O escritor


Começou a ler e a escrever quando as crianças da sua idade ainda brincavam com bonecos de peluche, gatinhavam pelo chão e chuchavam no dedo.
Aos seis anos, já vencia qualquer concurso de soletração criado para crianças com o dobro da sua idade, e escrevia com desenvoltura e rigor.
Aos dez, começou a refinar a sua caligrafia. Ensaiou vários tipos de letra e acabou por dar preferência à caligrafia dos documentos novecentistas portugueses, que aprendeu a imitar na perfeição. As letras elegantes e criadas individualmente como pequenos desenhos, as palavras com uma ligeira inclinação, espaçadas com regularidade e ligadas por vezes por um discreto traço que as unia, os círculos cheios da pontuação, as belas iniciais capituladas na abertura dos capítulos que as assemelhavam a símbolos da heráldica.
Foi aí, quando se decidiu pela caligrafia com que mais se identificava, que começou a escrever a sério, sempre em folhas sem linhas, onde a elegância e a ordem das frases tornava irrelevante a ausência das linhas normativas. Escreveu um número impressionante de textos. Ensaios, poesia, romance, livros de viagens, tratados científicos, livros manuscritos de todo o género.
O corpus da sua obra é já inestimável. Devemos a ele podermos ler em irrepreensível caligrafia novecentista a transcrição meticulosa de tantas e tão boas obras, de Tostoi e Joyce a Camus, Darwin, Eça ou Alejo Carpentier. E a sua obra ainda não está acabada porque continua a escrever, manuscrevendo integralmente as obras que sentiu paixão por ler.

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