não como se caísse numa falésia, mas antes, como se flutuasse nos ares como uma hidra a planar. Sigvar estava ao seu lado, e em volta deles uivavam seres mágicos cuja passagem lhe inundava o íntimo de vagas de prazer e clarividência.
   Quando sentiu o solo sob os pés, Oriana sentia-se feliz, preenchida, ressumando magia e poder. Sigvar tirou-lhe a venda e pareceu esfumar-se em seguida. Oriana estava numa floresta escura, e o Poeta estava diante dela. Tinha caído no fundo dum barranco quando regressava da Fonte das Musas com a lira dourada que aí fora pedir. Oriana ajudou-o. Tirou-o do fundo do barranco e sarou as suas feridas enquanto o Poeta lhe explicava que fora em busca da lira dourada para compor a toada de Natal que prometera, porque desejava que ela fosse maravilhosa e inesquecível. Oriana conduziu-o de regresso à Torre Negra, acompanhados por um séquito de animais da floresta que saudavam o regresso do Poeta. Entraram pela mesma porta por onde o Poeta saíra, e Oriana conduziu-o ao seu quarto para que o Poeta repousasse antes de retomar os seus versos e as suas canções. Olhando o vale pela janela do quarto do Poeta, e lembrando-se do quanto devia à mulher-elfa, Oriana interrogou-se sobre onde estaria Sigvar naquele instante. Talvez os estivesse a ver pelo Poço da Vidência, ou talvez isso não fosse preciso, porque Oriana, o Poeta, os animais, a Torre e tudo o mais, não eram seres distintos e distantes, mas partículas diferenciadas de Morgür, irmanadas entre si como árvores unidas pela raiz.




Miniatura 22

   Giorgio reuniu à sua volta quatro pequenas comodidades para se sentir mais confortável e repousado.
   A saber:
   Uma gravação do latido dum cão na noite funda, bordejado pelo som da chuva a rumorejar em telhados de telha de barro.
   Um ambientador elétrico que solta para a atmosfera o aroma da terra impregnada de chuva e húmus.
   A música gravada do cântico das lavadeiras, que alegrava as ruas na pequena aldeia do Abruzos onde Giorgio cresceu.
   A reprodução, fixada na parede metálica, duma gravura de Escher do período italiano, onde o artista fixou a vida numa rua de Scanno, com as suas casas e escadas de pedra e as oliveiras pálidas a pontilhar um monte que preenche o horizonte entre as casas.
   Com estas pequenas comodidades, Giorgio consegue por vezes viver ou adormecer com a sensação de que não saiu de casa. Por vezes. Por momentos. Na euforia duma miragem.
   Uma miragem que não se sustenta de pé, com as estrelas e o planeta Terra a ocupar todo o campo de visão nas janelas da estação orbital.


Miniatura 21 (miniatura grande)

   A mãe tinha pressa, muita pressa, tinha de fazer as compras para ir fazer o jantar, e tinha de estar em casa a horas de dar o biberão à filha pequena, mais o xarope para a tosse da miúda. E o pior, é que estava no carro, à porta do supermercado, e a filha pequena dormia, ferrada, na cadeirinha do assento. E o tempo a passar, e ela com pressa. Viu então uma senhora, bem vestida, que esperava alguém à porta do supermercado, talvez uma boleia, ou alguém que estava a estacionar o carro para entrar com ela no estabelecimento. A mãe chamou-a.
   - Dá-me uma ajudinha? - pediu - olha pela minha filha durante cinco minutos? É só o tempo de eu comprar umas coisas lá dentro, e já venho ter consigo.
   - A senhora não me conhece de lado nenhum, e confia-me a sua filha? Não é uma atitude muito sensata...
   - Estou desesperada e sei que posso confiar em si, sabe, eu consigo ver ou entrever a aura das pessoas, e olhando para a sua, eu não vejo maldade nenhuma. Eu sei que posso confiar em si - frisou.
   - Seja, vá lá que eu fico de olho na sua filha.
   A mãe entrou supermercado, fez as suas comprar num corrupio e, quando já estava na caixa, ouviu um grande burburinho junto à porta do supermercado, com os seguranças do local a correrem para lá. Teve um mau pressentimento, e acorreu também. No exterior, a primeira coisa que os seus olhos viram foi a filha, sentada como antes na cadeirinha do carro, mas acordada, e sentiu-se extremamente aliviada, apesar de não gostar das cores dela, das emanações da sua aura. E só em seguida é que descobriu o motivo de tanta agitação - a mulher a quem pedira ajuda estava caída ao lado do carro, e parecia morta. Espreitou melhor por entre as cabeças das pessoas e os braços levantados dos seguranças, e viu que a senhora parecia ter o pescoço partido, como se uma força descomunal lhe tivesse empurrado a cabeça para o lado. A carne na base do pescoço estava entumescida e avermelhada, revelando bem as hemorragias internas produzidas por aquela força de torção.
   Aproveitando a confusão, conseguiu entrar para o carro, fechar o vidro do lado da miúda, e sair dali com ela. Só então é que olhou para a filha pelo espelho retrovisor. Ela estava acordada e olhava-a nos olhos, com um pálido sorriso de felicidade na cara redonda de grandes bochechas.
   - Não precisavas de fazer aquilo, minha filha, foi a mãe quem pediu à senhora para ficar contigo, e não demorei nada. Foi muito feio, muito feio mesmo...

