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Animal de companhia

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   Para uma pessoa que viva sozinha, é saudável arranjar um animal de estimação, faz companhia e desenvolve um importante intercâmbio emocional que anula ou mitiga a desesperança e o vazio. Assim sendo, a solitária Leonor procurou encontrar um. Descartou a possibilidade de ser um cão ou um gato, por não lhe agradarem, e como vivia numa vivenda com um quintal murado em volta, a escolha foi absolutamente natural: comprou uma avestruz. E se, no início, ainda tinha algumas reservas, a decisão revelou-se, com o tempo, positivamente satisfatória.
   Com a avestruz,deixou de haver espaços vazios, mortos, como lacunas por pintar num quadro ou num cenário, a avestruz é uma ave que ocupa muito espaço, e que se desmultiplica ao estar sempre a correr de um lado para o outro. Agradava a Leonor ver, acima do muro, a sua cabeça na extremidade daquele pescoço telescópico sempre que regressava a casa, e não era de menosprezar a ternura que a fazia sentir quando ela, saciada e sonolenta, se deitava na relva e consentia que Leonor se deitasse junto a si, com a cabeça apoiada nas penas macias do seu dorso. Mas é claro que nem tudo eram penas. Leonor teve de começar a estender a sua roupa no terraço da casa, porque a avestruz achava que a roupa pendurada em cordas no jardim, era intencionalmente disposta como um brinquedo para o seu bico irrequieto. Outra das imperfeições da avestruz (de somenos importância), era o facto de nunca lhe ter conseguido ensinar a adormecer sozinha (tinha de ficar sempre ao seu lado até ela adormecer, a ler Novalis ou Rabelais em voz baixa) e, mais aborrecido do que isso, era a circunstância da avestruz, apesar de se sentar à mesa com ela, não ser capaz de comer ovos de qualquer forma que fossem cozinhados, apesar de não se recusar a preparar para Leonor, sempre que ela lhe pedia, alguns ovos estrelados ou mexidos. Mas era apenas uma avestruz, e Leonor tentava ter isso sempre em mente, tal como nunca se esquecia, da imensa estima que sentia por ela.

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   Para uma pessoa que viva sozinha, é saudável arranjar um animal de estimação, faz companhia e desenvolve um importante intercâmbio emocional que anula ou mitiga a desesperança e o vazio. Assim sendo, a solitária Leonor procurou encontrar um. Descartou a possibilidade de ser um cão ou um gato, por não lhe agradarem, e como vivia numa vivenda com um quintal murado em volta, a escolha foi absolutamente natural: comprou um homem. E se, no início, ainda tinha algumas reservas, a decisão revelou-se, com o tempo, positivamente satisfatória.
   Um homem pode ser um óptimo animal de companhia, mas como é um animal que dificilmente (ou quase nunca) se consegue ensinar, Leonor tomou a decisão mais sensata e comprou-o a uma dona que o criara desde bebé e lhe ensinara já todos os truques e comportamentos que seria desejável ele possuir. Ter um homem em casa não era fácil. Mexia em tudo, tentando adequar os móveis e objectos às suas estritas conveniências, e agia como se ela não estivesse ali e a casa fosse dele; mas, aos poucos, Leonor foi tornando mais proveitosa a sua relação com aquele animal de companhia. Começou por comprar-lhe ração de melhor qualidade para que ele se sentisse mais satisfeito e feliz, e levava-o mais vezes a passear na rua, seguro por uma trela à coleira do pescoço. A boa comida e aqueles passeios desatrofiavam o espírito do pobre animal, diminuindo as suas astutas exibições de infelicidade e auto-comiseração; e como a relação deles melhorou, Leonor achou que era altura de passar para o nível seguinte e levou-o para a sua cama, não sem primeiro lhe rapar com uma máquina todos os pêlos do corpo, para que ele não os deixasse espalhados no meio dos lençóis. Não se arrependeu dessa decisão, ainda que por vezes lhe custasse que o homem a acordasse a meio da noite com latidos de alerta por causa de sons que ouvira vindos do exterior, ou lhe lambuzasse a cara de saliva pela manhã para que ela lhe desse comida. A única coisa que desaprovava no homem, e que fora legado da sua antiga dona, era a sua relutância em ir até ao quintal para fazer as suas necessidades, e teimar em fazê-las na casa-de-banho, na sua casa-de-banho. Mas enfim, nenhuma relação era perfeita...



Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...