Encontro às cegas (nova versão)


   Graciela nunca vira antes aquele homem ou, pelo menos, não se lembrava dele. Estava sentado a um balcão do bar onde fora com as colegas de trabalho, e fora ela quem metera conversa com ele, a pretexto de lhe pedir um cigarro. Ele cedeu-lhe um cigarro dos seus, beberam uns copos juntos, conversaram durante horas naquele ambiente enevoado e ruidoso, e depois das colegas de trabalho desistirem de se divertirem com eles à distância e abandonarem o bar, ela convidou-o para continuarem a beber no seu apartamento. Ele concordou, sem grande entusiasmo nem euforias, o que ela até achou encantador, de certa forma. Estava cansado de encontrar homens ansiosos e entesoados e que depois se revelavam desapontadores e dignos de dó. Quando chegaram ao apartamento dela, ela serviu-lhe uma bebida. Era um apartamento pequeno, com saleta e sala de jantar conjunta, com um arco a separar esse espaço do corredor estreito onde se anichava a pequena cozinha. A janela da sala estava virada a poente, tal como o seu quarto, para o qual se passava por um aro sem porta onde ela pendurara umas fitas coloridas que uma prima dela lhe trouxera duma viagem ao México. Mas o seu quarto era território sagrado que Graciela não franqueava a qualquer um. Enquanto ele sorvia o uísque, ela despiu-se completamente, e ajudou-o a despir-se também. Ele pareceu um pouco relutante, mas seguiu o seu jogo, e tiveram sexo no tapete da sala, uma e outra vez.  Depois Graciela levantou-se, foi-se lavar e, no regresso, explicou-lhe:
   - Não procuro um romance, nem sexo idílico, como deves ter percebido, e amanhã tenho de ir trabalhar muito cedo. Podes dormir aqui ou podes ir-te embora. Não ficarei ressentida com nenhuma das opções – e beijou-o antes de se refugiar no seu quarto.
   Quando se deitou em cima da cama, interrogou-se ociosamente qual seria a opção dele. Percebeu-o ao ouvir uma torneira a correr, passos, e o corpo pesado do homem a acomodar-se no velho sofá. Se ainda lá estivesse de manhã, teria de o acordar antes de sair de casa. Ou talvez lhe desse outra vez a vontade e fosse acordá-lo para mais uma ronda, ou ele a ela, e...adormeceu de imediato. Dormiu pesada e profundamente, e acordou com a luz.
    Abriu os olhos apenas uma nesga, o suficiente para divisar o mostrador digital do relógio e dar-se conta de que ainda faltava muito para amanhecer. Levantou-se e sentou-se na cama. C’um raio! Não dormira mais do que três horas e tinha tanto sono. A luz vinha da sala, e não podia ser do exterior porque fechara completamente a janela. Espreitou, intrigada. O seu hóspede dormia nu no sofá com uma das pernas pousadas no tapete, e o corpo dele emanava uma luminosidade ténue mas nítida, que atingia toda a divisão e que era reflectida no vidro da janela. Notou que não era uma luz constante, mas que tremeluzia a um ritmo regular, e que ela intimamente identificou com o batimento do coração.
   «Calhou-me o homem-néon!» - resmungou para si. Foi buscar um cobertor ao quarto, e tapou-o, mas este não era muito grande e a luz escapava-se pelas dobras do cobertor, e pelo lado da cabeça, que ficara fora do cobertor. Graciela voltou ao quarto, e vasculhou as gavetas da roupa até encontrar a sua máscara para dormir. Colocou-a sobre os olhos, e deitou-se na cama, quase no mesmo instante em que se começou a ouvir uma espécie de música parecida com acordes graves de violoncelo, e provinda também da sala ao lado.

*

Continuação da história por mão da Angela Schnoor:



Pela manhã, bem cedo, Graciela despertou e o homem já não estava, mas a música continuava e agora parecia segui-la até sair para o trabalho.
À noitinha, sem vontade de se divertir com as colegas, foi direto para casa e ao entrar ouvia os mesmos acordes, ainda graves, mas agora acompanhados de sons mais leves como os de uma pianola distante.
Quando, no meio da noite foi ao banheiro, começou a desconfiar que podia estar grávida pois, dentre suas pernas saía a mesma luz néon pulsante. Conseguiu disfarçar o efeito luminoso com muita roupa e deu graças por ser inverno.
Voltou várias vezes ao mesmo bar, mas nunca mais encontrou o tal homem. Só tornou a vê-lo meses depois quando a luz brotou de seu ventre sobre a cama e tomou a forma de um ser humano
E tinha a cara dele.

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