odisseia

   - Qual é o caminho para Ítaca? - perguntaram as crianças ao velho aedo sentado sob a oliveira no largo da aldeia.
   Ele levantou a cabeça para as sombras que dançavam no alto.
   - O caminho para Ítaca está em todo o lado, e tudo nos leva até ela. Os gansos que migram no céu, o zunir duma mosca, o doce murmúrio das fontes nestas horas de calor, o calor áspero da areia na palma das nossas mãos. Ulisses não compreendeu isso, não compreendeu que Ítaca estava dentro dele, e que poderia encontrá-la se se sentasse na sombra de um árvore como esta. Quando ele parasse de procurar, o universo e os deuses iriam afeiçoar-se a ele, e os que ele amava viriam ao seu encontro, o seu velho pai, o filho leal, a industriosa Penélope.
   - Ulisses era estúpido? - perguntou uma delas, muito admirada.
   - Não, Ulisses, simplesmente, não era cego como eu, e os horizontes longínquos chamavam-no, o dorso das montanhas, as planícies ensolaradas e os abismos do mar- moradas de seres monstruosos e mágicos, cuja derrota melindrava os deuses arrogantes e vingativos. Quanto mais tempo a nave de Ulisses sulcava os mares, mais Ítaca se afastava, ocultando-se nos esconsos dum labirinto mágico enredado por esses deuses.
   - Mas também, se não fosse assim, não terias nada para contar, velho sábio...
   - E isso que importa? As minhas palavras não brilham como a forja dos Cíclopes, e as minhas histórias não transformam pessoas em animais. Quando olham cá para baixo, os deuses vêem apenas um cego a descansar sob uma oliveira, e ignoram que dentro de mim ressoa ainda o bronze das espadas dos Dárdanos, da mesma forma que consigo ouvir distintamente o mar a beijar a quilha do navio de Ulisses no porto de Ítaca.

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