Hespéra


  Viu-a no umbral da entrada dum prédio. Não pretendia enganar ninguém, com as suas roupas apertadas, a mini-saia subida, as pernas gordas com meias negras, e os esguios sapatos de cunha. Tinha o cabelo frisado, e com ar de desleixo, e camadas de pintura cobriam-lhe a cara. Ela fez-lhe um gesto a convidá-lo, mas ele negligenciou a oferta e continuou a descer a rua com passadas largas, mas depois estacou e regressou para perto dela.
  - Não quero nada consigo – foi avisando – apenas fazer-lhe um reparo – a pintura exagerada que usa na cara já não consegue disfarçar as rugas.
  A dama da noite não perdeu o sangue-frio.
  - Eu também não iria querer nada consigo – retribuiu – porque os impotentes costumam achar que não precisam de pagar o tempo que perdemos com eles.

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