O tubo da comida

   A "avozinha", como lhe chamavam, era uma pessoa muito querida no quartel. Deixavam-na passar pelos portões com moldura de arame farpado, e cruzava o pátio de areia sob o olhar tranquilo dos guardas armados nas torres de vigia. Quando entrava no bunker, ela e a soldadesca trocavam saudações, sorrisos, elogios. A avozinha abria um cestinho e tirava de lá uma pequena garrafa com licor de medronho que fazia as delícias dos guerreiros, e que acompanhava com um saco de papel com biscoitos que cozera no forno a lenha - biscoitos de amêndoa e gengibre, ou de limão e canela. Seguiam-se uns minutos de efusão e alegria entre eles, que a avozinha contemplava encantada como se admirasse as brincadeiras dos seus netos no parque. Depois, chamavam-na, e ela mergulhava num meandro de corredores escuros, seguindo os passos dum ordenança. As celas que se estendiam pelas duas margens do seu caminho, não cheiravam a amêndoa ou canela, mas a urina e a desespero. E a expressão dos rostos mudos que a miravam das janelinhas diminutas das portas era notoriamente distinta daquela dos guardas agraciados com as guloseimas que lhes trouxera. No fim daquele percurso, abria-se diante deles uma porta blindada, e um oficial de óculos recebia a avozinha, cumprimentava-a com deferência e abria uma segunda porta que dava para uma divisão intensamente iluminada. Na divisão apenas existia um armário metálico branco como os dos hospitais, e uma cama no centro, com um prisioneiro deitado, já anestesiado.
   A avozinha depunha a sua bolsa ao lado da cama e abria-a, tirando os apetrechos de que necessitava. Então, trauteando uma canção em surdina, afagava as têmporas e o peito do homem adormecido, e com uma agulha e linha, cozia-lhe os lábios com uma extremada doçura.

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