Miniatura 20

   Diante do espelho, e já com o fato escuro vestido e armado o nó da gravata, esboçou um sorriso. Não gostou do sorriso que esboçou, apagou-o e esboçou um novo. Este agradou-lhe um pouco mais. Era um sorriso a meio-gás, com a linha do lábio torcida num desprezo divertido mas, ainda assim, com o seu quê de dignidade, de respeito de circunstância. Olhou pelo canto do olho e certificou-se de que a mulher estava absorta com ela própria, com o drapeado da saia do seu conjunto cinza-escuro; e, antes que ela o censurasse por isso, fixou o seu próprio sorriso com tinta permanente, e considerou-se, finalmente, preparado para irem ao maldito velório.

Miniatura 19

   Gus, jovem de dezassete anos, sabe como usar o poder da Mente. Gosta de o fazer apenas quando sai com os amigos à noite (todos parecidos na maneira de vestir e no comportamento - cabeças rapadas, insígnias de suásticas, veneno e gume nas palavras e nos insultos). Bebem, provocam, guerreiam, ferem. É o seu modo de vida. À porta duma discoteca, no meio dos carros estacionados, Gus usa a Mente para atingir um monhé no ombro, sofrendo em troca uma leve unhada de navalha. Mais abaixo, Gus e os amigos provocam o esteróidico segurança dum Centro Comercial e, mais uma vez, é a Mente de Gus que lhe dá vantagem, partindo o pulso ao homem quando este tentava empunhar a arma. A Mente de Gus é poderosa e devastadora, abre caminho na onda violenta como a quilha d'aço dum navio numa lagoa de águas calmas, e usa-a como um soberano usa o ceptro, para governar e castigar. Gus e os amigos repousam um pouco numa pensão sórdida onde uma prostituta que eles conhecem lhe faz um pequeno curativo no corte da navalha, e depois seguem, noite fora, até se cansarem. De madrugada, Gus regressa a casa, o apartamento duplex dos pais. Enrola a Mente no casaco para que os pais não a vejam, e refugia-se no quarto. Exausto, agitado ainda pela bebida e pela droga, coloca a Mente, o seu bastão, numa estante de parede, antes de se atirar vestido para cima da cama. Só então, a Mente repousa.


Miniatura 18


  Culpado!
   Fora a decisão unânime do conselho tribal. E esse tipo de decisão nunca era contestada. Quebrara um tabu, escarnecendo das coisas sagradas que transcendiam o entendimento dos homens e mantinham coesa a trama dos fios dos dias e a generosidade dos espíritos da natureza. A morte era o único castigo aplicável.
   Orientados pelo feiticeiro, um grupo de guerreiros escavou uma cova oval no centro duma termiteira cujas chaminés cónicas apontavam para o alto. O réu foi amordaçado, amarrado de braços e pernas, e depositado nessa cova depois de o untarem com mel e pasta de cana de açúcar. Enquanto a sentença era executada, os guerreiros dedilhavam as teclas metálicas de pequenas mbiras para, com a sua música, amenizar o sofrimento e a repugnância das formigas.

Miniatura 17

   "Quero que me ensines a ser uma pessoa normal, assim como tu - pediu ele - tens de me ensinar tudo, como andam, riem, choram, vestem as pessoas normais, como celebram a madrugada, os equinócios e solstícios, como são as suas cerimónias de iniciação à vida adulta e as suas orgias renovadoras, de que formas sacrificam à Mãe Terra e como aplacam a fúria do mar, como são os seus cânticos nos coros de bacantes e ninfas e de que forma elegem as sacerdotisas que mantém vivo o fogo do lar. Ensinas-me? Gostava muito de saber e prometo que não te embaraço! Cortarei esta barba hirsuta e pontiaguda, esconderei as orelhas compridas dentro dum capuz e usarei uns botins para disfarçar estes meus cascos de fauno".

