Instantâneo

    Jorge Livramento, tirou as férias para fugir da erosão de todos os dias na cidade enorme. Alugou uma pequena casa na Cotovia, e passou os dias a observar e filmar as aves da Serra da Arrábida. Depois duma manhã consagrada a observar a águia de Bonelli na serra do Risco, voltou à Cotovia pela N379, parando algumas vezes na berma da estrada para observar as aves.
    Num dado passo, deu consigo num troço estreito de estrada com um carro à sua frente que rolava aos ziguezagues. Podia parar um pouco, mas não levara suprimentos e tinha fome, pelo que aguentou a conduzir na peugada do outro. O condutor estava sozinho, mas não parava de falar, a gesticular teatralmente e, por vezes, levantando as mãos do volante para modelar alguma frase que as suas palavras não se sentiam capazes de rematar. Era notório que estava a falar ao telemóvel, de uma forma agitada, as rodas do carro beijavam o cascalho da berma, ele dava um safanão ao volante e o carro ia para meio da estrada, onde um novo safanão o trazia para a berma - e isto de forma continuada. Nem por um instante pensou em buzinar, não na Serra, onde, se os homens fossem sensatos, nem carros deveria haver (muito menos uma abjecta cimenteira, devorando-a e contaminando-a como um cancro no centro do coração).
   Esperou apenas, com uma paciência que não estava no seu zén-ite
   «Vá lá! Acaba com o telefonema! Só vem para a Serra quem gosta de solidão» - murmurou consigo, como se o fulano o pudesse ouvir.
   Não o ouviu, estava a falar ao telefone. E o carro aos ésses, com as falésias a desenrolarem-se no flanco esquerdo do alcatrão..
   «Acho que bebeste, amigo, mas não te levo a mal. Tem dias que a vida não se aguenta se estiver enxuta e crua. Mas encosta, pá! Estica as pernas, fuma um cigarro e manda o mundo à merda. Vá lá, encosta!».
    Não encostou, oscilavam ele e o carro para a direita e para a esquerda como um pêndulo instável, e ele sempre a falar e a gesticular. E então a coisa complicou-se. O carro contorna uma curva à direita, onde aparece do nada um ciclista na outra faixa que o condutor procura evitar em desespero descrevendo um ésse com o carro. Evita-o, mas perde o domínio da viatura, que sai em voo plano sobre a falésia abrupta.
    «Lá em baixo, não tens rede!» - avisou-o ainda, de forma amigável.

Mensagens populares deste blogue

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue

A viagem