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A cidade das maravilhas



Cansados de levar pancada dos críticos literários e artísticos, que tinham o péssimo hábito de lhes apontar defeitos, repetições, obras menos conseguidas; todo o escol de artistas e autores da cidade se reuniu para contrariar esse doloroso trabalho de erosão e fazer ver aos críticos que havia fortes motivos para estarem do seu lado da barricada. O plano acordado entre eles foi assombrosamente simples - criaram um clube de críticos, erguido e mantido a partir daquela data pelos próprios artistas e pelos seus agentes e produtores (coagidos por aqueles a participarem na subtil maquinação) e que se destinava a envolver os críticos em conforto e embotar o seu ácido cinismo habitual.
Os críticos tinham, por fim, um lugar para trabalhar e se divertir ao mesmo tempo. Só tinham que se registar no primeiro dia em que ali entravam, ocasião em que preenchiam um extenso questionário sobre os seus hobbies, gostos, e aspirações; e logo passavam a entrar e sair do clube como se fosse a sua própria casa. O espaço de lazer e entretenimento e as áreas de trabalho no clube não tinham fronteiras definidas, dentro do espírito de que uma e outra coisa deviam estar, indissolúvel e simbioticamente, ligadas. Assim podiam tomar notas sobre a peça de teatro ou a vernissage a que tinham assistido enquanto eram apaparicados por um dama ou um efebo do prazer, comer e beber copiosamente enquanto trocavam impressões sobre obras e artistas, ou escrever nos seus portáteis as críticas que iriam enviar para os jornais e estações de rádio, quando ainda flutuavam na ondulação nebulosa dos narcóticos.
Desde a abertura do clube que autores e críticos têm visto crescer a sua felicidade, felicidade que se transmitiu às pessoas comuns que acorreram com mais vontade às galerias, livrarias e salas de espetáculo, tão arrebatadas e épicas eram as críticas difundidas pelos meios de comunicação. Mas essa euforia, oca por dentro, não tardou a esvaziar-se quando as pessoas criaram aversão aos eventos e produções culturais, tão confrangedora se tornara a mediocridade dos artistas, autores e protagonistas. O clube continua lá – já sem o mecenato dos autores – e mantém-se, mesmo assim, popular entre os críticos, que vão rapando o que resta de bebidas, tabaco e drogas, e chamam às janelas em voz alta e ressacada pelo nome daqueles que lhes proporcionavam um pouco de prazer e alegria.




Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...