INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Woodyallenesco

    Num pub irlandês, Lobsang Rampa confrontou o homem que assinava os seus livros como Lobsang Rampa.
    - Os gelos já beijam as nascentes do Ganges – ralhou o lama ancestral.
    - A flor de lótus dos jardins do palácio de Sinarkanda acaba de se abrir – defendeu-se o autor.
    O lama ancestral aceitou a sábia resposta e abandonou o corpo do autor, esvoaçando para Lhasa.

O vate mate

    «Este lascivo e doce passarinho / Com o biquinho as penas ordenando».
    Luís Vaz sorriu para o seu servo.
    - Tenho de te felicitar, caro Jau. Preciosos estes versos, como todos os que escreveste para mim. Soarão muito bem aos ouvidos duma certa cortesã por quem ando apassarinhado!
    Jau agradeceu, docilmente, sem revolta e até, com uma viva alegria.


Intranquilo

    O escritor fantasma sofria pela frustração de nunca ter acabado o único livro que se propusera escrever. A sua vida acabara e a mulher usara o manuscrito para acender a lareira. Agora, cruzava paredes, quartos e salões, assustando os amantes da mulher e os fúteis convidados das suas fúteis festas e recepções. A sua revolta visceral só diminuía quando, a altas horas da noite, se demorava num dos quartos a admirar o rosto doce do filho adormecido.

A esperança é redonda

   Rubenzinho completou dois anos de vida e o pai ofereceu-lhe uma bola de futebol; porque é um jogador jovem com uma grande margem de progressão e, se tudo correr bem, pode ter um grande futuro pela frente e jogar nos melhores clubes de futebol da Europa.

O acomodado


Partiram um pé ao acomodado. Era um jogador experiente e endividado e sabia que, ao se perder, se pagava por isso. Sorriu e relativizou: “Era apenas um trem de aterragem!”.
Sai do hospital, e recebe a visita dos mesmos facínoras que, desta vez, lhe partem um braço. Justifica o acomodado: “uma asa partida não é um grande estrago na minha situação, porque mal me sustenho nos pés!”.
E vem eles de novo, e quebram-lhe a cana do nariz à paulada; mas o acomodado não desespera: “o bico partido, a um avião, não traz grandes benefícios aerodinâmicos, mas também já antes não podia voar por ter uma asa em mau estado...”.
Quando por fim regressam os mesmos malfeitores e lhe arrancam o coração do peito, o acomodado depressa encontra uma frase para se sentir mais tranquilo: “O motor que tiraram já era velho. Na certa, vão-me arranjar um motor novinho!”.

Quinze minutos de lama



Argüillo Newman, o último homem absolutamente honesto do planeta, foi acordado pelo toque repetido da campainha da sua porta. Levantou-se às pressas da cama, vestiu o seu roupão de mandarim, abriu-a e quase cegou com o brilho dos holofotes e flashes de fotógrafos. Estavam ali todos para o entrevistar e dar a conhecer, e atrás deles vinham os outros, um exército fantasma tão vasto e numeroso como o do imperador  Quin, composto de milhentas vozes e opiniões sobre ele que iriam ser soltas despassaradamente em locais de trabalho e talhos, transportes públicos e bares, e com acréscimo inevitável de likes e partilhas e retweets nas redes sociais, além de perguntas e respostas absurdas que fosforesceriam em chats e blogues. Mas isso já sobejava, e para Argüillo já era suficientemente sufocante aqueles que tinha à sua frente.
Convidou-os a entrar ou foi empurrado por eles para o interior (um pouco de ambos), e começaram a chover perguntas e a serem colhidas imagens para as ilustrar. Encurralado, sem brecha nenhuma por onde escapar, entrou no jogo, sorriu sem ter vontade, balbuciou respostas e justificações que não formularia numa situação normal (com contradições pelo meio), cedeu com afirmativas a perguntas que nem sequer ouvira como deve ser, e supriu com histórias de recurso as lacunas da sua memória tolhida pela voragem humana em volta.
Argüillo foi estudado e dissecado até os media se sentirem satisfeitos. E partiram todos num ápice, de regresso aos seus pombais de notícias, mas, pelo caminho, todos eles se deram conta de que a notícia, propriamente dita, já não existia e que Argüillo já não era o último homem absolutamente honesto do planeta e, a partir daí, ou faziam um lead negativo a iniciar uma peça entediante de jornalismo, ou omitiam tudo e procuravam outra matéria de interesse. Esta, foi a decisão unânime de todos, e o dissecado Argüillo foi deixado para trás. A pele ensanguentada enrolada numa trouxa e deixada num parque de contentores de lixo, os sacos com a carne e os órgãos atirados para becos escuros onde os cães vadios se escondiam e os ossos, esses ficaram embrulhados no roupão de mandarim, que foi largado na bagageira da carrinha dum estúdio de televisão, enquanto os seus ocupantes pensavam no que iriam fazer com eles. Nenhum deles sabia, honestamente.

