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A mostrar mensagens de Outubro, 2012

Woodyallenesco

Num pub irlandês, Lobsang Rampa confrontou o homem que assinava os seus livros como Lobsang Rampa.
    - Os gelos já beijam as nascentes do Ganges – ralhou o lama ancestral.     - A flor de lótus dos jardins do palácio de Sinarkanda acaba de se abrir – defendeu-se o autor.     O lama ancestral aceitou a sábia resposta e abandonou o corpo do autor, esvoaçando para Lhasa.

O vate mate

«Este lascivo e doce passarinho / Com o biquinho as penas ordenando».
    Luís Vaz sorriu para o seu servo.     - Tenho de te felicitar, caro Jau. Preciosos estes versos, como todos os que escreveste para mim. Soarão muito bem aos ouvidos duma certa cortesã por quem ando apassarinhado!     Jau agradeceu, docilmente, sem revolta e até, com uma viva alegria.

Intranquilo

O escritor fantasma sofria pela frustração de nunca ter acabado o único livro que se propusera escrever. A sua vida acabara e a mulher usara o manuscrito para acender a lareira. Agora, cruzava paredes, quartos e salões, assustando os amantes da mulher e os fúteis convidados das suas fúteis festas e recepções. A sua revolta visceral só diminuía quando, a altas horas da noite, se demorava num dos quartos a admirar o rosto doce do filho adormecido.

A esperança é redonda

Rubenzinho completou dois anos de vida e o pai ofereceu-lhe uma bola de futebol; porque é um jogador jovem com uma grande margem de progressão e, se tudo correr bem, pode ter um grande futuro pela frente e jogar nos melhores clubes de futebol da Europa.

O acomodado

Partiram um pé ao acomodado. Era um jogador experiente e endividado e sabia que, ao se perder, se pagava por isso. Sorriu e relativizou: “Era apenas um trem de aterragem!”. Sai do hospital, e recebe a visita dos mesmos facínoras que, desta vez, lhe partem um braço. Justifica o acomodado: “uma asa partida não é um grande estrago na minha situação, porque mal me sustenho nos pés!”. E vem eles de novo, e quebram-lhe a cana do nariz à paulada; mas o acomodado não desespera: “o bico partido, a um avião, não traz grandes benefícios aerodinâmicos, mas também já antes não podia voar por ter uma asa em mau estado...”. Quando por fim regressam os mesmos malfeitores e lhe arrancam o coração do peito, o acomodado depressa encontra uma frase para se sentir mais tranquilo: “O motor que tiraram já era velho. Na certa, vão-me arranjar um motor novinho!”.

Quinze minutos de lama

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Argüillo Newman, o último homem absolutamente honesto do planeta, foi acordado pelo toque repetido da campainha da sua porta. Levantou-se às pressas da cama, vestiu o seu roupão de mandarim, abriu-a e quase cegou com o brilho dos holofotes e flashes de fotógrafos. Estavam ali todos para o entrevistar e dar a conhecer, e atrás deles vinham os outros, um exército fantasma tão vasto e numeroso como o do imperador  Quin, composto de milhentas vozes e opiniões sobre ele que iriam ser soltas despassaradamente em locais de trabalho e talhos, transportes públicos e bares, e com acréscimo inevitável de likes e partilhas e retweets nas redes sociais, além de perguntas e respostas absurdas que fosforesceriam em chats e blogues. Mas isso já sobejava, e para Argüillo já era suficientemente sufocante aqueles que tinha à sua frente. Convidou-os a entrar ou foi empurrado por eles para o interior (um pouco de ambos), e começaram a chover perguntas e a serem colhidas imagens para as ilustrar.…

O escoliasta

O homem, um homem comum, comprou num alfarrabista uma obra enorme que o interessou sobremaneira. Era uma reimpressão, dita "fidedigna" pelos editores no prefácio, duma obra bizantina sobre a imortalidade, a sua natureza e o modo de a alcançar, um livro volumoso, paginoso que, apesar dalgumas falhas nítidas de tradução e de um anúncio impresso que aparecia repetidas vezes a publicitar uma quinta de produção de leite, convenceu este homem de estar diante duma obra magistral e ignorada. Hermes da Silva se chamava este homem, não por fútil invenção do contista, mas por decisão dos pais na hora de o baptizar. Hermes levou aquele livro para casa, e dedicou-se a estudá-lo. Lia atentamente cada página, cada frase e cada palavra, e meditava sobre umas e outras, escrevendo nas margens sucintos comentários ou escólios sobre a seu possível sentido, as suas relações intrínsecas (fios de teia que mais ninguém parecia ver), a sua eventual aplicação nos valores da espiritualidade moder…