Miniatura 16

   Durante toda a vida, fez tudo o que pode para alimentar o seu próprio ego, que foi crescendo inexoravelmente como uma coisa fenomenal. Ele era agora deveras enorme mas, por ironia, tanto ego denso e concentrado não foi suficiente para deter a marcha dum desprezível automóvel que o apanhou no centro duma avenida e o matou. Como já era enorme, não foi directo para o céu por não caber na entrada e, por isso, não teve outro remédio senão voltar para a casa onde antes habitava. Ao princípio, o seu ego, agora na forma de corpo espiritual, ainda cabia na casa, mas não tardou a ter de viver no exterior porque o seu ego continuava a crescer, e agora, dispunha de toda a eternidade para cuidar dele. A nossa sorte, é que ele morreu apenas há um par de anos, porque os nossos filhos e os filhos deles já terão alguma dificuldade em observar as estrelas através do ectoplasma prateado que emanará do seu ego.

O santeiro

   - Como é que estão as coisas no litoral? - perguntou o vendedor, o colarinho branco apertado, a batina escura, as mãos muito brancas de dedos entrelaçados, como as de João Paulo I da gravura a óleo na parede.
   - Mais ou menos más, como em todo o lado - explicou o padre - estou numa paróquia pobre e as pessoas já não vão às igrejas, não têm fé ou não têm tempo.Vim aqui a Braga para encontrar imagens ou crucifixos que despertassem o fervor dos fiéis e contrariassem a tendência geral para a mundanização da vida.
   - Compreendo-o perfeitamente. Posso mostrar-lhe alguns itens, mas a ajuda que terá da nossa parte depende do pecúlio que o senhor prior trouxer consigo.
   O prior fez um gesto tranquilizador e aproximando-se do seu interlocutor, segredou-lhe uma cifra que o fez arregalar os olhos.
   - Temos um casal de mecenas na paróquia, duas almas abençoadas, generosas e tementes a Deus - explicou - O que eu adquirir aqui, ficará bem guardado na nossa igreja, mas nem eu nem eles queríamos coisas que se vissem em todo o lado. Teria de ser alguma coisa valiosa mas diferente, que chamasse gente e enchesse a nave durante os ofícios.
  - Então, não está interessado em crucifixos folheados a ouro? Ou belíssimas imagens em resina ou gesso, com aplicações de esmalte?
   - Não, nem paramentos, pinturas ou custódias. Teria de ser mesmo algo diferente...
   - Então, foi a Providência que me colocou no seu caminho! - exclamou com convicção - venha comigo!
   O padre seguiu-o por um dédalo de salas e corredores até uma pequena oficina nas traseiras da casa.   Accionou o interruptor e a luz fraca revelou uma bancada colocada no centro do cubículo, em cima da qual se erguia um vulto de santo, velado por um manto púrpura. A porta foi cautelosamente fechada atrás deles, e o manto foi retirado, desvelando uma imagem de santa esculpida em pedra.
   - Nossa Senhora da Conceição! - apresentou o vendedor - esculpida em pedra de Ançã ao estilo das obras de Mestre Pêro de Coimbra. A pedra foi envelhecida por processos químicos, pelo que aparenta ter quatro ou cinco séculos. O senhor prior poderia até apresentá-la à congregação como se tivesse sido encontrada nas proximidades da igreja ou junto a alguma das capelas da paróquia - e percebendo a hesitação na expressão do padre, apressou-se a acrescentar - mas esta imagem possui outras virtudes, que não sei se estará pronto para escutar...
   - É claro que sim! Estou pronto para tudo!
   - Seja...vivemos tempos de vazio e descrença, e temos de lutar contra isso. Esta imagem tem um espaço oco na cabeça, ao qual se acede retirando esta cubo de pedra na nuca - explicou, exemplificando - aqui dentro, como pode ver, existe um pequena embalagem com um líquido avermelhado espesso, que dois tubos finos ligam aos olhos da imagem. Os orifícios nos olhos são mínimos e precisos, com dois micros e meio de largura. Percebe o propósito do artifício?
   - A imagem chora sangue! Mas como é que isso é feito? Há algum mecanismo ou motor?
   - Não, nenhum, e esse é o maior trunfo que ela tem. A proximidade entre o nível do líquido e os orifícios nos olhos é uma coisa mínima, quase microscópica. A única coisa que tem de fazer é colocar a imagem num nicho da igreja onde ela receba Sol ou, se não existir um nicho adequado, em cima duma mesa pequena que funcione como um altar subsidiário. O pouco calor que receba fará com que ela verta uma ou duas lágrimas de sangue ao princípio da tarde, todos os dias, o suficiente para gerar o efeito que se pretende. E já pode imaginar o que se segue, rumores, reportagens, peregrinações, multidões a acotovelarem-se nos degraus da igreja, os penitentes a cumprir as suas promessas...
   - Isso parece-me muito hábil, e tentador, se me permite a palavra. O meu receio, é que algo possa correr mal e tornar-se pior a emenda que o soneto...
   - Não tem nada a temer, nós mesmos levamos a imagem, colocamos no lugar adequado, e aferimos as condições do seu funcionamento. E, se por acaso, alguém começar a fazer muitas perguntas, ou esperar uma verificação dos factos por parte dos seus superiores eclesiásticos, tem apenas de esperar que a igreja feche para retirar da imagem a depósito de líquido e lavar a face da imagem com álcool. Julgo que isto corresponda ao que procurava...
   - Decerto que sim, na verdade, excede as minhas melhores expetativas. Enquanto estava a ouvi-lo, ocorreu-me que, pelo menos, nos primeiros tempos, poderíamos tentar reforçar o aspeto miraculoso da imagem, acrescentando-lhe algum elemento feérico e maravilhoso...
   - O que é que tinha em mente?
   - Alguma forma de libertar pequeníssimas quantidades de metano, que ardesse em contato com as velas da igreja, criando uma espécie de fogos-fátuos a que ninguém ficaria indiferente. Como vocês são tão engenhosos...
   - O senhor prior é que se está a revelar muito engenhoso, diria mesmo, um Ulisses de Cristo. Julgo que a sua proposta é exequível, e que poderemos pô-la em prática quando instalarmos a imagem na sua igreja. Alguma coisa mais?
  - Não sei como dizer isto, mas vim de muito longe com a mala carregada de dinheiro e, como não conheço nada nem ninguém nesta cidade, agradeceria que me desse algumas indicações de como encontrar um bom lugar para pernoitar e comer, ou talvez, um ou outro estabelecimento noturno onde possa desanuviar um  pouco a cabeça de tantos problemas e preocupações com a paróquia e os paroquianos.
   - Farei melhor, consigo-lhe uma cicerone privativa, uma das nossas empregadas, que é muito prestável e diligente e o conduzirá melhor do que Medeia pelos labirintos de diversão da nossa cidade. O trabalho ao serviço de Deus consegue ser muito esgotante...
   - Sem dúvida que sim, muito esgotante mesmo...

