O advogado do demo


O velho entrou no salão do palácio com a graça dum pombo sem penas, a arrastar pelo chão o seu manto velho e sujo. O bei, deitado no colo duma concubina, seguiu pelo canto do olho os movimentos daquela criatura cuja corcova oscilava dum lado para o outro como a bossa dum dromedário e, quando o sentiu mais próximo, soergueu-se no tapete púrpura e fez um gesto à odalisca para se afastar um pouco. O velho fez uma vénia cheia de ademanes, ainda que o bei permanecesse de olhos fixos na sua escrava seminua que agora se reclinava sobre um tanque quadrado com nenúfares. O Sol, irrompendo pelos arcos da janela grande, encarniçava o brilho cálido da sua pele morena.
Mas a tensa expetativa do seu súbdito disforme reclamava a sua atenção. Agitou os dedos duma das mãos como se sacudisse gotas de água, e o velho começou a falar.
- Os teus súbditos ingratos andam outra vez pelas ruas a dizer injúrias a teu respeito. São uns néscios cuja gratidão e memória são como a chama duma lamparina com pouco azeite – apaga-se num sopro. O que eles dizem, meu senhor, e que a tua ira não recaia sobre mim como a lâmina duma adaga, é que a tua generosidade deixa muito a desejar e, cheios de falsidade e veneno, comparam-te com Abdul de Bursa, esse exemplo de mesquinhez, que deixava o povo morrer à fome, e que criou um jardim com plantas falsas urdidas com vime e papel para não gastar um grão de ouro que fosse nos jardins do palácio.
- E que comparação fazem eles entre mim e Abdul?
- Dizem que, comparado contigo, Abdul é tão generoso como o poderoso Iskhandar.
O bei soltou um pequeno rugido de fúria, e esfregou nervosamente a cabeça ornada com um turbante púrpura.
- São estúpidos como animais, e ingratos como um elefante de pedra – lamentou-se o bei como se mastigasse as palavras.
- Certamente que sim, uma vez que já esqueceram tudo o que o meu senhor já fez por eles
- Precisam novamente de uma lição.
- Certamente que sim, porque só assim aprendem.
- Falta uma semana para a festa das colheitas. Amanhã, quero que chames ao pátio do palácio todos os homens da cidade. Escolherei um para servir de exemplo a essa turba de ingratos.
- Assim farei, enviarei emissários para anunciar as suas ordens, porque não me atrevo a fazê-lo em pessoa porque são bem capazes de me lapidar ou esfaquear-me, tal é o ódio que me têm.
E o velho eclipsou-se do salão como uma nuvem parda dum céu claro, deixando o bei a ruminar o seu rancor e frustração. No dia seguinte, e após o segundo chamado do Almuaden, todos os homens viris confluíram para o pátio do palácio. Com o bei sentado numa varanda, bem à vista de todos, alguns servos lançaram pétalas das torres sobre a multidão, e com os músicos do palácio a perfumar o ar com os acordes dos seus instrumentos, entrou no pátio um eunuco gigantesco com uma odalisca sentada sobre os seus ombros. Assim alcandorada naquele ser elefantesco, a mulher de véu parecia uma aparição sobrenatural, e toda a multidão ficou tolhida por um silêncio quase religioso, enquanto o eunuco caminhava pesadamente por entre as pessoas. Ela fê-lo deter-se diante dum jovem que os seus olhos haviam elegido, desceu da garupa, e colocou na cabeça desse jovem uma espécie de coroa de ramos de oliveira alegrada com algumas flores de crocos de cor alilasada. Cumprido aquele rito, que já começava a tornar-se um hábito na vida da cidade, a odalisca e o eunuco entraram pela mesma porta por onde haviam saído, e a multidão voltou calmamente às suas casas e tendas, deixando para trás o jovem eleito, que três guardas façanhudos e armados escoltaram para dentro do palácio.
O jovem não receou nem temeu pela vida e sentia-se, em vez disso, tomado por uma eufórica ansiedade. A sua escolta deixou-o à porta do harém do bei. A dama tutelar do harém introduziu-o num salão impregnado de perfume onde o aguardava uma centena de belas mulheres languidamente deitadas sobre tapetes e canapés, perante as quais ele sentiu o coração bater-lhe com força no peito como tamborins desenfreados a anunciar a sua entrada no paraíso. Era difícil crer que pudesse existir tanta beleza reunida num só lugar da terra. Pediram-lhe que escolhesse uma delas e não foi capaz, e a matrona chamou uma delas por ele, uma mulher pequena e carnuda de tez pálida e cabelos cor de trigo. Ela pegou-lhe pela mão e dirigiram-se à saída, onde os guardas os escoltaram até ao solitário torreão octogonal que se erguia no ponto mais afastado dos jardins, circundado por tanques com plantas aquáticas, jardins de flores e acéquias murmurantes. Aquele torreão foi o refúgio edénico dos dois durante uma semana, uma semana de deleite e prazer, onde à dedicação sensual daquela jovem acresciam banquetes sultânicos, e noites encantadas com a voz cristalina daquela dama a amansar a Lua com os seus cânticos setentrionais numa língua desconhecida.
No final da semana, quando pela cidade já se haviam iniciado as festividades das colheitas, o jovem de rosto radioso regressou à cidade a encabeçar uma caravana de carroças preparada pelo bei. As carroças estavam carregadas de pão e azeite, sal e farinha, e a multidão aformigava-se em volta a recolher esses bens para as suas famílias.
Na varanda do palácio, o bei admirava toda essa euforia, tendo ao seu lado o seu conselheiro corcunda, dissimuladamente feliz. As pessoas davam largas à sua alegria e corriam até ao palácio com as pontas dos mantos enrolados em bens da caravana, e gritavam alto em homenagem ao bei:
- Iskhandar! Generoso Iskandar.
Ao lado do cadeirão do bei, e com voz mansa para não perturbar o contentamento do seu amo, o conselheiro lá ia dizendo:
- Vamos ver quanto tempo resiste toda esta gratidão. Vamos ver…



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