Quinze minutos de lama



Argüillo Newman, o último homem absolutamente honesto do planeta, foi acordado pelo toque repetido da campainha da sua porta. Levantou-se às pressas da cama, vestiu o seu roupão de mandarim, abriu-a e quase cegou com o brilho dos holofotes e flashes de fotógrafos. Estavam ali todos para o entrevistar e dar a conhecer, e atrás deles vinham os outros, um exército fantasma tão vasto e numeroso como o do imperador  Quin, composto de milhentas vozes e opiniões sobre ele que iriam ser soltas despassaradamente em locais de trabalho e talhos, transportes públicos e bares, e com acréscimo inevitável de likes e partilhas e retweets nas redes sociais, além de perguntas e respostas absurdas que fosforesceriam em chats e blogues. Mas isso já sobejava, e para Argüillo já era suficientemente sufocante aqueles que tinha à sua frente.
Convidou-os a entrar ou foi empurrado por eles para o interior (um pouco de ambos), e começaram a chover perguntas e a serem colhidas imagens para as ilustrar. Encurralado, sem brecha nenhuma por onde escapar, entrou no jogo, sorriu sem ter vontade, balbuciou respostas e justificações que não formularia numa situação normal (com contradições pelo meio), cedeu com afirmativas a perguntas que nem sequer ouvira como deve ser, e supriu com histórias de recurso as lacunas da sua memória tolhida pela voragem humana em volta.
Argüillo foi estudado e dissecado até os media se sentirem satisfeitos. E partiram todos num ápice, de regresso aos seus pombais de notícias, mas, pelo caminho, todos eles se deram conta de que a notícia, propriamente dita, já não existia e que Argüillo já não era o último homem absolutamente honesto do planeta e, a partir daí, ou faziam um lead negativo a iniciar uma peça entediante de jornalismo, ou omitiam tudo e procuravam outra matéria de interesse. Esta, foi a decisão unânime de todos, e o dissecado Argüillo foi deixado para trás. A pele ensanguentada enrolada numa trouxa e deixada num parque de contentores de lixo, os sacos com a carne e os órgãos atirados para becos escuros onde os cães vadios se escondiam e os ossos, esses ficaram embrulhados no roupão de mandarim, que foi largado na bagageira da carrinha dum estúdio de televisão, enquanto os seus ocupantes pensavam no que iriam fazer com eles. Nenhum deles sabia, honestamente.

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