O escoliasta

     O homem, um homem comum, comprou num alfarrabista uma obra enorme que o interessou sobremaneira. Era uma reimpressão, dita "fidedigna" pelos editores no prefácio, duma obra bizantina sobre a imortalidade, a sua natureza e o modo de a alcançar, um livro volumoso, paginoso que, apesar dalgumas falhas nítidas de tradução e de um anúncio impresso que aparecia repetidas vezes a publicitar uma quinta de produção de leite, convenceu este homem de estar diante duma obra magistral e ignorada. Hermes da Silva se chamava este homem, não por fútil invenção do contista, mas por decisão dos pais na hora de o baptizar. Hermes levou aquele livro para casa, e dedicou-se a estudá-lo. Lia atentamente cada página, cada frase e cada palavra, e meditava sobre umas e outras, escrevendo nas margens sucintos comentários ou escólios sobre a seu possível sentido, as suas relações intrínsecas (fios de teia que mais ninguém parecia ver), a sua eventual aplicação nos valores da espiritualidade moderna.
     O tempo que Hermes passava com o livro era cada vez maior, tal como crescente se tornava o número de notas ao seu teor,e as vezes que tinha de ler uma determinada passagem do livro antes de colocar uma nota ao seu lado. Por vezes, por já não haver espaço nas margens do texto, já não escrevia as notas a não ser mentalmente, e da mesma forma voltava a elas para as refazer ou completar repetidas vezes. Como não havia tempo para mais nada, Hermes contratou um casal para lhe tomarem conta da casa e das roupas, e de lhe trazerem comida ao pequeno escritório onde trabalhava. Comia ali, dormia por ali mesmo num sofá a um canto, e só abandonava a divisão para tomar banho ou fazer as suas necessidades. A obsessão pelo livro era tanta que acontecia-lhe esquecer-se de comer, e só o fazer quando lhe traziam a refeição seguinte.
      Andou e viveu nisto até um dia se aperceber de que não tinha tinta para escrever as suas notas, e que, tinha agora consciência de há muito tempo (semanas? anos?) não ver pela frente o casal que contratara para cuidar dele. Afastou os cortinados desfeitos da janela, e abriu-a de par em par, fazendo-a pulverizar-se num monte de pó e lascas carunchosas de madeira. Assomou à janela e ficou pasmo. Um glaciar, um autêntico rio de gelo, ocupava agora a parte setentrional do vale, descendo do monte Jurat. Da sua aldeia já pouco restava, apenas ruínas, e edificações que mal se sustinham de pé. De súbito, apercebeu-se. Tornara-se imortal sem o saber, cumprindo com os ensinamentos daquele livro. Olhando melhor para o exterior, tornou-se óbvio que não vivia ali mais ninguém, e ninguém percorria as suas ruas além do vento alpino gelado.Voltou a sentar-se ao pé do livro. Não havendo tinta, teria que prosseguir redigindo escólios mentalmente, e também deveria ter de apreender o livro na sua totalidade, decorar cada uma das palavras e dos sinais que tão bem conhecia. Era uma tarefa gigantesca, mas não impossível de todo, porque agora dispunha de todo o tempo de que precisava.





