Die katze


Foi-nos cedido o gato de Schrödinger para cuidarmos dele, porque tinhamos mais experiência com animais do que os cientistas, falando, claro está, das relações habituais que se tem com os animais de companhia e não daquele tipo de experiência ou relação que se desenrola entre um investigador e as suas cobaias. Adiante. O gato de Schrödinger, apesar da sua fama e dos debates e cálculos que já causou entre os físicos, não se comportou até agora de modo distinto dos outros gatos que temos cá em casa (e sim, sabemos o que estão a pensar, nós temos de elaborar um relatório semanal detalhado sobre o seu comportamento, porque os cientistas não passam sem isso, é o seu sonífero habitual sem o qual se converteriam em ínsones zombies). Posso dizer-vos o que também transmiti no primeiro desses relatórios - o dito gato come e dorme como os outros animais, gosta de se roçar nas nossas pernas, mesmo enquanto caminhamos, de pequenos brinquedos com os quais se entretém no chão, e gosta de fazer o gosto às suas pequenas garras, arranhando as cobertas dos sofás, os tapetes e, muito particularmente, os cortinados compridos das janelas do salão. No geral, é um gato-ninguém, um exemplar banalíssimo dos felinos dessa raça. Tem as suas necessidades orgânicas, tem a sua necessidade de afecto e atenção, e também exibe alguns comportamentos irritantes, como qualquer gato, aliás (quando sente fome, por exemplo, salta para cima da mesa de jantar para nos lembrar que já são horas de o alimentar), comportamentos que vamos moldando com oportunas repreensões e pequenos e humanos correctivos. No aspecto social, também não é distinto, interage com os outros gatos, e desenvolve a sua actividade sexual com as gatas de casa e da vizinhança. Como os outros gatos, habituamos o gato de Schrödinger a urinar numa caixa de areia própria que mantemos no alpendre das traseiras mas, apesar disso, ainda não conseguimos demovê-lo de, esporadicamente, marcar o seu território com urina. E é apenas aí que o gato de Schrödinger se distingue dos outros gatos, porque a sua urina tem um cheiro completamente diferente nas alturas em que está morto.



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