War Games

   A mulher de camisa de dormir e longos cabelos castanhos escovados - muito bem escovados, diga-se - emitiu um pequeno guincho quando viu o homem mascarado entrar pela janela da cozinha.
   - Quem é você?
   - Um ladrão, como pode ver...
   - Saia, senão ligo para a polícia!
   - Não vale a pena, cortei os cabos todos, do telefone, da net, tudo. E não pense em gritar porque venho armado!
   - Não quero saber, vou gritar à mesma - anunciou.
   Ensaiou um grito que mal saiu da garganta porque, em dois saltos, o homem mascarado estava junto a ela, agarrando-a e fechando-lhe a boca com a  mão, e continuando a agarrá-la com força, deitou-a em cima da mesa da cozinha, e amordaçou-a com um pano que trazia na algibeira, e logo a obrigou a rodar o corpo, e atou-lhe as mãos atrás das costas enquanto ela se debatia energicamente. Curvando-se ao lado da mesa, conseguiu erguer o corpo dobrado por cima do seu ombro; e, segurando-a pelas pernas, carregou-a até ao sofá da sala contígua, onde a deitou com cuidado no conforto almofadado, compensando essa delicadeza quase maternal com dois violentos tabefes com a mão aberta nas suas faces. Apesar de tudo, os olhos dela sorriam, brilhavam e sorriam, e sorriam as maçãs do seu rosto, sorria ao seu modo o seu corpo, onde alastrava um tépido tremor como uma onda de desejo.
   - Se a senhora prometer que não grita, eu tiro-lhe a mordaça!
   Ela assentiu com a cabeça, e ele tirou-lha, mas subiu-a de forma que lhe vendasse os olhos.
   - Para quê isso, marido?
   Ele beijou-a, mordiscando-lhe o lábio.
   - Não sou teu marido, e não te conheço. Eu sou um ladrão e um assassino, lembras-te? E se voltas a falar-me assim, vou ter de te castigar.
   - Sim, castiga-me, malvado. Tens de me castigar, porque agora vou insultar-te, vou-te rebaixar e espezinhar até te sentires pior do que um cão...
   Enquanto ela desfiava todos os insultos de que se lembrava, ele amarrava com força uma segunda corda aos seus pulsos, prendendo-a ao sofá. O discurso dela foi interrompido por um som abafado vindo da cozinha.
   - Ouviste? - inquiriu ela- veio da cozinha...Deixaste a janela aberta?
   - Deixei, e acho que é outro ladrão, um tipo mesmo bera que recebeu uma sugestão anónima sobre uma casa cheia de riquezas que podiam ser dele se matasse a patroa. Preciso ir, senhora!
   - Essa brincadeira não tem piada. Solta-me, Júlio!
   «Ouviste, Júlio?
   «Júlio!?».
   A única resposta que teve do marido, foi o som da porta da entrada a fechar-se com uma sinistra discrição.


Mensagens populares deste blogue

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue

A viagem