Animal de companhia

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   Para uma pessoa que viva sozinha, é saudável arranjar um animal de estimação, faz companhia e desenvolve um importante intercâmbio emocional que anula ou mitiga a desesperança e o vazio. Assim sendo, a solitária Leonor procurou encontrar um. Descartou a possibilidade de ser um cão ou um gato, por não lhe agradarem, e como vivia numa vivenda com um quintal murado em volta, a escolha foi absolutamente natural: comprou uma avestruz. E se, no início, ainda tinha algumas reservas, a decisão revelou-se, com o tempo, positivamente satisfatória.
   Com a avestruz,deixou de haver espaços vazios, mortos, como lacunas por pintar num quadro ou num cenário, a avestruz é uma ave que ocupa muito espaço, e que se desmultiplica ao estar sempre a correr de um lado para o outro. Agradava a Leonor ver, acima do muro, a sua cabeça na extremidade daquele pescoço telescópico sempre que regressava a casa, e não era de menosprezar a ternura que a fazia sentir quando ela, saciada e sonolenta, se deitava na relva e consentia que Leonor se deitasse junto a si, com a cabeça apoiada nas penas macias do seu dorso. Mas é claro que nem tudo eram penas. Leonor teve de começar a estender a sua roupa no terraço da casa, porque a avestruz achava que a roupa pendurada em cordas no jardim, era intencionalmente disposta como um brinquedo para o seu bico irrequieto. Outra das imperfeições da avestruz (de somenos importância), era o facto de nunca lhe ter conseguido ensinar a adormecer sozinha (tinha de ficar sempre ao seu lado até ela adormecer, a ler Novalis ou Rabelais em voz baixa) e, mais aborrecido do que isso, era a circunstância da avestruz, apesar de se sentar à mesa com ela, não ser capaz de comer ovos de qualquer forma que fossem cozinhados, apesar de não se recusar a preparar para Leonor, sempre que ela lhe pedia, alguns ovos estrelados ou mexidos. Mas era apenas uma avestruz, e Leonor tentava ter isso sempre em mente, tal como nunca se esquecia, da imensa estima que sentia por ela.

2

   Para uma pessoa que viva sozinha, é saudável arranjar um animal de estimação, faz companhia e desenvolve um importante intercâmbio emocional que anula ou mitiga a desesperança e o vazio. Assim sendo, a solitária Leonor procurou encontrar um. Descartou a possibilidade de ser um cão ou um gato, por não lhe agradarem, e como vivia numa vivenda com um quintal murado em volta, a escolha foi absolutamente natural: comprou um homem. E se, no início, ainda tinha algumas reservas, a decisão revelou-se, com o tempo, positivamente satisfatória.
   Um homem pode ser um óptimo animal de companhia, mas como é um animal que dificilmente (ou quase nunca) se consegue ensinar, Leonor tomou a decisão mais sensata e comprou-o a uma dona que o criara desde bebé e lhe ensinara já todos os truques e comportamentos que seria desejável ele possuir. Ter um homem em casa não era fácil. Mexia em tudo, tentando adequar os móveis e objectos às suas estritas conveniências, e agia como se ela não estivesse ali e a casa fosse dele; mas, aos poucos, Leonor foi tornando mais proveitosa a sua relação com aquele animal de companhia. Começou por comprar-lhe ração de melhor qualidade para que ele se sentisse mais satisfeito e feliz, e levava-o mais vezes a passear na rua, seguro por uma trela à coleira do pescoço. A boa comida e aqueles passeios desatrofiavam o espírito do pobre animal, diminuindo as suas astutas exibições de infelicidade e auto-comiseração; e como a relação deles melhorou, Leonor achou que era altura de passar para o nível seguinte e levou-o para a sua cama, não sem primeiro lhe rapar com uma máquina todos os pêlos do corpo, para que ele não os deixasse espalhados no meio dos lençóis. Não se arrependeu dessa decisão, ainda que por vezes lhe custasse que o homem a acordasse a meio da noite com latidos de alerta por causa de sons que ouvira vindos do exterior, ou lhe lambuzasse a cara de saliva pela manhã para que ela lhe desse comida. A única coisa que desaprovava no homem, e que fora legado da sua antiga dona, era a sua relutância em ir até ao quintal para fazer as suas necessidades, e teimar em fazê-las na casa-de-banho, na sua casa-de-banho. Mas enfim, nenhuma relação era perfeita...