Miniatura 15

A aliança

   Aproximou-se da berma da cama onde a sua amante se vestia, ajudou-a com o fecho do soutien e, enquanto ela envergava a blusa, ele estendeu-lhe uma caixinha quadrada revestida de veludo azul. Ela fez um ó de surpresa com a boquinha de bâton esborratado, e abriu-a (à caixinha, bem entendido). Um anel com uma pedra preciosa iluminou-lhe o olhar:
   - Amor, é lindo! Obrigada!
   Ele pigarreou e floreou o seu pequeno discurso.
   - Para mim simboliza uma aliança. Não és a minha esposa legítima, mas preenches esse papel aos meus olhos, aos olhos de Deus, aos da recepcionista lá embaixo, do ascensorista e das duas ou três criadas que nos arrumam o quarto. Espero não me ter esquecido de ninguém, porque também não me convinha que muitos olhos admirassem esta nossa união abençoada no altar da paixão.

Miniatura 14

Rémora

  Um dos sábios mais conceituados dos laboratórios Techlab, o doutor Ernest Gomazo, foi quem iniciou a pesquisa revolucionária para criar um novo marco na saúde oral: criar nano-robôs de dimensões microscópicas que limpariam constantemente os dentes, erradicando os resíduos deixados pelos alimentos, bebidas e tabaco; e impedindo a formação do tártaro.
   Quando o projeto ficou concluído, o doutor Gomazo ofereceu-se para testar o processo, e os nano-robôs foram implantados na sua boca. Logo na primeira semana de ensaio, tornou-se claro e visível que os nano-robôs precisavam dalguns ajustes porque o doutor Gomazo, com a sua diligente acção, perdera todos os dentes, as gengivas, e uma porção considerável da língua.

