elegia

     "Repousa em paz!", murmurou com a voz empastada pela emoção, a mão direita amparando a cabeça pela nuca até ela tocar no chão - "tudo podia ter sido diferente, e tu podias ter sido tudo, tudo mesmo, um poeta ou um artista, ou um guerreiro como Heitor, podias ter descoberto a cura para o cancro ou a panaceia, podias vir a ser um imperador ou um Anticristo, uma maldição ou um verso...". Calou-se, dando largas à sua dor num pranto inconfidente. Em seguida, como se tivesse soado um alarme no seu espírito, conteve-se, controlou os gestos, e sufocou as palavras. Olhou em volta para se certificar de que ninguém o via e escutou por alguns momentos a silvo do vento por entre as árvores do bosque. O luar incidia sobre eles, projectando a sua sombra sobre o corpo do rapaz no fundo do buraco. Com gestos enérgicos, sepultou o corpo com pazadas de terra, e logo espalhou sobre o sepulcro improvisado alguns ramos quebrados de árvore e mato seco. Limpou o suor à manga da camisa, descalçou as luvas e regressou ao carro, cabisbaixo, como se regressasse dum velório - "Não me posso esquecer de dar os pêsames aos pais!", falou para si mesmo ao chegar ao pé de dois anónimos montículos de terra junto a um salgueiro-chorão.

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