Eles existem

   "Eu sou um anjo!".
   Ela confirmou, muito surpreendida - vestes brancas, tez pálida com sobrancelhas douradas, asas enormes, dobradas, cujas pontas lhe tocavam no calcanhar.
   "O que é que tu fazes ao certo, anjo?".
   Ele agitou-se um pouco com um ruído mecânico e repetiu a gravação:
   "Eu sou um anjo!".


Ponto de viragem


apesar da sua importância não foi a vizinhança da morte que a fez erguer-se no alto da sua coluna e começar a lutar nem as amizades traídas as relações sórdidas a dor e o azedume o estupro e a droga não foram as lições dos poucos mestres que conheceu o exemplo dos pais ou dos personagens dos filmes as súplicas da mãe e da irmã mais velha ou a violência de todos os que povoavam o seu mundo e nem mesmo o foi o carinho do seu primo Luís, o único amante que teve que a tratou bem e foi seu amigo e seu refúgio antes de se afastar por prudência da sua alma em banho-maria de trevas e do seu corpo tornado feio pelas seringas e pela fome

a única coisa que a fez erguer-se no alto da sua coluna e começar a lutar foi na verdade a imagem duma abelha aurinegra a brilhar como uma epifania na coroa de flores pousada no caixão da sua mãe que era descido para a cova

A cidade das maravilhas



Cansados de levar pancada dos críticos literários e artísticos, que tinham o péssimo hábito de lhes apontar defeitos, repetições, obras menos conseguidas; todo o escol de artistas e autores da cidade se reuniu para contrariar esse doloroso trabalho de erosão e fazer ver aos críticos que havia fortes motivos para estarem do seu lado da barricada. O plano acordado entre eles foi assombrosamente simples - criaram um clube de críticos, erguido e mantido a partir daquela data pelos próprios artistas e pelos seus agentes e produtores (coagidos por aqueles a participarem na subtil maquinação) e que se destinava a envolver os críticos em conforto e embotar o seu ácido cinismo habitual.
Os críticos tinham, por fim, um lugar para trabalhar e se divertir ao mesmo tempo. Só tinham que se registar no primeiro dia em que ali entravam, ocasião em que preenchiam um extenso questionário sobre os seus hobbies, gostos, e aspirações; e logo passavam a entrar e sair do clube como se fosse a sua própria casa. O espaço de lazer e entretenimento e as áreas de trabalho no clube não tinham fronteiras definidas, dentro do espírito de que uma e outra coisa deviam estar, indissolúvel e simbioticamente, ligadas. Assim podiam tomar notas sobre a peça de teatro ou a vernissage a que tinham assistido enquanto eram apaparicados por um dama ou um efebo do prazer, comer e beber copiosamente enquanto trocavam impressões sobre obras e artistas, ou escrever nos seus portáteis as críticas que iriam enviar para os jornais e estações de rádio, quando ainda flutuavam na ondulação nebulosa dos narcóticos.
Desde a abertura do clube que autores e críticos têm visto crescer a sua felicidade, felicidade que se transmitiu às pessoas comuns que acorreram com mais vontade às galerias, livrarias e salas de espetáculo, tão arrebatadas e épicas eram as críticas difundidas pelos meios de comunicação. Mas essa euforia, oca por dentro, não tardou a esvaziar-se quando as pessoas criaram aversão aos eventos e produções culturais, tão confrangedora se tornara a mediocridade dos artistas, autores e protagonistas. O clube continua lá – já sem o mecenato dos autores – e mantém-se, mesmo assim, popular entre os críticos, que vão rapando o que resta de bebidas, tabaco e drogas, e chamam às janelas em voz alta e ressacada pelo nome daqueles que lhes proporcionavam um pouco de prazer e alegria.