Miniatura 13

   Wilhem, o velho Wilhem, gosta de passear pelas praças da cidade e alimentar os pombos como qualquer velho. O seu lugar preferido na sua amada Berlim, é um banco próximo às Portas de Brandemburgo, onde fica sentado durante horas com um olhar profundamente triste. Aí, Wilhem não tira fotografias à quadriga majestosa no topo da Porta, nem aos altos-relevos que adornam os seus arcos. Wilhem não posa para fotos, e nem mesmo alimenta os pombos. Olha apenas. Lembra-se nitidamente de quando as Portas de Brandemburgo integravam o Muro de Berlim, e é essa memória que regressa a si de cada vez que olha para as Portas porque, ao contrário dos turistas e dos ociosos, Wilhem ainda consegue ver as vítimas do Muro, as suas sombras torturadas, ceifadas por longínquos disparos de metralhadora quando correm em desespero para um futuro que nunca alcançarão. Já surpreendidas e mortas, as sombras erguem para ele o olhar torurado e regressam, arrastam-se para o outro lado do Muro, para uma nova fuga, tão ominosa como a pedra de Sísifo.

As dúvidas do autor afortunado


    «Houve um tempo, em que os Assírios atravessaram o canal do Suez para conquistar a cápsula do tempo que os londrinos haviam erguido sob as areias, coberto de pedras gigantes até formar uma pirâmide gigantesca.
   «Não, não pode ser assim!
   «Houve um tempo em que o califa de Bagdad tentou fugir por entre as movimentações de tanques de guerra, com longas barbas e disfarçado de mendigo, mas foi capturado e morto, enquanto os sacerdotes de Enlil sacrificavam anhos pela fertilidade do rio Eufrates.
   «Não, também não pode ser assim, não faz muito sentido.
   «Houve um rio na Arcádia cujas águas humuosas tinham a coloração avermelhada, que os camponeses atribuíam ao costume que possuíam as mulheres com o mênstruo de se purificarem nas suas águas ou, dizem outros, do sangue sacrificado nas suas margens a um ídolo do Minotauro erguido por cretenses fugidos da ilha quando os americanos a devastaram.
  «Não sei se isto pega. É tarde e estou cansado. Não me ocorrem mais ideias para escrever mais um êxito editorial com vagas ligações ao mundo que todos conhecem.
   «Talvez se eu diversificar um pouco no próximo livro, e tentar uma daquelas histórias fáceis que invocam um manuscrito maldito ocultado pelo Vaticano, e cuja posse poderia desvendar a verdadeira identidade de Deus; ou o segredo da Pedra Filosofal cifrado no "Gargântua"de Rabelais».

Miniatura 12

   O pequeno bando de aves voava para sul numa formação em vê. Os dois amigos ficaram a observá-las enquanto aquela letra irregular era visível para além da torre de controlo do aeroporto, e se esbatia ao longe no horizonte arroxeado. O Marco reuniu-se-lhes a acenar com a passagem aérea, sorridente e bem disposto. Parecia desenquadrado, com as suas calças finas, a camisa de manga curta aberta no pescoço, e aquele sorriso pateta de satisfação, de quem acaba de entrar numa praia de Verão abraçado a uma morena seminua.
   - Lá fora parece estar um frio de rachar - observou, como se isso não fosse óbvio para todos - e eu vou outra vez com as aves.
   - Voltas na Primavera, não é verdade?
   - Claro, mas não sem antes me informar como está o clima na Europa. O ano passado vim cedo demais e ia congelando por cá. Querem que vos traga alguma coisa do sul quando regressar?
   Os dois amigos menearam negativamente a cabeça, e o Marco sentiu uma ponta de pena deles.
   -Trarei tâmaras do Magrebe, ou talvez um narguilé, para organizarmos uma festança a assinalar o meu regresso. A menos que vocês se resolvam a aparecer lá, e fazemos a festa na mesma...
   Eles esboçaram uma sombra de sorriso, para alívio do Marco, que os abraçou e se encaminhou para a porta de embarque a agitar infantilmente os braços como se fossem as asas duma ave migratória.
- Eu acho que o que ele gosta mais nestas viagens anuais, é de se divertir com a nossa cara de parvos - murmurou discretamente um dos amigos, enquanto retribuíam os acenos do amigo que partia.


Miniatura 11

   O jarro cresceu junto à janela da cozinha, despontando dum pequeno canteiro onde nada mais medrava do que ervas e trevos, cresceu muito, e as suas flores brancas com o pedúnculo amarelo alegravam a vista a quem olhasse o exterior a partir da janela da cozinha. Aquela planta deu-se muito bem ali, e as suas flores acariciavam o vidro frio com o toque macio do cálice. Nunca ninguém se perguntou porque é que aquela planta se dera tão bem ali, num canteiro de terra pobre onde só as ervas e os trevos encontravam sustento; porque ninguém pensa nas plantas como seres autónomos com vontade e desejo. Se porventura o fizessem, teriam notado que no umbral da janela da cozinha, repousava, negligenciada, uma pequena molheira em estanho, cujas forma se assemelhava à do jarro, e cujo brilho, dum prateado fosco, era merecedor do fascínio de qualquer flor.

