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A mostrar mensagens de Novembro, 2012

Hespéra

Viu-a no umbral da entrada dum prédio. Não pretendia enganar ninguém, com as suas roupas apertadas, a mini-saia subida, as pernas gordas com meias negras, e os esguios sapatos de cunha. Tinha o cabelo frisado, e com ar de desleixo, e camadas de pintura cobriam-lhe a cara. Ela fez-lhe um gesto a convidá-lo, mas ele negligenciou a oferta e continuou a descer a rua com passadas largas, mas depois estacou e regressou para perto dela.   - Não quero nada consigo – foi avisando – apenas fazer-lhe um reparo – a pintura exagerada que usa na cara já não consegue disfarçar as rugas.   A dama da noite não perdeu o sangue-frio.   - Eu também não iria querer nada consigo – retribuiu – porque os impotentes costumam achar que não precisam de pagar o tempo que perdemos com eles.

Demência

Faleros enlouqueceu, diz que ouve sereias junto à costa. Sereias! Se isso cabe na cabeça de alguém. E agora deu para ver se as consegue encontrar. Desce a arriba até à praia, esquadrinha os destroços de trirremes que apodrecem nos rochedos e anda ali para trás e para a frente até a Lua se erguer nos céus. Quando regressa, Faleros vem a sorrir, diz sempre que não as viu mas que conseguiu ouvir alguns ecos dos seus cânticos em meio ao murmúrio das ondas. Já não sei o que fazer com Faleros! Como se nós, os sátiros, nos pudéssemos permitir tais fantasias.

O advogado do demo

O velho entrou no salão do palácio com a graça dum pombo sem penas, a arrastar pelo chão o seu manto velho e sujo. O bei, deitado no colo duma concubina, seguiu pelo canto do olho os movimentos daquela criatura cuja corcova oscilava dum lado para o outro como a bossa dum dromedário e, quando o sentiu mais próximo, soergueu-se no tapete púrpura e fez um gesto à odalisca para se afastar um pouco. O velho fez uma vénia cheia de ademanes, ainda que o bei permanecesse de olhos fixos na sua escrava seminua que agora se reclinava sobre um tanque quadrado com nenúfares. O Sol, irrompendo pelos arcos da janela grande, encarniçava o brilho cálido da sua pele morena. Mas a tensa expetativa do seu súbdito disforme reclamava a sua atenção. Agitou os dedos duma das mãos como se sacudisse gotas de água, e o velho começou a falar. - Os teus súbditos ingratos andam outra vez pelas ruas a dizer injúrias a teu respeito. São uns néscios cuja gratidão e memória são como a chama duma lamparina com pouco az…

A lenha e o fogo

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A jovem era mesmo bela, para quem gosta de mulheres de pele metálica, olhos artificiais com safiras incrustadas no lugar das pupilas e cabelos encordoados de barba de milho. O Homem de Lata gostava. Seguia-a por todo o lado, cortejando-a, como se dizia no tempo dos nossos avós. Adulava a sua beleza, tecia piropos melosos à sua beleza e à beleza da sua voz, e orquestrava gestos galantes à sua passagem. Fosse o Universo uma pauta de uma só nota, e aquela mulher era a única nota verdadeira para o Homem de Lata; tivesse a vida apenas mais dois segundos de duração e o Homem de Lata não poderia imaginá-los sem ela.
  Ainda que fosse incerto o destino dessa paixão, o que era certo é que o Homem de Lata encontrara finalmente o coração.

Os meios e os fins

Atingiu a fama com obras estereotipadas sobre mistérios templários, sagas de vampiros, e personagens insípidos em busca de iluminação. A fama trouxe-lhe dinheiro, notoriedade e mais obras idênticas. Quando está só, dá consigo a pensar nas suas nebulosas origens em que ambicionava atingir a fama com literatura. A memória desses tempos assombra-o, e o escritor que antes foi mantém-se resguardado numas esconsas águas-furtadas em que manuseia memórias e visões, e se delonga na pequena janela a enamorar-se da paisagem e da lonjura.
Nos jardins do escritor consagrado, as flores dum dos canteiros cheiravam melhor do que João Doe, e as pétalas e as sépalas das palmas e petúnias farfalhavam sob a brisa com mais ruído do que João Doe.    O João Doe destes dias já não reclama nem chantageia. Serve de adubo às flores dos jardins do escritor consagrado.    E nem mesmo por isso lhe reconhecem o mérito.

[ainda o escritor-fantasma...]