O manuscrito mágico


- Este manuscrito que lhe apresento é um manuscrito mágico – garantiu-lhe o vendedor – possui virtudes e poderes que ainda não conseguimos compreender na totalidade. Está escrito com o sangue dum número indeterminado de pessoas sacrificadas e expõe todas as fórmulas mágicas recolhidas e validadas pelos anacoretas eruditos durante três séculos.
Conversa de vendedor. Foi a primeira coisa que pensou ao ouvir aquela revelação. Mas, ainda assim, olhou com uma curiosidade involuntária o manuscrito enrolado dentro do cofre.
- Está inteiramente escrito em latim, mas tive o cuidado de o traduzir. O resultado está impresso naquele livrinho que entrego anexo ao manuscrito. Ao fazer a tradução, como ao ler as fórmulas, acordam-se forças mágicas poderosas e qualquer coisa pode acontecer.
- Deixe-me ver se percebo…o senhor possui um manuscrito valiosíssimo, dedicou anos a estudá-lo e a traduzir as suas fórmulas, e agora deseja desfazer-se dele pelo preço irrisório que me apontou?!
- Sim, claro!
- Apenas para realizar algum dinheiro?! Acho muito suspeito toda esse desprendimento em relação àquele que será, porventura, o mais valioso dos seus bens!
- Mas pode confiar na minha palavra! Não há qualquer outro motivo para me desfazer do manuscrito! – garantiu-lhe o vendedor enquanto, com uma das mãos de dedos lenhosos, tentava manter fixo na testa o terceiro olho, vermelho como um rubi.


Conto Escrito a duas mãos - 6



Olhar e Ver

Noite escura e cerrada de nevoeiro. Na floresta os pingos de chuva chicoteiam o chão molhado numa imensidão negra. Por detrás da vidraça luminosa, aconchegada, uma criança olha a escuridão. Olhos límpidos, cristalinos, cintilantes; que perscrutam o nevoeiro e as trevas. Com as pontas dos dedos, com a palma da mão, garatuja e limpa o vidro embaciado como se a noite pudesse ser desvelada por esses gestos mágicos. Ainda assim, as suas pupilas não veem mais do que o semblante fechado da noite. Mas a criança sente mais do que aquilo que vê com os olhos, divisa formas e seres cujo brilho transluz do outro lado do vidro. Apercebe-se da coruja na cornija do barracão que está muito quieta e de olhos na casa, como uma sentinela petrificada, de coelhos a espreitar das locas enlameadas e, ainda mais longe, no carreiro na margem da vala eriçada de caniços, a figura encurvada do seu pai a caminhar em esforço com lama até aos joelhos, regressa a casa, move as pernas com uma força quase hidráulica, mecanismo experiente talhado para vencer a intempérie e domar a terra bravia. Esgrime um varapau, crava-o no chão para auxiliar a marcha, pragueja e amaldiçoa o tempo e a sua pouca sorte, como faz sempre, e a criança consegue sentir, admirar, os ângulos crispados das suas rugas por entre os fios de água que escorrem da aba larga e encurvada do chapéu, a boca sem dentes aberta, a arfar com o esforço. A criança perscruta com mais atenção, espera, deseja, que venha mais alguém com ele, segura, guiada pela mão. Mas depressa se desilude, perde o ânimo. O pai regressa sozinho.
Ela abandona o seu lugar junto à janela e vai sentar-se no chão, próximo ao braseiro, com as pernas fletidas e as mãos unidas numa prece involuntária. Talvez estivesse enganada, e a mãe entrasse também com ele, voltasse para eles. A mãe partira para longe, explicara-lhe um dia o pai com uma expressão carregada como ele nunca lhe vira. E agora lá voltava ele, de novo só, entrando na casa empurrado por um aluvião de vento, frio e chuva. Tira o chapéu e o impermeável e abana negativamente a cabeça, enquanto a água escorre dele para o chão, aureolando-lhe de água as botas pardas da lama. A criança segue-lhe os gestos, ainda incrédula, esperançada, e novamente se refugia junto à janela. Limpa os vidros embaciados e fixa a noite. Não era mau de todo que a mãe não tivesse escolhido aquele dia para regressar, o rio estava cheio com a água da chuva, e ela era tanta que podia ter arrastado na correnteza o frágil cais de madeira. Mas o pai não vira nada, seguira as suas súplicas e fora até ao cais para ver se algum barco ali chegara ou, o que era uma ideia ainda mais terrível, se avistava nas águas negras do rio algum sinal de naufrágio, de destroços de barcos. Não vira nada, e tudo iria ficar bem, a tempestade iria passar, e o caudal furioso do rio amainaria como uma serpente fatigada. A chuva caía já com menos intensidade, e conseguia aperceber-se dos coelhos que saltitavam entre as ervas, saídas das tocas inundadas de água, audazes por terem perdido o medo da coruja na cornija do barracão, que não lhes presta atenção e que continua com os olhos fixos na casa, e na criança por detrás do vidro, como se velasse por ela.