Miniatura 10

    O marido de Laura é um homem sensível, um sentimental. Também não tem passado muito bem dos nervos. É frequente acordar a meio da noite, aos gritos, sacudido por algum pesadelo. Laura sente pena dele e tenta acalmá-lo, abraça-o, faz-lhe festas na cara, segredando-lhe palavras tranquilizadoras ao ouvido. Por vezes isso excita-o, ou a ela, e acabam por se acariciarem e beijarem até consumarem o ato. Mas, na realidade, o marido de Laura nunca se sente muito seguro, e continua com uma réstia de medo a coruscar no seu íntimo, a mesma que urde os seus pesadelos e tempera de angústia os seus dias. Porque ele, e as suas feridas e equimoses, nutrem um medo que raia o terror, da mulher, Laura.

Conto escrito a duas mãos - 7



EVAN
   Evan possuía um dom, que nascera consigo e ao qual chamava transparência - quando estava junto a um objeto, fosse qual fosse, conseguia por vezes sentir todo o seu interior, o emaranhado de átomos da sua estrutura, e a cadeia intrincada de elementos e energias que o estruturavam num delicado e feérico equilíbrio quântico. Quando entrou na adolescência, nessa idade de mutações e fenómenos, esse dom estendeu-se aos seres vivos - plantas e animais. Apreendia, num mergulho cognitivo involuntário, não apenas as suas características biológicas e atómicas, mas também, o que era um elemento acrescido de espanto, as suas reações emotivas e as suas sensações. Nunca imaginara o grau de intensidade com que um cão ou um inseto podiam sentir medo ou angústia, e nunca supusera que uma planta podia comunicar sinais muito semelhantes aos dum animal com fome ou dor.      
   Nesse estádio do seu dom, Evan já se sentia assoberbado, a extravasar de conhecimento intuitivo, mas a sua progressão não terminara aí. Nos primeiros anos da sua juventude, mais rigorosamente, na primeira vez em que penetrou uma mulher, em que esteve dentro doutro ser, esse dom libertou-se dos últimos resíduos do seu casulo, e Evan sentiu estender-se às pessoas as suas faculdades de transparência. A partir desse dia, quando estava com outras pessoas, chegava-lhe num aluimento fortuito o conhecimento daquilo que elas encerravam em si.
   Quando percebeu que podia percecionar toda a gente ficou com medo.Medo de penetrar no mais negro de todos os seres vivos- nas angústias e emoções de todos quanto o rodeavam. A intensidade de sentimentos era tão forte  como o odor do mais negro café africano. As pessoas cheiravam a suor e a perfume. O ser humano transportava a semente da destruição. E da beleza também.
   Pensou, então, em domesticar o seu dom. Procurou um hipnótico que lhe bloqueasse as sensações da semente da destruição e aspirou a doçura da beleza humana. A humanidade floresceu no seu coração. Evan acabou canonizado por todas as religiões do mundo porque, viu-se, conseguia acreditar na redenção da Humanidade.

Escrito por José e Maria

Miniatura 9

   Bioy Casares está sentado a uma mesa do café La Giralda de Buenos Aires na companhia de Borges.
   - Meu amigo, acabei de escrever esta manhã o último dum naipe de contos que constituirá, quiçá,  o mais celebrado livro de contos do nosso país! - anuncia em tom de brincadeira.
   Borges não mostra sinais de perturbação, e saboreia demoradamente o seu Quilmes.
   - Já os terminastes, então?...
   - Sim, como te tinha dito ainda agora.
   - E dar-me-ás o gosto de te ouvir a lê-los do primeiro ao último conto?
   - Sim, certamente, como sempre...
   - Então, não tenho motivos para sentir inveja de ti. Tu escreveste esses contos, mas a tua narração permitirá que eu viva dentro deles. Tirarei mais proveito deles sem que me seja exigido qualquer esforço.

bloco de notas -1

   Para uma pessoa que não tenha estrutura que aguente, as músicas que se ouvem nas lojas e hipermercados na época de Natal são um estímulo poderoso para que ela corte as veias, enforque-se, beba uma litrada de ácido sulfúrico, e dê um tiro na cabeça (não necessariamente por esta ordem). E, se no fim de tudo isto, ainda se lembrar das ditas músicas, pode ainda tentar arrastar-se até à rua para se atirar para debaixo das rodas dum camião Tir.