Animal de companhia

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   Para uma pessoa que viva sozinha, é saudável arranjar um animal de estimação, faz companhia e desenvolve um importante intercâmbio emocional que anula ou mitiga a desesperança e o vazio. Assim sendo, a solitária Leonor procurou encontrar um. Descartou a possibilidade de ser um cão ou um gato, por não lhe agradarem, e como vivia numa vivenda com um quintal murado em volta, a escolha foi absolutamente natural: comprou uma avestruz. E se, no início, ainda tinha algumas reservas, a decisão revelou-se, com o tempo, positivamente satisfatória.
   Com a avestruz,deixou de haver espaços vazios, mortos, como lacunas por pintar num quadro ou num cenário, a avestruz é uma ave que ocupa muito espaço, e que se desmultiplica ao estar sempre a correr de um lado para o outro. Agradava a Leonor ver, acima do muro, a sua cabeça na extremidade daquele pescoço telescópico sempre que regressava a casa, e não era de menosprezar a ternura que a fazia sentir quando ela, saciada e sonolenta, se deitava …

Eles existem

"Eu sou um anjo!".
   Ela confirmou, muito surpreendida - vestes brancas, tez pálida com sobrancelhas douradas, asas enormes, dobradas, cujas pontas lhe tocavam no calcanhar.
   "O que é que tu fazes ao certo, anjo?".
   Ele agitou-se um pouco com um ruído mecânico e repetiu a gravação:
   "Eu sou um anjo!".


Ponto de viragem

apesar da sua importância não foi a vizinhança da morte que a fez erguer-se no alto da sua coluna e começar a lutar nem as amizades traídas as relações sórdidas a dor e o azedume o estupro e a droga não foram as lições dos poucos mestres que conheceu o exemplo dos pais ou dos personagens dos filmes as súplicas da mãe e da irmã mais velha ou a violência de todos os que povoavam o seu mundo e nem mesmo o foi o carinho do seu primo Luís, o único amante que teve que a tratou bem e foi seu amigo e seu refúgio antes de se afastar por prudência da sua alma em banho-maria de trevas e do seu corpo tornado feio pelas seringas e pela fome
a única coisa que a fez erguer-se no alto da sua coluna e começar a lutar foi na verdade a imagem duma abelha aurinegra a brilhar como uma epifania na coroa de flores pousada no caixão da sua mãe que era descido para a cova

A cidade das maravilhas

Cansados de levar pancada dos críticos literários e artísticos, que tinham o péssimo hábito de lhes apontar defeitos, repetições, obras menos conseguidas; todo o escol de artistas e autores da cidade se reuniu para contrariar esse doloroso trabalho de erosão e fazer ver aos críticos que havia fortes motivos para estarem do seu lado da barricada. O plano acordado entre eles foi assombrosamente simples - criaram um clube de críticos, erguido e mantido a partir daquela data pelos próprios artistas e pelos seus agentes e produtores (coagidos por aqueles a participarem na subtil maquinação) e que se destinava a envolver os críticos em conforto e embotar o seu ácido cinismo habitual. Os críticos tinham, por fim, um lugar para trabalhar e se divertir ao mesmo tempo. Só tinham que se registar no primeiro dia em que ali entravam, ocasião em que preenchiam um extenso questionário sobre os seus hobbies, gostos, e aspirações; e logo passavam a entrar e sair do clube como se fosse a sua própria c…

O manuscrito mágico

- Este manuscrito que lhe apresento é um manuscrito mágico – garantiu-lhe o vendedor – possui virtudes e poderes que ainda não conseguimos compreender na totalidade. Está escrito com o sangue dum número indeterminado de pessoas sacrificadas e expõe todas as fórmulas mágicas recolhidas e validadas pelos anacoretas eruditos durante três séculos. Conversa de vendedor. Foi a primeira coisa que pensou ao ouvir aquela revelação. Mas, ainda assim, olhou com uma curiosidade involuntária o manuscrito enrolado dentro do cofre. - Está inteiramente escrito em latim, mas tive o cuidado de o traduzir. O resultado está impresso naquele livrinho que entrego anexo ao manuscrito. Ao fazer a tradução, como ao ler as fórmulas, acordam-se forças mágicas poderosas e qualquer coisa pode acontecer. - Deixe-me ver se percebo…o senhor possui um manuscrito valiosíssimo, dedicou anos a estudá-lo e a traduzir as suas fórmulas, e agora deseja desfazer-se dele pelo preço irrisório que me apontou?! - Sim, claro! - …

Conto Escrito a duas mãos - 6

Olhar e Ver
Noite escura e cerrada de nevoeiro. Na floresta os pingos de chuva chicoteiam o chão molhado numa imensidão negra. Por detrás da vidraça luminosa, aconchegada, uma criança olha a escuridão. Olhos límpidos, cristalinos, cintilantes; que perscrutam o nevoeiro e as trevas. Com as pontas dos dedos, com a palma da mão, garatuja e limpa o vidro embaciado como se a noite pudesse ser desvelada por esses gestos mágicos. Ainda assim, as suas pupilas não veem mais do que o semblante fechado da noite. Mas a criança sente mais do que aquilo que vê com os olhos, divisa formas e seres cujo brilho transluz do outro lado do vidro. Apercebe-se da coruja na cornija do barracão que está muito quieta e de olhos na casa, como uma sentinela petrificada, de coelhos a espreitar das locas enlameadas e, ainda mais longe, no carreiro na margem da vala eriçada de caniços, a figura encurvada do seu pai a caminhar em esforço com lama até aos joelhos, regressa a casa, move as pernas com uma força quase …