Escrito por Maria e José

Encontro às cegas (nova versão)


   Graciela nunca vira antes aquele homem ou, pelo menos, não se lembrava dele. Estava sentado a um balcão do bar onde fora com as colegas de trabalho, e fora ela quem metera conversa com ele, a pretexto de lhe pedir um cigarro. Ele cedeu-lhe um cigarro dos seus, beberam uns copos juntos, conversaram durante horas naquele ambiente enevoado e ruidoso, e depois das colegas de trabalho desistirem de se divertirem com eles à distância e abandonarem o bar, ela convidou-o para continuarem a beber no seu apartamento. Ele concordou, sem grande entusiasmo nem euforias, o que ela até achou encantador, de certa forma. Estava cansado de encontrar homens ansiosos e entesoados e que depois se revelavam desapontadores e dignos de dó. Quando chegaram ao apartamento dela, ela serviu-lhe uma bebida. Era um apartamento pequeno, com saleta e sala de jantar conjunta, com um arco a separar esse espaço do corredor estreito onde se anichava a pequena cozinha. A janela da sala estava virada a poente, tal como o seu quarto, para o qual se passava por um aro sem porta onde ela pendurara umas fitas coloridas que uma prima dela lhe trouxera duma viagem ao México. Mas o seu quarto era território sagrado que Graciela não franqueava a qualquer um. Enquanto ele sorvia o uísque, ela despiu-se completamente, e ajudou-o a despir-se também. Ele pareceu um pouco relutante, mas seguiu o seu jogo, e tiveram sexo no tapete da sala, uma e outra vez.  Depois Graciela levantou-se, foi-se lavar e, no regresso, explicou-lhe:
   - Não procuro um romance, nem sexo idílico, como deves ter percebido, e amanhã tenho de ir trabalhar muito cedo. Podes dormir aqui ou podes ir-te embora. Não ficarei ressentida com nenhuma das opções – e beijou-o antes de se refugiar no seu quarto.
   Quando se deitou em cima da cama, interrogou-se ociosamente qual seria a opção dele. Percebeu-o ao ouvir uma torneira a correr, passos, e o corpo pesado do homem a acomodar-se no velho sofá. Se ainda lá estivesse de manhã, teria de o acordar antes de sair de casa. Ou talvez lhe desse outra vez a vontade e fosse acordá-lo para mais uma ronda, ou ele a ela, e...adormeceu de imediato. Dormiu pesada e profundamente, e acordou com a luz.
    Abriu os olhos apenas uma nesga, o suficiente para divisar o mostrador digital do relógio e dar-se conta de que ainda faltava muito para amanhecer. Levantou-se e sentou-se na cama. C’um raio! Não dormira mais do que três horas e tinha tanto sono. A luz vinha da sala, e não podia ser do exterior porque fechara completamente a janela. Espreitou, intrigada. O seu hóspede dormia nu no sofá com uma das pernas pousadas no tapete, e o corpo dele emanava uma luminosidade ténue mas nítida, que atingia toda a divisão e que era reflectida no vidro da janela. Notou que não era uma luz constante, mas que tremeluzia a um ritmo regular, e que ela intimamente identificou com o batimento do coração.
   «Calhou-me o homem-néon!» - resmungou para si. Foi buscar um cobertor ao quarto, e tapou-o, mas este não era muito grande e a luz escapava-se pelas dobras do cobertor, e pelo lado da cabeça, que ficara fora do cobertor. Graciela voltou ao quarto, e vasculhou as gavetas da roupa até encontrar a sua máscara para dormir. Colocou-a sobre os olhos, e deitou-se na cama, quase no mesmo instante em que se começou a ouvir uma espécie de música parecida com acordes graves de violoncelo, e provinda também da sala ao lado.