Miniatura 8

   Quase todas as pessoas possuem um pequeno garrote na garganta, uma válvula que a fecha nos momentos oportunos. Sentem raiva, dor, desespero, vontade de ferir com palavras e de com elas açoitar, trespassar, invocar deuses furiosos e tempestades terríveis. Esse pequeno garrote coíbe-os de o fazer, ergue a represa diante das palavras revoltas, amaina a lava que ferve no fundo do abismo e que, assim contida e fechada, calcina o seu íntimo e as mais fundas raízes das suas emoções. Uma vez ou outra aparece-nos alguém cujo garrote se desfez e ficou inoperante, e que por isso anda pelas ruas a gritar injúrias e insultos com a boca a espumar de raiva, libertando aos ventos o calor das extrusões amargas do seu íntimo. Só nos merece pena, e apodamo-lo de louco enquanto prosseguimos a nossa aveludada trilha de carneiros mansos.

Miniatura 7

   A vida é muito simples, dentro dos seus limites e circunscrições sumárias: o que está vivo, não está morto; o que está morto, não está vivo. Tudo continuaria bem e simples se nos ficássemos por aqui. O que não é assim tão simples é o círculo exterior, a margem de transição onde a vida e a morte se mesclam e se substituem, incomodando uns e outros nos dois lados do perímetro da vida. Sei dum homem que se convenceu de que estava morto e que todos os dias se enchia de perfume para disfarçar o cheiro a carne podre (que só as suas narinas captavam), e que chorava de forma patética diante dos filhos porque já não poderia viver com eles o dia seguinte. Também, é claro, sei de mim mesmo, e da estranheza que me suscita tudo o que me rodeia, sobretudo, as pessoas que moram agora na minha casa e dormem na minha cama, e a dificuldade que tenho em encontrar os meus próprios livros e escritos que elas, tão displicentemente, encafuaram em caixotes no sótão da casa, como se fossem uma coisa velha e sem préstimo (como realmente é). A casa dum homem solitário devia morrer com ele por forma a ter onde regressar, e lavorar estas futilidades enquanto olha o mundo através das suas janelas de névoa.

Miniatura 6

   Quando soube que nos calabouços do seu palácio, estava preso um escultor veneziano, o sultão mandou que lhe tirassem as grilhetas e que o conduzissem à sua presença. Através dum intérprete, explicou-lhe:
   - Cristão, soube que és escultor e acontece que os jardins do meu palácio estão a precisar duma escultura diferente e grandiosa, como aquelas que se lavram para os palácios da tua cidade. Aceita essa incumbência,  e, se a escultura for do meu agrado, dar-te-ei a liberdade e um punhado de ouro e terás à tua disposição um navio para te levar de volta ao teu lar no Adriático.
  O escultor veneziano concordou, e entregou-se ao trabalho que lhe fora encomendado. Uma semana depois, e avisado pelos guardas, o sultão foi admirar a obra acabada do escultor. Este esperava-o num recanto dos jardins do palácio, e com um gesto largo apontou ao sultão a sua obra. O sultão sentiu as faces afoguearem-se de indignação. O que o escultor lhe apontava era um árvore, um dragoeiro com folhas e flores, em volta de cujo tronco se enrolava uma serpente gigantesca que, com esforço, abocanhava o corpo dum cordeiro cujos quartos traseiros ainda estavam fora da sua cabeça.
   - Isto, que dizes ser obra tua - fez saber pelo intérprete - não é uma escultura, mas seres vivos, árvores e animais como todos os outros.
  - Perdoe-me, majestade, mas as suas palavras apenas revelam que o sultão não sabe o que é a arte!

Miniatura 5

   O ascensorista morreu durante o sono.
   A sua alma elevou-se então até ao paraíso num percurso vertical retilíneo. Enquanto subia, trauteava o opus 111 de Brahms, que repetiam obsessivamente no elevador quando trabalhava.
   Chegado às portas do paraíso, foi-lhe explicado que o seu volume de faltas era demasiado dilatado para permanecer ali, e foi-lhe indicado que descesse ao purgatório para expiar algumas delas; e o ascensorista desceu em linha reta e direita até ao lugar onde antes existia o purgatório. E ficou por ali com as portas do ascensor abertas, parado, grosso modo, no limite entre a troposfera e a estratosfera, sem saber o que iria acontecer a seguir, e esperançado que alguma potência celeste ou uma alma caridosa lhe dissesse se devia subir ou descer. E ficou à esperou, por evos, sempre a trautear o opus 111 de Brahms.


