O escoliasta

     O homem, um homem comum, comprou num alfarrabista uma obra enorme que o interessou sobremaneira. Era uma reimpressão, dita "fidedigna" pelos editores no prefácio, duma obra bizantina sobre a imortalidade, a sua natureza e o modo de a alcançar, um livro volumoso, paginoso que, apesar dalgumas falhas nítidas de tradução e de um anúncio impresso que aparecia repetidas vezes a publicitar uma quinta de produção de leite, convenceu este homem de estar diante duma obra magistral e ignorada. Hermes da Silva se chamava este homem, não por fútil invenção do contista, mas por decisão dos pais na hora de o baptizar. Hermes levou aquele livro para casa, e dedicou-se a estudá-lo. Lia atentamente cada página, cada frase e cada palavra, e meditava sobre umas e outras, escrevendo nas margens sucintos comentários ou escólios sobre a seu possível sentido, as suas relações intrínsecas (fios de teia que mais ninguém parecia ver), a sua eventual aplicação nos valores da espiritualidade moderna.
     O tempo que Hermes passava com o livro era cada vez maior, tal como crescente se tornava o número de notas ao seu teor,e as vezes que tinha de ler uma determinada passagem do livro antes de colocar uma nota ao seu lado. Por vezes, por já não haver espaço nas margens do texto, já não escrevia as notas a não ser mentalmente, e da mesma forma voltava a elas para as refazer ou completar repetidas vezes. Como não havia tempo para mais nada, Hermes contratou um casal para lhe tomarem conta da casa e das roupas, e de lhe trazerem comida ao pequeno escritório onde trabalhava. Comia ali, dormia por ali mesmo num sofá a um canto, e só abandonava a divisão para tomar banho ou fazer as suas necessidades. A obsessão pelo livro era tanta que acontecia-lhe esquecer-se de comer, e só o fazer quando lhe traziam a refeição seguinte.
      Andou e viveu nisto até um dia se aperceber de que não tinha tinta para escrever as suas notas, e que, tinha agora consciência de há muito tempo (semanas? anos?) não ver pela frente o casal que contratara para cuidar dele. Afastou os cortinados desfeitos da janela, e abriu-a de par em par, fazendo-a pulverizar-se num monte de pó e lascas carunchosas de madeira. Assomou à janela e ficou pasmo. Um glaciar, um autêntico rio de gelo, ocupava agora a parte setentrional do vale, descendo do monte Jurat. Da sua aldeia já pouco restava, apenas ruínas, e edificações que mal se sustinham de pé. De súbito, apercebeu-se. Tornara-se imortal sem o saber, cumprindo com os ensinamentos daquele livro. Olhando melhor para o exterior, tornou-se óbvio que não vivia ali mais ninguém, e ninguém percorria as suas ruas além do vento alpino gelado.Voltou a sentar-se ao pé do livro. Não havendo tinta, teria que prosseguir redigindo escólios mentalmente, e também deveria ter de apreender o livro na sua totalidade, decorar cada uma das palavras e dos sinais que tão bem conhecia. Era uma tarefa gigantesca, mas não impossível de todo, porque agora dispunha de todo o tempo de que precisava.





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