*

Continuação da história por mão da Angela Schnoor:



Pela manhã, bem cedo, Graciela despertou e o homem já não estava, mas a música continuava e agora parecia segui-la até sair para o trabalho.
À noitinha, sem vontade de se divertir com as colegas, foi direto para casa e ao entrar ouvia os mesmos acordes, ainda graves, mas agora acompanhados de sons mais leves como os de uma pianola distante.
Quando, no meio da noite foi ao banheiro, começou a desconfiar que podia estar grávida pois, dentre suas pernas saía a mesma luz néon pulsante. Conseguiu disfarçar o efeito luminoso com muita roupa e deu graças por ser inverno.
Voltou várias vezes ao mesmo bar, mas nunca mais encontrou o tal homem. Só tornou a vê-lo meses depois quando a luz brotou de seu ventre sobre a cama e tomou a forma de um ser humano
E tinha a cara dele.

As primícias da última manhã do senhor Andeiro


Andeiro, com os gestos e as rotinas com que os anos vão vestindo as pessoas, cumpria quase todas as manhãs os seus ritos useiros e costumeiros de todos os dias. Levantava-se sempre às sete (hora imposta a si mesmo, com a colaboração e cumplicidade dum velho despertador de corda), como aliás sempre fizera na sua vida anterior, durante as dezenas de anos em que trabalhara como revisor de comboio. E como era regra, manteve-a também naquela manhã. Acordou, fez a barba à máquina, e comeu umas tostas com doce de alperce e café forte sem açúcar. Em seguida, confirmou se o canário que mantinha engaiolado na marquise da varanda tinha água e comida para o resto do dia; e ainda com o roupão vestido sobre o pijama, mimou a orquídea envasada que tinha junto a uma janela na única parede do apartamento que o Sol contemplava com o seu calor. Vestiu-se então, irrepreensivelmente, e saiu do apartamento, tendo o cuidado de deixar uma cópia da chave na caixa de correio da senhoria, gesto significativo para os dois, com o qual ele habitualmente transmitia que se iria ausentar por um ou mais dias, solicitando dessa forma que ela fosse ao apartamento olhar pelo canário e pelas plantas. Quando atingiu a rua, Andeiro teve de proteger os olhos com a mão, porque o Sol ofuscava. Com o outro braço, aconchegava junto ao corpo um pequeno volume embrulhado em papel pardo. Desceu a rua com passos leves e airosos, saudou o Vieira da pastelaria que desferrolhava as mesas e cadeiras metálicas da esplanada, e parou um pouco mais abaixo no quiosque de jornais, onde espreitou alguns títulos dos jornais. O Menezes, no sombrio interior, lia um jornal com os óculos de aros redondos encavalitados na ponta do nariz, e trocou algumas banalidades com ele a propósito do tempo esplêndido daquela manhã de Outono. Despediu-se do Menezes, e continuou pelo passeio até ao largo da Sé, onde desceu as escadas de acesso ao Metropolitano. Olhou rapidamente para o relógio de pulso. Saíra do apartamento há vinte e dois minutos atrás. Meia-hora, e oito minutos. Meia-hora fora o tempo que programara para que explodisse a bomba que transportava naquele pequeno volume embrulhado em papel pardo. Oito minutos, era o tempo que restava.