Dia 4 - Miniatura 4

   - A nossa cidade está a precisar de renascer!
   Quem o afirmava era Rosália, jovem universitária, defensora acérrima do meio ambiente. Era uma mulher estranha, enérgica e cheia de força. Os seus olhos escuros e intensos faziam-me lembrar os retratos de Frida Kahlo.
   Rosália explicou-me como é que se cultivava terrenos abandonados da cidade, à revelia dos seus longínquos proprietários. Moldavam-se bolas de argila humedecida, com fertilizante e um punhado de sementes do que se pretendia ver nascer, e atiravam-se para dentro dos baldios ou quintais desprezados. A chuva e a natureza cuidavam dessas bolas de sementes e, em pouco tempo, as plantas desejadas nasciam aí como em qualquer viveiro ou jardim cuidado. Na realidade, ela e os colegas não andavam preocupados em fazer nascer florzinhas e trepadeiras bonitas, preferiam as espécies hortícolas, que podiam revelar-se de alguma utilidade para alguém. E mostrou-me alguns terrenos desprezados onde elas cresciam já. Havia alguns sem-abrigo e toxicodependentes que apadrinhavam algumas dessas plantas, cuidando delas e dos seus rebentos, e ganhando o privilégio de poder comer alfaces, pepinos ou tomates. Quando completávamos o tour pelos lugares de jardinagem clandestina, passamos por um - um pátio no centro dum prédio em ruínas - onde as plantas me pareceram familiares, altas, de folhas largas e espalmadas com vários folíolos recortados.
   - Cannabis? - perguntei, sabendo de antemão a resposta.
   Rosália, sorriu, e com o sorriso nos lábios encostou-os aos meus num beijo cúmplice.
   - Nem só de pão vive o homem, meu amigo - explicou - e olha que não fui eu que inventei essa...

Miniatura 3

     Ás vinte e duas horas do terceiro dia de Dezembro, e sentada na sua cama após as orações, Etelvina Gonçalves decidiu solenemente que iria deixar de sonhar, uma vez que todos os seus sonhos só lhe haviam trazido frustração e desgosto. Deitou-se em seguida e, como havia prometido a si mesma e a todas as potências do mundo, dormiu um sono sem sonhos. Naquela noite, a nenhum ser vivente ocorreu, por fortuito capricho, olhar fixamente a casa de Etelvina porque, se o houvessem feito, teriam visto os seus sonhos a abandoná-la como um enxame de pirilampos, a cruzar a noite escura em busca de um novo lar.

Miniatura 2

   - Vamos reconstituir o crime! - anunciou o agente da polícia, dando como ultimada a elaboração dos preparativos.
   Trouxeram a vítima numa liteira, com cabeça rachada ao meio, e golpes angulares de acha no meio das costelas. O sangue já secara e, por decência, cobriram-na com um pequeno lençol.
   À hora que haviam anunciado no jornal e na rádio, o assassino compareceu com pontualidade. Estacionou o carro defronte da casa da vítima, subiu calmamente os degraus da entrada e deu a sua entrada na sala, onde todos pasmaram com a sua identidade. Sem se deixar perturbar pela atmosfera em redor, foi buscar o machado a um armário da cozinha (onde ninguém se lembrara de procurar), segurou pelo cabo e avisou:
   - Quando quiserem que comece, estou pronto!

Miniatura 1

     O rato de laboratório era cuidado e alimentado a horas certas. Por vezes, sem que ele tivesse entendimento para perceber o motivo, tiravam-no do encarceramento, davam-lhe a comer uma ração com um sabor esquisito, e largavam-no dentro dum intrincado labirinto do qual tentava sair como podia, enquanto uns homens enormes de bata branca cronometravam os seus progressos, e registavam notas em pequenos caderninhos. Um dia, por acidente, ocorreu uma explosão no laboratório, e as paredes frágeis do labirinto voaram pelos ares. O rato minúsculo prosseguiu a sua corrida, saiu do laboratório por uma grelha de ventilação e só parou quando se viu no exterior, rodeado pela noite e pelas ervas. Parou um instante, e hesitou devido ao medo do desconhecido. Sentia-se tentado a regressar ao laboratório iluminado, ao seu viveiro e à alimentação sem esforço mas, por fim, encheu-se de coragem e embrenhou-se na noite funda, onde, não só viria a lograr alimentar-se e acasalar sozinho, como arranjou um emprego noturno e dedicou todo o tempo livre à consciencialização política da sua espécie.


Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...