Enfétichado 2

     - Não te vás embora durante a noite, isso faz-me sentir desconfortável - queixou-se ela, com a cabeça apoiada no seu peito, com o emaranhado dos lençóis e almofadas a envolvê-los como as paredes dum ninho.
     - Preciso sempre ir antes de amanhecer...tenho as minhas razões.
     Ela exalou um suspiro de amuo.
     - É muito triste acordar sozinha na cama de manhã. Parece que nos envergonhamos dalguma coisa, ou que somos criminosos e estamos a esconder-nos de alguém...sabes...isso faz-me sentir assim...uma puta...tiveste o que querias e vais-te embora sem te dares ao trabalho de me dares um pouco de carinho, e conversar.
     - Estás a ser muito dramática. Sabes que, enquanto é noite, eu estou incondicionalmente contigo, mas preciso de me ir embora depois. Não vejo qual é o problema...
     Ela assentiu, fingindo-se convencida dos argumentos, mas intimamente resolvida a manter o amante consigo pela manhã fora, talvez pelo tempo suficiente para tomarem o pequeno-almoço juntos e passar o dia como um casal comum.
     Na vez seguinte que ele ancorou na sua cama, ela experimentou o expediente da bebida. Uma bela garrafa de Merlot e duas taças na mesa-de-cabeceira, que tomaram com uma sensual cumplicidade antes e depois do acto. Ela julgava que o vinho amaciaria o seu sentido de alerta, mas ele não se esqueceu de colocar o alarme, e lá se escapuliu ele como de costume a altas horas da noite, deixando-a na ilha deserta do seu colchão.
     Ela começou a ficar danada com aquela situação. Ainda tentou às boas, pedindo-lhe mais duas vezes para ficar com ela, sem resultado, e depois, passou à acção. Ele não lhe deixava outra alternativa.
    Ministrou-lhe às ocultas um soporífero e, quando ele acordou, estava algemado à cabeceira da cama. Entrou em pânico, gemendo e suplicando que ela o soltasse.
     - Boa noite, amor! Ou antes - Bom dia, amor! Já é quase dia e aqui estamos nós ainda - ela falava de forma contínua para não o ouvir - além das algemas, trouxe outros acessórios do Sex-Shop - uma chibatazinha muito querida, umas pulseiras de tecido que picam, e que podemos prender à volta do pescoço ou no teu coiso, uma trela de dominadora... Espera! Podemos começar por uma massagem sensual para criar ambiente. Vou buscar aquele meu creme...
     - Espera - gritou ele quando ela cessou a verborreia - tira-me as algemas! Rápido!
     Mas ela já não ouvia nem estava no quarto. Na casa-de-banho, remexeu no armário sobre o lavatório e encontrou o creme que procurava. No vidro da janelinha pequena, já transluzia o dia.
     Quando voltou ao quarto, já não encontrou o amante. Estavam lá as algemas, e um monte de cinzas que conformava, grosso modo, a silhueta do seu corpo deitado.
     Ela exclamou:
     - Ué! Bastava teres-me dito que não gostavas dessas coisas!


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