As primícias da última manhã do senhor Andeiro


Andeiro, com os gestos e as rotinas com que os anos vão vestindo as pessoas, cumpria quase todas as manhãs os seus ritos useiros e costumeiros de todos os dias. Levantava-se sempre às sete (hora imposta a si mesmo, com a colaboração e cumplicidade dum velho despertador de corda), como aliás sempre fizera na sua vida anterior, durante as dezenas de anos em que trabalhara como revisor de comboio. E como era regra, manteve-a também naquela manhã. Acordou, fez a barba à máquina, e comeu umas tostas com doce de alperce e café forte sem açúcar. Em seguida, confirmou se o canário que mantinha engaiolado na marquise da varanda tinha água e comida para o resto do dia; e ainda com o roupão vestido sobre o pijama, mimou a orquídea envasada que tinha junto a uma janela na única parede do apartamento que o Sol contemplava com o seu calor. Vestiu-se então, irrepreensivelmente, e saiu do apartamento, tendo o cuidado de deixar uma cópia da chave na caixa de correio da senhoria, gesto significativo para os dois, com o qual ele habitualmente transmitia que se iria ausentar por um ou mais dias, solicitando dessa forma que ela fosse ao apartamento olhar pelo canário e pelas plantas. Quando atingiu a rua, Andeiro teve de proteger os olhos com a mão, porque o Sol ofuscava. Com o outro braço, aconchegava junto ao corpo um pequeno volume embrulhado em papel pardo. Desceu a rua com passos leves e airosos, saudou o Vieira da pastelaria que desferrolhava as mesas e cadeiras metálicas da esplanada, e parou um pouco mais abaixo no quiosque de jornais, onde espreitou alguns títulos dos jornais. O Menezes, no sombrio interior, lia um jornal com os óculos de aros redondos encavalitados na ponta do nariz, e trocou algumas banalidades com ele a propósito do tempo esplêndido daquela manhã de Outono. Despediu-se do Menezes, e continuou pelo passeio até ao largo da Sé, onde desceu as escadas de acesso ao Metropolitano. Olhou rapidamente para o relógio de pulso. Saíra do apartamento há vinte e dois minutos atrás. Meia-hora, e oito minutos. Meia-hora fora o tempo que programara para que explodisse a bomba que transportava naquele pequeno volume embrulhado em papel pardo. Oito minutos, era o tempo que restava.

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