O dia claro

     Por um capricho das condições atmosféricas, a cidade acordou inesperadamente limpa pela manhã. Um vento intenso e intermitente varrera as nuvens de fumo que se enrolavam sobre os prédios e ruas, ao mesmo tempo que a água ionizada da chuva limpava as poucas plantas da fuligem e da crosta de metais pesados, e removia a epiderme tóxica dos prédios, dos carros e das estátuas. Ao contrário do que seria de esperar, o dia claro não trouxe a felicidade às pessoas, que saíram à rua quase asfixiadas pela vitória do oxigénio sobre  o monóxido de carbono. Não reconheciam aquela cidade como sua. O ar era diferente e opressivo, as cores assustavam, a luz do Sol causava tonturas.Num ápice, encheram-se de pessoas as urgências dos Hospitais, os suicídios tiveram um pico inesperado para aquela hora da manhã, e toda a gente estava ao telefone, lamuriando-se para os familiares distantes, para pastores e gurus, para linhas telefónicas de apoio, para programas em directo da rádio e da televisão para manifestarem o seu desagrado e a sua aflição. Nesses mesmos programas, a edilidade ditou instruções precisas para todos os cidadãos. Todas as fábricas da cintura industrial da cidade receberam ordens para aumentarem ao máximo a combustão dos seus fornos de queima, e todos aqueles que possuíssem um veículo motorizado foram incitados a trazê-lo para a rua e carregarem no acelerador com a máquina em ponto morto, para reporem o monóxido de carbono na atmosfera. Como achassem que isso ainda não seria suficiente, alguns residentes mais afoitos tomaram a iniciativa de incendiarem contentores de lixo e pneus de carros no meio da via.
     Quando o dia chegou ao meio, já as coisas haviam regressado à sua quase total normalidade. Havia diminuído a afluência aos Hospitais, já não chovia pessoas dos prédios, e as crianças já brincavam nos passeios e nos parques. Aos poucos, as pessoas haviam retomado as suas rotinas, e comparecido nos seus locais de trabalho com um indisfarçável  alívio e um sorriso aberto e radioso, como ninguém jamais se lembrava de ter admirado nas caras das pessoas daquela cidade. A cidade sobrevivera ao dia claro!

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