elegia

     "Repousa em paz!", murmurou com a voz empastada pela emoção, a mão direita amparando a cabeça pela nuca até ela tocar no chão - "tudo podia ter sido diferente, e tu podias ter sido tudo, tudo mesmo, um poeta ou um artista, ou um guerreiro como Heitor, podias ter descoberto a cura para o cancro ou a panaceia, podias vir a ser um imperador ou um Anticristo, uma maldição ou um verso...". Calou-se, dando largas à sua dor num pranto inconfidente. Em seguida, como se tivesse soado um alarme no seu espírito, conteve-se, controlou os gestos, e sufocou as palavras. Olhou em volta para se certificar de que ninguém o via e escutou por alguns momentos a silvo do vento por entre as árvores do bosque. O luar incidia sobre eles, projectando a sua sombra sobre o corpo do rapaz no fundo do buraco. Com gestos enérgicos, sepultou o corpo com pazadas de terra, e logo espalhou sobre o sepulcro improvisado alguns ramos quebrados de árvore e mato seco. Limpou o suor à manga da camisa, descalçou as luvas e regressou ao carro, cabisbaixo, como se regressasse dum velório - "Não me posso esquecer de dar os pêsames aos pais!", falou para si mesmo ao chegar ao pé de dois anónimos montículos de terra junto a um salgueiro-chorão.

Susto

    Assustou-se quando ouviu pequenas pancadas surdas, abafadas, no interior da casa.
    Julgou que era ela, a menina no escuro, a querer fazer-se ouvir fora da cave fechada a sete chaves. Olhou com receio para as visitas, e para o semblante dos filhos deles; e só se sentiu aliviado quando uma das crianças apontou pela janela o pica-pau a fazer barulho num dos ramos do teixo do jardim.



a espécie inteligente

     A nave espacial alienígena, vinda do quadrante mais afastado de Andrómeda, pousa na superfície da Terra. A primeira coisa que vêem é um homem com um serrote, a cortar o ramo de árvore em que está sentado.
   - Vamos embora! - pensam em coro - já nos sobejam parábolas de estupidez no Universo.

O dia claro

     Por um capricho das condições atmosféricas, a cidade acordou inesperadamente limpa pela manhã. Um vento intenso e intermitente varrera as nuvens de fumo que se enrolavam sobre os prédios e ruas, ao mesmo tempo que a água ionizada da chuva limpava as poucas plantas da fuligem e da crosta de metais pesados, e removia a epiderme tóxica dos prédios, dos carros e das estátuas. Ao contrário do que seria de esperar, o dia claro não trouxe a felicidade às pessoas, que saíram à rua quase asfixiadas pela vitória do oxigénio sobre  o monóxido de carbono. Não reconheciam aquela cidade como sua. O ar era diferente e opressivo, as cores assustavam, a luz do Sol causava tonturas.Num ápice, encheram-se de pessoas as urgências dos Hospitais, os suicídios tiveram um pico inesperado para aquela hora da manhã, e toda a gente estava ao telefone, lamuriando-se para os familiares distantes, para pastores e gurus, para linhas telefónicas de apoio, para programas em directo da rádio e da televisão para manifestarem o seu desagrado e a sua aflição. Nesses mesmos programas, a edilidade ditou instruções precisas para todos os cidadãos. Todas as fábricas da cintura industrial da cidade receberam ordens para aumentarem ao máximo a combustão dos seus fornos de queima, e todos aqueles que possuíssem um veículo motorizado foram incitados a trazê-lo para a rua e carregarem no acelerador com a máquina em ponto morto, para reporem o monóxido de carbono na atmosfera. Como achassem que isso ainda não seria suficiente, alguns residentes mais afoitos tomaram a iniciativa de incendiarem contentores de lixo e pneus de carros no meio da via.
     Quando o dia chegou ao meio, já as coisas haviam regressado à sua quase total normalidade. Havia diminuído a afluência aos Hospitais, já não chovia pessoas dos prédios, e as crianças já brincavam nos passeios e nos parques. Aos poucos, as pessoas haviam retomado as suas rotinas, e comparecido nos seus locais de trabalho com um indisfarçável  alívio e um sorriso aberto e radioso, como ninguém jamais se lembrava de ter admirado nas caras das pessoas daquela cidade. A cidade sobrevivera ao dia claro!

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...