Encontro às cegas (nova versão)

Graciela nunca vira antes aquele homem ou, pelo menos, não se lembrava dele. Estava sentado a um balcão do bar onde fora com as colegas de trabalho, e fora ela quem metera conversa com ele, a pretexto de lhe pedir um cigarro. Ele cedeu-lhe um cigarro dos seus, beberam uns copos juntos, conversaram durante horas naquele ambiente enevoado e ruidoso, e depois das colegas de trabalho desistirem de se divertirem com eles à distância e abandonarem o bar, ela convidou-o para continuarem a beber no seu apartamento. Ele concordou, sem grande entusiasmo nem euforias, o que ela até achou encantador, de certa forma. Estava cansado de encontrar homens ansiosos e entesoados e que depois se revelavam desapontadores e dignos de dó. Quando chegaram ao apartamento dela, ela serviu-lhe uma bebida. Era um apartamento pequeno, com saleta e sala de jantar conjunta, com um arco a separar esse espaço do corredor estreito onde se anichava a pequena cozinha. A janela da sala estava virada a poente, tal como…

As primícias da última manhã do senhor Andeiro

Andeiro, com os gestos e as rotinas com que os anos vão vestindo as pessoas, cumpria quase todas as manhãs os seus ritos useiros e costumeiros de todos os dias. Levantava-se sempre às sete (hora imposta a si mesmo, com a colaboração e cumplicidade dum velho despertador de corda), como aliás sempre fizera na sua vida anterior, durante as dezenas de anos em que trabalhara como revisor de comboio. E como era regra, manteve-a também naquela manhã. Acordou, fez a barba à máquina, e comeu umas tostas com doce de alperce e café forte sem açúcar. Em seguida, confirmou se o canário que mantinha engaiolado na marquise da varanda tinha água e comida para o resto do dia; e ainda com o roupão vestido sobre o pijama, mimou a orquídea envasada que tinha junto a uma janela na única parede do apartamento que o Sol contemplava com o seu calor. Vestiu-se então, irrepreensivelmente, e saiu do apartamento, tendo o cuidado de deixar uma cópia da chave na caixa de correio da senhoria, gesto significativo p…

elegia

"Repousa em paz!", murmurou com a voz empastada pela emoção, a mão direita amparando a cabeça pela nuca até ela tocar no chão - "tudo podia ter sido diferente, e tu podias ter sido tudo, tudo mesmo, um poeta ou um artista, ou um guerreiro como Heitor, podias ter descoberto a cura para o cancro ou a panaceia, podias vir a ser um imperador ou um Anticristo, uma maldição ou um verso...". Calou-se, dando largas à sua dor num pranto inconfidente. Em seguida, como se tivesse soado um alarme no seu espírito, conteve-se, controlou os gestos, e sufocou as palavras. Olhou em volta para se certificar de que ninguém o via e escutou por alguns momentos a silvo do vento por entre as árvores do bosque. O luar incidia sobre eles, projectando a sua sombra sobre o corpo do rapaz no fundo do buraco. Com gestos enérgicos, sepultou o corpo com pazadas de terra, e logo espalhou sobre o sepulcro improvisado alguns ramos quebrados de árvore e mato seco. Limpou o suor à manga da camis…

Susto

Assustou-se quando ouviu pequenas pancadas surdas, abafadas, no interior da casa.
    Julgou que era ela, a menina no escuro, a querer fazer-se ouvir fora da cave fechada a sete chaves. Olhou com receio para as visitas, e para o semblante dos filhos deles; e só se sentiu aliviado quando uma das crianças apontou pela janela o pica-pau a fazer barulho num dos ramos do teixo do jardim.



a espécie inteligente

A nave espacial alienígena, vinda do quadrante mais afastado de Andrómeda, pousa na superfície da Terra. A primeira coisa que vêem é um homem com um serrote, a cortar o ramo de árvore em que está sentado.
   - Vamos embora! - pensam em coro - já nos sobejam parábolas de estupidez no Universo.

O dia claro

Por um capricho das condições atmosféricas, a cidade acordou inesperadamente limpa pela manhã. Um vento intenso e intermitente varrera as nuvens de fumo que se enrolavam sobre os prédios e ruas, ao mesmo tempo que a água ionizada da chuva limpava as poucas plantas da fuligem e da crosta de metais pesados, e removia a epiderme tóxica dos prédios, dos carros e das estátuas. Ao contrário do que seria de esperar, o dia claro não trouxe a felicidade às pessoas, que saíram à rua quase asfixiadas pela vitória do oxigénio sobre  o monóxido de carbono. Não reconheciam aquela cidade como sua. O ar era diferente e opressivo, as cores assustavam, a luz do Sol causava tonturas.Num ápice, encheram-se de pessoas as urgências dos Hospitais, os suicídios tiveram um pico inesperado para aquela hora da manhã, e toda a gente estava ao telefone, lamuriando-se para os familiares distantes, para pastores e gurus, para linhas telefónicas de apoio, para programas em directo da rádio e da televisão para m…